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— Luz — murmurou Rand, distraído —, você pula de um assunto a outro feito uma gota d’água na frigideira quente. Vou receber o Povo do Mar quando tiver tempo. — Ele esfregou a testa, e seus olhos pareciam não ver. Então piscou, e já a encarava de novo. — Pretende ficar aqui até elas voltarem?

Ao que parecia, Rand queria mesmo se ver livre dela.

Egwene parou diante da porta, antes de sair, mas Rand já começara a andar de um lado a outro pela sala, as mãos entrelaçadas às costas, falando sozinho. Falava bem baixo, mas ela conseguiu entender uma parte:

— Que o queime, onde você está se escondendo? Sei que está aí!

Arrepiada, Egwene saiu. Se Rand estivesse mesmo enlouquecendo, não havia o que fazer. Bem, haveria de ser o que a Roda tecesse, e teriam que lidar com a tessitura que viesse.

Egwene se obrigou a se acalmar quando notou que estava atenta aos serviçais que passavam de um lado a outro do corredor, perguntando-se quais seriam agentes das Aes Sedai. Haveria de ser o que a Roda tecesse. Cumprimentando Somara com um meneio de cabeça, ela endireitou os ombros e fez um esforço enorme para não sair correndo até a entrada de serviço mais próxima.

Não havia muita conversa no interior da melhor carruagem de Arilyn, que partia do Palácio do Sol seguida pelo carroção que antes levara os baús, mas que agora transportava apenas as serviçais e o condutor. Nesune, que passara um tempo tamborilando sobre as costuras do banco de couro, começou a bater os dedos contra os lábios, pensativa. Que jovem interessante. Um objeto de estudo fascinante. Seu pé encostou em uma das caixas para catalogação de espécimes sob o assento — Nesune nunca ia a lugar algum sem seus compartimentos apropriados para catalogar os novos espécimes que encontrasse. Era de se pensar que o mundo inteiro já tivesse sido catalogado, mas, desde que partiram de Tar Valon, ela já armazenara cinquenta plantas, o dobro de insetos, a pele e os ossos de uma raposa, três tipos de cotovias e nada menos que cinco espécies de esquilos terrestres que tinha certeza de que ainda não estavam em nenhum registro.

— Eu não sabia que você e Alviarin eram amigas — comentou Coiren, depois de um tempo.

Galina fungou com desdém.

— Não é preciso ser amiga dela para saber que ela estava bem quando partimos.

Nesune se perguntou se Galina sabia que estava fazendo um beicinho de irritação. Bem, talvez fosse apenas o formato natural da boca… ora, a pessoa precisava aprender a lidar com o próprio rosto.

— Acha que ele sabia mesmo? — prosseguiu Galina. — Que ele sabia que estávamos… não é possível. Devia ser um palpite.

Nesune quase se aprumou, atenta, mas não parou de tamborilar os lábios. Era um esforço óbvio para mudar de assunto, assim como um sinal de que Galina estava nervosa. O silêncio persistira por todo aquele tempo porque ninguém queria tocar no nome de al’Thor. Ao mesmo tempo, parecia não haver nenhum outro assunto possível. Por que Galina não queria falar sobre Alviarin? As duas decerto não eram amigas; era raro uma Vermelha ter amizade com alguém de outra Ajah. Nesune registrou a dúvida em seu arquivo mental.

— Se era só um palpite, ele poderia fazer fortuna nas apostas das feiras. — Coiren não era boba. Era explosiva até além da conta, mas não era nada boba. — Não importa o quanto essa ideia pareça ridícula, temos que presumir que ele pode sentir saidar numa mulher.

— Isso pode ser um desastre — resmungou Galina. — Não, não é possível. Só pode ter sido um palpite. Qualquer homem capaz de canalizar presumiria que estávamos abraçadas a saidar.

Nesune realmente se irritava com aquele beicinho; se irritava com aquela expedição toda. Estaria mais do que feliz em fazer parte da empreitada se tivessem lhe pedido para ir, mas Jesse Bilal não pedira, apenas a colocara no cavalo quase à força. Não importava como eram as coisas nas outras Ajahs, ninguém esperava que a líder do conselho das Marrons agisse daquela forma. E o pior de tudo era que suas acompanhantes estavam tão concentradas no jovem al’Thor que pareciam ter ficado cegas para qualquer outra coisa.

— O que acharam da irmã presente naquela audiência? — indagou, pensando alto.

Talvez não fosse uma irmã — sempre encontrava três Aiel quando ia à Biblioteca Real, e duas delas eram capazes de canalizar. Ainda assim, queria ver as reações das outras. Não estava desapontada — ou melhor, estava. Coiren apenas se endireitou, mas Galina a encarou, chocada. Nesune fez um esforço enorme para conter um suspiro. As duas realmente eram cegas. Tinham ficado a poucas passadas de uma mulher capaz de canalizar, mas não a sentiram só porque não podiam enxergá-la.

— Não sei como ela se escondeu — prosseguiu —, mas vai ser interessante descobrir.

Só podia ter sido obra dele, já que as três teriam notado qualquer tessitura de saidar. As outras não perguntaram se ela tinha certeza, pois sabiam que ela sempre deixava claro quando estava apenas conjecturando.

— É uma confirmação de que Moiraine está viva — declarou Galina, recostando-se no assento da carruagem com um sorriso sombrio. — Minha sugestão é mandar Beldeine atrás dela. Aí nós a pegamos e a deixamos amarrada no porão. Isso vai manter a mulher longe de al’Thor, pelo menos. E podemos arrastar Moiraine de volta para Tar Valon junto com o garoto. Duvido de que ele vá perceber, basta ofuscar sua vista com bastante ouro.

Coiren balançou a cabeça com vigor, em uma negativa enfática.

— Não temos nenhuma confirmação a mais do que já tínhamos, não de Moiraine. Pode ser essa Verde misteriosa. Quanto a essa ideia de descobrir quem quer que seja, eu concordo. Mas precisamos pensar bem antes de agir. Não vou arriscar todo o nosso plano, feito com tanto cuidado. Temos que nos manter cientes de que al’Thor tem uma ligação com essa irmã, quem quer que ela seja, e que ele pode ter pedido mais tempo apenas como uma estratégia. Por sorte, temos tempo.

Galina assentiu, ainda que relutante — a mulher se casaria e iria morar em uma fazenda antes de arriscar os planos.

Nesune se permitiu um suspiro tímido. Além daquela pompa toda, o outro único verdadeiro defeito de Coiren era sua mania de afirmar o óbvio. A mulher de fato tinha a cabeça boa, quando a usava. E de fato tinham tempo. Seu pé encostou outra vez em uma das caixas de espécimes catalogados. Não importava como tudo transcorreria, o registro que pretendia escrever sobre al’Thor seria o ápice de sua vida.

CAPÍTULO 28

Cartas

Lews Therin estava lá — Rand tinha certeza —, mas em sua mente não havia nenhum sussurro que não fosse dele próprio. No restante do dia, chegou a tentar pensar em outras coisas, por mais inúteis que fossem. Berelain quase perdeu as estribeiras com o tanto de vezes que ele apareceu do nada para perguntar sobre algum assunto que ela era perfeitamente capaz de resolver sozinha. Rand não tinha certeza, mas achava que a mulher começara a evitá-lo. Até Rhuarc começou a se mostrar incomodado depois da décima vez que Rand o encurralou querendo falar sobre os Shaido — os Shaido estavam imóveis, e Rhuarc só via duas saídas: deixá-los em paz na Adaga do Fratricida ou expulsá-los à força. Herid Fel tinha saído sem destino, o que Idrien logo apontou que ele fazia com frequência, ocasiões em que nunca era encontrado em lugar nenhum — quando Fel se perdia em pensamentos, às vezes também se perdia pela cidade. Rand acabou gritando com a diretora. Fel não era culpa dela, muito menos sua responsabilidade, mas Rand a deixou pálida e trêmula. Seu humor oscilava feito uma rajada de trovões varrendo o horizonte. E também gritou com Meilan e Maringil até os dois começarem a tremer nas bases e se retirarem, pálidos, além de reduzir Colavaere a lágrimas e ter chegado a pôr Anaiyella para correr, as saias erguidas até os joelhos. Inclusive, quando Amys e Sorilea foram perguntar o que ele tinha conversado com as Aes Sedai, gritou com as duas também — pela cara que Sorilea fez enquanto as suas Sábias iam embora, suspeitou de que fosse a primeira vez que alguém erguia a voz para ela na vida. Estava incomodado por saber — sem sombra de dúvida — que Lews Therin estava ali, que era mais do que uma voz, era um homem escondido dentro de sua cabeça.