Enquanto pensava em uma possível saída, percebeu que ainda segurava a carta que Sulin trouxera. Ele a enfiou no bolso e desafivelou o cinturão, que largou sobre o Cetro do Dragão, então pegou o pergaminho de volta. Quem lhe enviaria uma mensagem por um cavaleiro que nem sequer fizera uma pausa para tomar café da manhã? Não havia nada escrito do lado de fora, nenhum nome. Apenas o mensageiro, agora desaparecido, poderia ter dito para quem era endereçada a mensagem. O selo era outro brasão que ele não reconhecia, alguma flor prensada sobre uma cera roxa. O pergaminho era pesado, do tipo mais caro que havia. O conteúdo, escrito em uma caligrafia fina e floreada, trouxe um sorriso pensativo a seu rosto.
Primo,
Vivemos tempos delicados, mas senti que deveria escrever para assegurá-lo de minha boa vontade e expressar minha esperança de, em troca, também ter sua simpatia. Não tema, eu o reconheço e legitimo. No entanto, há alguns que não veriam com bons olhos alguém que se aproximasse de você diretamente, sem primeiro passar por eles. A única coisa que quero de você é que guarde minhas confidências nas chamas de seu coração.
— Que sorriso é esse? — perguntou Aviendha, curiosa, espiando a carta. Ainda havia um toque de raiva nas marcas ao redor de sua boca, um resquício da irritação pela vergonha que ele a fizera passar.
— É bom receber notícias de alguém tão transparente — respondeu.
O Jogo das Casas era simples se comparado ao ji’e’toh. O nome já dizia muito sobre o remetente, mas, se o pergaminho caísse em mãos erradas, pareceria apenas um bilhete para um amigo ou talvez uma resposta calorosa a algum favor que lhe fora pedido. Alliandre Maritha Kigarin, Abençoada pela Luz, Rainha de Ghealdan, jamais trataria alguém que nunca vira com tanta intimidade, ainda mais o Dragão Renascido. Era óbvia sua preocupação com os Mantos-brancos em Amadícia, assim como com o Profeta Masema. Teria que fazer alguma coisa a respeito de Masema. Alliandre fora muito cautelosa, sem arriscar pôr mais que o necessário no papel. E o lembrara de queimar a carta depois de ler — nas chamas de seu coração. Ainda assim, era a primeira vez que um governante o reconhecia sem que ele segurasse a espada no pescoço de sua nação. Pois bem, se ao menos ele conseguisse encontrar Elayne e lhe devolver Andor antes que tivesse outra batalha para enfrentar naquelas terras…
A porta se abriu bem devagar, e Rand ergueu os olhos para a sala. Não reparou em nada relevante, então se voltou outra vez para a carta, ponderando se assimilara toda a mensagem. Enquanto lia, teve que esfregar o nariz, incomodado. Lews Therin e aquela história de morte. Não conseguia se livrar daquela sensação de imundície.
— Jalani e eu vamos assumir nossas posições lá fora — anunciou Nandera.
Rand assentiu, absorto, contemplando a carta. Tinha certeza de que Thom encontraria seis coisas que ele deixara escapar, e só em uma primeira leitura.
Aviendha tocou seu braço, mas afastou a mão com um sobressalto.
— Rand al’Thor, precisamos conversar.
De súbito, tudo fez sentido. Ele vira a porta se abrindo. Não estava com aquele incômodo no nariz porque sentia cheiro de imundície, não porque se sentia maculado. Na verdade, não era bem um cheiro. Deixando cair a carta, empurrou Aviendha com tanta força que ela perdeu o equilíbrio, soltando um grito assustado — ao menos estava longe dele, longe do perigo. O tempo pareceu desacelerar. Rand agarrou saidin enquanto dava meia-volta.
Nandera e Jalani também se viraram para ver o que fizera Aviendha gritar. Rand teve que olhar com muita atenção para conseguir ver o homem alto de casaco cinza que nenhuma Donzela vira passar. O homem tinha os olhos escuros e sem vida fixos em Rand. Mesmo sabendo que o intruso estava diante de si, Rand se sentiu tentado a desviar os olhos do Homem Cinza — era isso que ele era, um dos assassinos da Sombra. A carta ainda pousava no chão quando o Homem Cinza percebeu que Rand o avistara. O grito de Aviendha ainda ecoava, ela havia acabado de cair com força no chão. Uma faca surgiu na mão do Homem Cinza, que manteve a lâmina abaixada e avançou. Quase com descaso, Rand o envolveu em espirais de Ar — uma barra de fogo incandescente e grossa feito um braço passou zunindo por cima de seu ombro e abriu um buraco bem no meio do peito do Homem Cinza, um buraco do tamanho de um punho. O assassino morreu sem nem reagir. A cabeça desabou para o lado — seus olhos, tão mortos quanto antes, ainda encaravam Rand.
Depois de morto, o poder misterioso que tornava o Homem Cinza tão difícil de notar já não fazia efeito. Depois de morto, o sujeito ficou tão visível quanto qualquer outra pessoa. Aviendha, ainda no chão, mas já começando a se levantar, soltou uma exclamação de surpresa, e Rand sentiu os arrepios que indicavam que ela abraçara saidar. Nandera subiu o véu, deixando escapar um grunhido surpreso, e Jalani começou a erguer o dela.
Rand deixou o corpo desabar, mas continuou agarrado a saidin quando se virou para Taim, parado na porta.
— Por que o matou? — perguntou para o recém-chegado. O Vazio era responsável apenas por parte da frieza em sua voz. — Eu o tinha capturado. Ele poderia ter dito alguma coisa, talvez até revelasse quem o enviou. Aliás, o que você está fazendo aqui no meu quarto, entrando desse jeito?
Taim avançou até ele em um passo muito calmo, bem à vontade. Usava um casaco preto com dragões entrelaçados ao redor das mangas vermelhas e azuis. Aviendha se levantou depressa, empunhando a faca de cintura. Apesar de estar abraçada a saidar, o brilho em seus olhos deixava claro que ela estava tão inclinada a cravar a lâmina em Taim quanto a embainhá-la de volta. Nandera e Jalani continuavam veladas e estavam a postos, as lanças em riste. Taim as ignorou. Rand sentiu quando o outro homem largou o Poder. Nem ao menos parecia preocupado com o fato de Rand ainda estar preenchido por saidin. Quando encarou o Homem Cinza morto, aquele quase sorriso tão peculiar contorceu seus lábios.
— Coisas hediondas, esses Sem-alma. — Qualquer outra pessoa teria se arrepiado com a visão, mas não Taim. — Abri um portão para a sua varanda porque achei que você iria querer saber imediatamente.
— Alguém andou aprendendo depressa demais? — interrompeu Rand, e Taim abriu outra vez aquele meio sorriso.
— Não, não é um dos Abandonados disfarçado. A não ser que tenha conseguido se disfarçar de um garoto de pouco menos de vinte anos. O rapaz se chama Jahar Narishma, ele tem a centelha, mas ainda não a manifesta. A habilidade tende a se manifestar mais tarde nos homens do que nas mulheres. Você deveria visitar a escola. Vai ficar surpreso com as mudanças.
Rand não duvidava. Jahar Narishma não era nem de longe um nome andoriano. Pelo que sabia, as Viagens não impunham limites, e parecia que Taim se arriscara a ir bem longe no recrutamento. Rand não disse nada, só encarou o corpo estirado no tapete.
Taim fechou a cara, mas não perdeu a compostura, apenas pareceu irritado.
— Pode acreditar, eu também queria que esse aí ainda estivesse vivo. Vi o Homem Cinza e agi sem pensar, já que a última coisa que quero é você morto. Você prendeu o assassino no instante em que canalizei, mas foi tarde demais para frear o golpe.
Tenho que matá-lo, murmurou Lews Therin, e o Poder explodiu dentro de Rand. Paralisado, lutou para afastar saidin — foi uma luta difícil. Lews Therin tentava se agarrar à Fonte, tentava canalizar. Por fim, o Poder Único se esvaiu aos poucos, feito água escoando de um balde furado.
Por quê?, inquiriu Rand. Por que quer ele morto? Não houve resposta, apenas, ao longe, uma risada louca e um choro angustiado.
Aviendha o encarava, o rosto cheio de preocupação. Ela largara a faca, mas Rand ainda sentia aquele formigamento que lhe indicava que ela continuava em contato com saidar. As duas Donzelas tinham baixado os véus depois de se certificarem de que a chegada de Taim não era um ataque. Mesmo atentas a Taim e ao ambiente em volta, elas trocaram um olhar constrangido — só restava saber o motivo do constrangimento.