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Rand sentou-se em uma cadeira ao lado da mesa onde estava a espada, apoiada no Cetro do Dragão. A luta durara apenas alguns instantes, mas sentia os joelhos fracos. Lews Therin quase assumira o controle, quase agarrara saidin. Antes, na escola, ele foi capaz de fingir para si mesmo que não tinha notado, mas não conseguiria desta vez.

Se Taim percebeu alguma coisa, não deixou transparecer. O homem se inclinou para apanhar a carta e deu uma olhadela antes de entregá-la a Rand, curvando-se na mais ínfima das mesuras.

Rand enfiou o pergaminho no bolso. Nada abalava Taim, nada perturbava seu equilíbrio. Por que Lews Therin o queria morto?

— Considerando como você estava querendo ir atrás das Aes Sedai, estou surpreso por ainda não ter ouvido uma sugestão de atacar Sammael. Eu, você e mais alguns alunos mais fortes atacando-o lá em Illian, chegando de surpresa por um portão. Você sabe que o Homem Cinza só pode ter vindo de Sammael.

— Talvez — respondeu Taim, sem rodeios, examinando o corpo no chão. — Eu daria tudo para ter certeza. — Ele soava completamente sincero. — Quanto a Illian, duvido que seja simples como acabar com algumas Aes Sedai. Fico pensando no que eu faria, se estivesse no lugar de Sammael. Já teria envolvido Illian em um selo de proteção que me apontasse qualquer homem que sequer pensasse em canalizar e reduziria até o chão ao redor dele a cinzas sem nem dar tempo de o coitado piscar.

Rand também já pensara nisso. Ninguém defendia um lugar melhor que Sammael. Talvez a questão fosse apenas a loucura de Lews Therin. Talvez também a inveja. Rand tentou dizer a si mesmo que não estava evitando a escola porque era ele o invejoso, mas sempre sentia uma pontada estranha quando estava perto de Taim.

— Você já contou a novidade. Sugiro que vá cuidar do treinamento desse tal Jahar Narishma. Treine-o bem. Pode ser que a habilidade dele seja necessária muito em breve.

Os olhos escuros de Taim cintilaram por um breve instante, então ele baixou a cabeça em uma leve mesura. Sem mais uma palavra, o homem agarrou saidin e abriu um portão ali mesmo. Rand se obrigou a ficar sentado, sem canalizar, até Taim ir embora; o portão se afinando até virar uma linha fulgurante. Não podia se arriscar em mais uma luta contra Lews Therin, não considerando a chance de perder e começar a lutar contra Taim. Por que Lews Therin queria aquele homem morto? Luz, Lews parecia querer todos mortos, incluindo a si mesmo.

Tinha sido uma manhã agitada, sobretudo considerando que o céu ainda estava começando a clarear. Bem, houvera mais notícias boas do que ruins. Ele encarou o Homem Cinza estendido no tapete. A ferida decerto fora cauterizada no instante em que se abrira, mas a Senhora Harfor faria questão de avisá-lo se houvesse qualquer manchinha no tecido — ah, com certeza ele ficaria sabendo, mesmo que ela não pronunciasse uma palavra a respeito. Quanto à Mestra das Ondas do Povo do Mar… Bem, a mulher podia ir se afogar na própria petulância, no que lhe dizia respeito. Já tinha muito com que lidar sem mais uma mulher melindrosa.

Nandera e Jalani ainda remexiam os pés perto da porta. Deveriam ter ido ocupar seus postos do lado de fora da porta assim que Taim partiu.

— Se as duas ainda estão chateadas por conta do Homem Cinza, podem esquecer o assunto. Só uma idiota esperaria notar um Sem-alma sem ser por puro acaso, e nenhuma de vocês é idiota.

— Não é isso — retrucou Nandera, rígida.

Jalani cerrara o maxilar com tanta força que era evidente que estava se esforçando para segurar a língua.

Então Rand compreendeu. As duas não achavam que deveriam ter percebido o Homem Cinza, mas mesmo assim sentiam a vergonha de não terem conseguido notar o ataque. Além da vergonha, havia o medo da humilhação ainda por vir caso a notícia de seu “fracasso” se espalhasse.

— Não quero que ninguém saiba que Taim esteve aqui, nem o que ele disse. O povo já fica ansioso demais por saber que a escola fica aqui perto da cidade, as pessoas não precisam do medo de achar que Taim ou um dos alunos pode aparecer de repente. Acho que o melhor é não falarmos sobre nada do que aconteceu hoje de manhã. Não temos como esconder um corpo, mas quero que as duas jurem que vão apenas dizer que um homem tentou me matar e morreu por conta disso. É tudo o que eu pretendo revelar, e não quero que me pintem como um mentiroso.

A gratidão em seus rostos foi surpreendente.

— Eu tenho toh — murmuraram, quase ao mesmo tempo.

Rand pigarreou de repente. Não fora essa sua intenção, mas pelo menos as tranquilizara. Foi então que teve uma ideia para lidar com Sulin. A mulher não iria gostar, mas ainda estaria cumprindo sua toh — talvez ainda mais por não gostar. E aliviaria sua consciência, pelo menos um pouco, além de pagar parte de sua toh para com ela.

— Agora voltem para seus postos, ou então vou começar a achar que vocês é que querem ficar suspirando pelas minhas sobrancelhas. — Nandera não tinha dito isso? Dado a entender que Aviendha estava fascinada por suas sobrancelhas? — Andem. E mandem alguém para recolher esse sujeito daqui. — As duas saíram sorridentes, conversando na linguagem de sinais. Ele ficou ali, parado, então segurou Aviendha pelo braço. — Você disse que precisamos conversar. Vamos ficar no quarto até este aposento estar limpo.

Se houvesse alguma mancha, talvez Rand pudesse canalizar para limpá-la.

Aviendha se desvencilhou com um puxão.

— Não! Lá, não! — Ela respirou fundo e moderou o tom, mas ainda parecia desconfiada e um tanto irritada. — Por que não podemos conversar aqui?

Não havia motivo além do homem morto no chão, o que para ela parecia não fazer diferença. Aviendha o empurrou de volta para a cadeira, quase com violência, então o encarou e respirou fundo antes de falar.

— O ji’e’toh é a base da sociedade Aiel, é o que somos. Hoje de manhã você me envergonhou até os ossos.

Com os braços cruzados e encarando-o de frente, a ruiva lhe passou um sermão sobre sua ignorância e a importância de encobri-la até que ela conseguisse retificar a questão, depois explicou que a toh precisava ser satisfeita a qualquer custo. Ah, nessa parte ela gastou tempo.

Rand sabia que não era esse o assunto que a ruiva tivera em mente quando o chamou para conversar, mas estava gostando de analisar aqueles olhos — gostando mais do que deveria. Apreciando. Pouco a pouco, foi contendo o prazer de olhar nos olhos de Aviendha, então esmagou a satisfação até restar apenas um desejo abafado.

Achou que disfarçara os sentimentos, mas decerto algo mudara em sua expressão. A voz de Aviendha foi morrendo, e ela ficou ali, encarando-o, a respiração alta e entrecortada. Então desviou os olhos com um esforço visível.

— Pelo menos agora você entendeu — murmurou ela. — Tenho que… preciso… contanto que você entenda.

Ela ergueu as saias e saiu em disparada. Contornou o corpo como se não passasse de um arbusto em seu caminho.

Rand foi deixado para trás, naquela sala que por algum motivo lhe pareceu mais escura, sozinho com o corpo de um homem morto. Aquilo caía bem até demais. Quando os gai’shain chegaram para recolher o corpo, encontraram Rand rindo baixinho.

Padan Fain estava sentado com os pés apoiados em uma banqueta almofadada, observando a beleza da luz do sol nascente refletindo na lâmina curva da adaga que ele girava em suas mãos. Não era suficiente ter a arma presa ao cinto; de tempos em tempos ele simplesmente precisava tocá-la. O enorme rubi no punhal reluzia com uma malevolência intensa. A adaga era parte dele — ou ele era parte da adaga. A arma era parte de Aridhol, que os homens chamavam de Shadar Logoth. Por outro lado, ele também era parte de Aridhol — ou Aridhol era parte dele. Estava louco e sabia bem disso, mas não se importava, já que estava louco. A luz do sol refletia no aço, aço mais letal do que qualquer lâmina de Thakan’dar.