Um farfalhar chamou sua atenção e ele olhou para o Myrddraal do outro lado do cômodo, sentado, aguardando que ele terminasse. A criatura não tentou encará-lo — já fazia um bom tempo que Fain o fizera parar de tentar.
Ele tentou retornar à contemplação da lâmina, tentou voltar a apreciar a beleza perfeita da morte perfeita, a beleza do que Aridhol já fora e do que voltaria a ser, mas o Myrddraal quebrara sua concentração. Estragara tudo. Quase se levantou e matou a criatura. Os Meio-homens levavam muito tempo para morrer. Quanto tempo aquele levaria, se Fain usasse a adaga? Parecendo sentir seus pensamentos, a criatura se remexeu outra vez. Não, melhor não, ela ainda podia ser útil.
De todo modo, era difícil permanecer concentrado por muito tempo em uma coisa só. Exceto em Rand al’Thor, claro. Sentia o garoto, podia apontar para a direção em que ele estava, até estimar a distância. Al’Thor o puxava, puxava até doer. Algo mudara nos últimos tempos, a mudança chegara de repente, quase como se alguém tivesse se apossado de parte de al’Thor e, no processo, tivesse tomado uma parte que o próprio Fain possuía. Não era problema. O garoto era dele.
Desejou poder sentir a dor de al’Thor — não conseguia acreditar que não tivesse ao menos lhe causado alguma dor. Por enquanto tinham sido apenas agulhadas, no máximo, mas uma quantidade suficiente de agulhadas acabaria por esgotá-lo. Os Mantos-brancos estavam firmes na oposição ao Dragão Renascido. Fain contorceu os lábios em um riso desdenhoso. Pouco provável que Niall algum dia apoiasse al’Thor mais do que Elaida o teria apoiado, mas era melhor não tomar nada como certo, quando se tratava daquele garoto maldito. Bem, já conseguira resolver a situação daqueles dois com o que trazia de Aridhol — talvez até conseguisse confiar nas próprias mães de novo, mas nunca confiariam em al’Thor.
A porta se abriu de repente, e o jovem Perwyn Belman irrompeu no recinto, seguido pela mãe. Nan Belman era uma mulher vistosa, embora agora fosse raro para Fain notar se uma mulher era ou não vistosa. Nan era uma Amiga das Trevas e achava que seus juramentos eram apenas minimamente perversos até Padan Fain bater à sua porta. Nan achava que ele também era Amigo das Trevas, alguém importante nos conselhos. Claro que Fain estava longe disso — estaria morto assim que um dos Escolhidos pusesse as mãos nele. O pensamento suscitou uma risadinha.
Tanto Perwyn quanto a mãe se intimidaram com a visão do Myrddraal, claro, mas o garoto se recompôs primeiro, alcançando Fain enquanto a mulher ainda tentava recuperar o fôlego.
— Mestre Mordeth, Mestre Mordeth — chamou o garoto de casaco vermelho e branco, em uma voz esganiçada, trocando o peso de um pé para o outro nervosamente —, trago a notícia que o senhor queria.
Mordeth. Então tinha usado esse nome? Às vezes, Fain não conseguia lembrar o nome que usara em determinada situação, não conseguia saber qual nome era o dele. Abriu um sorriso afetuoso, embainhando a adaga por baixo do casaco.
— E que notícia seria essa, meu jovem?
— Alguém tentou matar o Dragão Renascido hoje de manhã. Um homem. O sujeito morreu, mas passou pelos Aiel e conseguiu entrar nos aposentos do Lorde Dragão.
Fain sentiu o sorriso virar um rosnado. Alguém tentara matar al’Thor? Al’Thor era dele! O garoto morreria pelas suas mãos, e de ninguém mais! Mas… O assassino passara pelos Aiel e entrara nos aposentos de al’Thor?
— Um Homem Cinza! — Não reconheceu o som rouco como sua própria voz. Homens Cinza eram coisa dos Escolhidos. Será que nunca se livraria da interferência deles?
Toda aquela ira precisava ser extravasada ou ele iria explodir. Em um gesto quase displicente, roçou a mão no rosto do garoto, que arregalou os olhos e começou a tremer — tremia tão intensamente que rangia os dentes.
Fain não entendia muito bem aqueles truques que conseguia fazer. Talvez fosse um toque do Tenebroso, talvez de Aridhol. Começara lá, depois que deixara de ser apenas Padan Fain. Só sabia que agora conseguia fazer certas coisas, bastava tocar o alvo.
Nan desabou de joelhos ao lado da cadeira dele, agarrando seu casaco.
— Piedade, Mestre Mordeth — implorou, ofegante. — Por favor, tenha piedade. Ele é só uma criança. Uma criança!
Fain a encarou, durante um instante, curioso, inclinando a cabeça. Era mesmo uma mulher muito bonita. Plantou o pé no peito dela e a empurrou para longe, querendo espaço para se levantar. O Myrddraal, que assistia à cena furtivamente, virou a cabeça depressa quando viu que ele notara. Ah, o Meio-homem se lembrava muito bem de seus… truques.
Fain andou de um lado a outro. Precisava se mexer. Al’Thor tinha que cair por suas mãos. Suas! Não dos Escolhidos. Como conseguiria feri-lo outra vez, apunhalá-lo bem no coração? Bem, havia aquelas garotas abestalhadas lá no Sabujo de Culain. Mas se al’Thor não saíra do lugar quando Dois Rios foi atacada, de que se importaria se Fain incendiasse a estalagem com aquelas garotinhas atrevidas dentro? Ah, o que ele tinha para usar? Só restavam alguns dos homens que tirara dos Filhos da Luz. A verdade é que aquilo fora apenas um teste — ah, o homem que conseguisse matar al’Thor naquela brincadeira teria implorado a ele para ser esfolado vivo! Ainda assim, a empreitada lhe custara alguns números. Só tinha o Myrddraal, um punhado de Trollocs escondidos fora da cidade, uns poucos Amigos das Trevas reunidos em Caemlyn e a caminho de Tar Valon. Sentia al’Thor puxando, arrastando-o. Havia uma mudança interessante em relação aos Amigos das Trevas. Em teoria, não deveria haver nada que os distinguisse de qualquer outra pessoa, mas Fain descobrira que podia identificá-los apenas com um olhar, mesmo que a pessoa tivesse pensado apenas em prestar o juramento à Sombra. Era como se tivessem uma marca na testa.
Não! Tinha que se concentrar. Concentrar! Clarear as ideias. Seus olhos caíram sobre a mulher, no chão, gemendo e afagando o filho. O garoto ainda balbuciava, e ela falava com ele baixinho, como se isso fosse ajudar. Fain não fazia ideia de como parar um de seus truques depois que já começara. Depois que a coisa toda acabasse, o garoto sobreviveria, embora não ileso. Fain não se dedicara ao golpe de coração. Tinha que clarear as ideias. Pensar em outra coisa. Uma bela mulher. Quanto tempo fazia desde que possuíra uma mulher?
Sorrindo, Fain a tomou pelo braço. Precisava afastá-la daquele garoto tolo.
— Venha comigo. — Sua voz estava diferente, mais grandiosa, sem o sotaque de Lugard. Mas ele não percebeu. Nunca percebia. — Tenho certeza de que você, pelo menos, sabe demonstrar o respeito apropriado. Se me deixar satisfeito, nenhum mal lhe acontecerá.
Por que ela resistia? Fain sabia que estava sendo charmoso. Ora, teria que machucá-la. Era tudo culpa de al’Thor.
CAPÍTULO 29
Fogo e Espírito
Nynaeve parou à sombra, logo em frente à Pequena Torre, secou o rosto e então enfiou o lenço de volta na manga. Claro que não adiantou muito — o suor voltou a brotar assim que o secou —, mas queria entrar lá com a melhor aparência possível. Queria parecer tranquila, serena, digna… embora não fosse conseguir. Sentia as têmporas latejando, e o estômago parecia… frágil. Nem conseguira olhar para o café da manhã. Era só efeito do calor, claro, mas sua vontade era voltar para a cama, deitar em posição fetal e morrer. Para completar, sua capacidade de escutar o vento a estava atormentando — aquele sol candente já deveria estar encoberto por nuvens negras turbulentas, todas soltando relâmpagos ameaçadores.