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A um olhar pouco atento, os Guardiões descansando ali na frente não pareciam guardas, embora fossem. Aqueles homens lembravam os Aiel da Pedra de Tear — até dormindo deviam parecer lobos. Um sujeito careca de rosto quadrado, mais ou menos da sua altura, mas quase tão largo quanto alto, saiu correndo da Pequena Torre e seguiu rua abaixo, a espada presa às costas, o cabo despontando por cima do ombro. Até mesmo Jori — Guardião de Morvrin — conseguia parecer perigoso.

Uno passou com seu coque, abrindo caminho a cavalo pela multidão. Ele mal parecia registrar o calor, mesmo com a armadura de malha e placas de aço que cobriam seu corpo do ombro para baixo. Ele girou na sela para encará-la com o olho bom, e Nynaeve fechou a cara. Ah, Birgitte tinha falado com ele! Toda vez que o homem a via, ficava bem óbvio que ele estava esperando o pedido de cavalos. E ela estava quase pedindo — nem mesmo Elayne podia dizer que o que estavam fazendo por ali adiantava alguma coisa. Bem, na verdade ela não só podia como dizia, mas estava redondamente enganada.

Uno fez uma curva e sumiu de vista, e Nynaeve suspirou. Estava tentando protelar em vez de entrar logo na Pequena Torre. Myrelle talvez estivesse lá. Secou o rosto outra vez, franzindo o cenho para a mão enrugada. Já estava no décimo primeiro dia de esfregação de panelas, com mais vinte e nove pela frente. Vinte e nove!

Quando finalmente entrou no que já fora o salão da estalagem que agora era a Pequena Torre, notou que estava um pouquinho mais fresco, o que ofereceu certo alívio para sua dor de cabeça. Todos tinham passado a se referir ao aposento como “sala de espera”, e ali não se perdera tempo com reparos. Faltavam pedras nas lareiras e o reboco esburacado deixava ripas à mostra. Areina e Nicola varriam o chão junto de outra noviça, mas a limpeza não fazia muito efeito no assoalho castigado pelo tempo. Areina estava de cara feia, mas ela sempre parecia irritada quando precisava cumprir tarefas com as noviças. Ora, ninguém ficava à toa em Salidar. Na outra extremidade do salão, Romanda conversava com duas Aes Sedai esbeltas e bem mais velhas — seus rostos até tinham aquele ar de idade indefinida, mas o cabelo era branco — que claramente haviam acabado de chegar, a julgar pelas finas sobrecapas que usavam. Nenhum sinal de Myrelle, o que fez Nynaeve suspirar de alívio — a mulher a enfiava em um espeto e mandava para o fogo a cada oportunidade, depois ainda a fazia virar de um lado para o outro! Algumas Aes Sedai estavam sentadas às mesas, todas de estilos diferentes, mas dispostas em fileiras muito retas. Estavam ocupadas com pergaminhos ou despachando ordens para Guardiões e serviçais, mas havia menos delas do que na primeira vez em que Nynaeve estivera lá. Àquela altura, só as Votantes e suas serviçais ainda moravam nos andares superiores, todas as outras tinham sido remanejadas para as Aes Sedai terem um espaço onde trabalhar. A Pequena Torre assumira as mesmas funções da Torre Branca e a mesmíssima formalidade. Da primeira vez que entrou ali no salão, o lugar estava tomado por um burburinho, havia um ar de diligência no local, de que algo estava sendo feito — uma falsa sensação, no caso. Agora, o ambiente parecia envolvido em um marasmo, mas era como entrar na Torre Branca.

Nynaeve foi até uma das mesas — mas não a mais próxima — e fez uma reverência calculada.

— Perdoe a intromissão, Aes Sedai, mas fiquei sabendo que Siuan e Leane estão aqui. Pode me informar onde eu as encontro?

Brendas parou de escrever e ergueu os olhos frios e escuros. Nynaeve decidira ir falar com ela em vez de com alguma mulher mais perto da porta porque Brendas era uma das poucas Aes Sedai que nunca a interrogara a respeito de Rand. Além disso, quando ainda era Amyrlin, Siuan apontara Brendas como uma pessoa de confiança — aquilo não tinha nada a ver com a situação do momento, mas Nynaeve buscava pequenos consolos.

— Elas estão com algumas Votantes, criança. — A voz de Brendas era feito um badalar, e tão sem emoção quanto o rosto pálido. Era raro as Brancas demonstrarem qualquer emoção, mas Brendas ia além: a mulher nunca externava nada.

Nynaeve conteve um suspiro irritado. Se as Votantes estivessem ouvindo os relatos dos olhos-e-ouvidos das antigas Azuis, talvez ainda levasse algumas horas para que elas fossem liberadas. Talvez ficassem lá dentro até o fim do dia. A essa altura, Nynaeve já estaria com a cabeça enfiada nas panelas.

— Obrigada, Aes Sedai.

Brendas interrompeu sua mesura com um gesto.

— Theodrin fez algum progresso com você ontem?

— Não, Aes Sedai.

Se sua voz saiu contida e seca, foi porque tinha motivo: Theodrin dissera que pretendia tentar tudo, e ao que parecia era tudo mesmo. Na véspera, tinha feito Nynaeve bebericar vinho para ficar relaxada. Só que Nynaeve acabara tomando mais do que uns poucos golinhos. Ela nunca se esqueceria de ter sido carregada para o quarto cantando — cantando! — e já ficava vermelha só de lembrar. Não tinha como Brendas não saber. Todo mundo já devia ter ouvido a respeito. Nynaeve queria se enfiar em um buraco no chão.

— Só pergunto porque isso parece estar comprometendo seus estudos. Ouvi diversas irmãs comentando que você parou com as descobertas notáveis. Talvez o problema sejam as atividades suplementares, mas Elayne ainda consegue trazer uma novidade por dia, mesmo dando aulas e esfregando com as panelas. Várias irmãs estão ponderando se não seriam mais preparadas do que Theodrin para ajudar. Se nos revezássemos, se fizéssemos você se esforçar o dia inteiro, todos os dias, poderia acabar sendo mais proveitoso do que essas sessões informais com alguém que, no fim das contas, é apenas pouco mais que uma Aceita. — Tudo aquilo foi dito em um tom equilibrado e sem o menor ar acusatório, mas o rosto de Nynaeve ficou vermelho como se a Aes Sedai tivesse gritado com ela.

— Tenho certeza de que Theodrin em breve vai conseguir dar um jeito nisso, Aes Sedai — respondeu, quase sussurrando. — Vou me esforçar mais, Aes Sedai.

Curvando-se em uma reverência apressada, Nynaeve tratou de dar meia-volta antes que Brendas pudesse interrompê-la outra vez. Com isso, acabou quase trombando em uma das recém-chegadas de cabelo branco. As duas eram tão parecidas que poderiam ser irmãs, quase imagens espelhadas uma da outra, com ossos finos e rostos compridos de traços aristocráticos.

A quase trombada não passou de um leve toque, e Nynaeve até tentou se desculpar, mas a Aes Sedai a encarou com um olhar tão intenso que qualquer falcão teria ficado com inveja.

— Preste atenção por onde anda, Aceita. Na minha época, uma Aceita que tentasse atropelar uma Aes Sedai só terminaria de esfregar o chão quando estivesse com o cabelo mais branco que o meu.

A outra tocou o braço da mulher irritada.

— Ah, deixe a criança ir, Vandene. Temos trabalho a fazer.

Vandene fungou com desdém, mas se permitiu ser levada para fora.

Nynaeve decidiu deixá-las saírem na frente. Viu Sheriam surgir de uma das salas de reunião acompanhada de Myrelle, Morvrin e Beonin. Myrelle também a viu e fez menção de ir em sua direção, mas só conseguiu dar um passo antes de Sheriam e Morvrin a segurarem e falarem algo depressa e em voz baixa, sem nem mesmo olhar para Nynaeve. Ainda conversando, as quatro atravessaram o aposento e desapareceram por outra porta.

Nynaeve esperou até estar do lado de fora da Pequena Torre para dar um puxão firme e deliberado na trança. As Aes Sedai tinham se encontrado com as Sábias na noite anterior, e era fácil imaginar por que as outras impediram Myrelle de falar com ela. Se Egwene finalmente tivesse ido à reunião na Pedra de Tear, ela não deveria ficar sabendo. Nynaeve al’Meara caíra em desgraça. Nynaeve al’Meara estava esfregando panelas feito uma noviça, quando poderia estar pelo menos um nível acima que o de Aceita. Nynaeve al’Meara não estava chegando a lugar nenhum com Theodrin e tinha parado de fazer aquelas descobertas maravilhosas. Nynaeve al’Meara jamais seria uma Aes Sedai. Sabia que tinha sido um erro começar a concentrar todo o conhecimento de Moghedien em Elayne. Sabia!