Sentia a língua se contorcer com a memória daquele gosto repugnante — rabo-de-gato fervida com folha-sábia em pó. Um antídoto que usara muitas vezes em crianças que não paravam de mentir. Tudo bem que ela própria sugerira usá-lo, mas ainda assim fora um erro. As Aes Sedai já não falavam mais sobre suas inovações, e sim sobre a falta delas. Aes Sedai que nunca tinham demonstrado mais que um interesse passageiro em seu bloqueio agora queriam ajudar a desfazê-lo. Não tinha como vencer. De um jeito ou de outro, acabaria com as Aes Sedai examinando-a da cabeça aos pés, de sol a sol.
Nynaeve deu um puxão ainda mais forte na trança, forte o bastante para machucar, o que, considerando a dor que já sentia, não fez nada para melhorar seu humor. Um soldado de elmo achatado, usando o gibão acolchoado comum dos arqueiros, diminuiu o passo para encará-la com curiosidade, mas ela retribuiu a encarada com um olhar tão maligno que ele tropeçou nos próprios pés e tratou de sumir na multidão. Por que Elayne era tão teimosa?
Sentiu mãos masculinas apertarem seus ombros, então deu a volta já soltando impropérios, preparando-se para arrancar a cabeça do sujeito. Mas as palavras morreram ainda na língua.
Thom Merrilin sorria para ela por baixo daquele bigode branco comprido, os olhos azuis penetrantes brilhando no rosto cheio de marcas.
— Pela sua cara, Nynaeve, quase daria para pensar que você está zangada, mas sei que seu temperamento é tão doce que as pessoas chegam até a lhe pedir para enfiar o dedo no chá delas.
Juilin Sandar estava logo ao lado, um homem esguio que parecia entalhado em madeira escura escorado em um cajado de bambu da grossura de um polegar. Juilin era taireno, não taraboniano, mas mesmo assim usava aquele ridículo chapéu vermelho cônico de topo achatado, que estava ainda mais esfarrapado do que na última vez que o vira. Juilin tirou o chapéu ao reparar no olhar de Nynaeve. Os homens estavam empoeirados e pareciam cansados da viagem, com rostos muito magros e abatidos — bem, na verdade nenhum deles jamais fora muito rechonchudo ou corpulento, para início de conversa. Ambos pareciam ter passado todas aquelas semanas desde que deixaram Salidar usando as mesmas roupas, desmontando das selas apenas para dormir.
Antes que Nynaeve pudesse abrir a boca, foram atingidos por uma avalanche humana. Elayne se jogou sobre Thom com tanta força que o velho cambaleou. Claro que o menestrel — que ainda mancava discretamente — passou as mãos debaixo dos braços da jovem e a ergueu e rodopiou em círculos feito uma criança. O velho estava gargalhando quando devolveu a garota ao chão, e Elayne também. A Filha-herdeira então puxou o bigode de Thom, e ambos apenas gargalharam ainda mais. Thom examinou as mãos da jovem, tão acabadas quanto as de Nynaeve, e perguntou em que tipo de problema ela conseguira se meter sem ele ali por perto para mantê-la na linha. Elayne respondeu que não precisava de ninguém lhe dizendo o que fazer, mas estragou a reprimenda ao ficar com as bochechas coradas, dar risadinhas e mordiscar o lábio.
Nynaeve respirou fundo. Às vezes, aqueles dois levavam a brincadeira de pai e filha um pouco longe demais. Às vezes, Elayne parecia pensar que tinha dez anos, e Thom parecia concordar com a garota.
— Achei que você tinha que dar aula para as noviças hoje de manhã, Elayne.
A Filha-herdeira a encarou de soslaio, então se recompôs. A tentativa de manter a compostura acabou chegando tarde demais, e ela teve que se contentar em endireitar o vestido listrado.
— Pedi a Calindin que me substituísse — respondeu, em um tom casual. — Achei que seria melhor lhe fazer companhia. E que bom que fiz isso — acrescentou, sorrindo para Thom. — Agora vamos poder ouvir tudo o que vocês descobriram em Amadícia.
Nynaeve fungou com desdém. Companhia? Ora essa. Não se lembrava de tudo o que acontecera na véspera, mas ainda tinha bem fresca a memória de Elayne gargalhando enquanto tirava sua roupa e a botava para dormir antes que o sol já tivesse sumido no céu. E tinha certeza de que se recordava de ouvi-la perguntando se ela queria um balde de água para esfriar a cabeça.
Thom não percebeu nada. Os homens eram quase todos cegos, embora ele fosse mais esperto que a média.
— Precisamos ser rápidos — afirmou o velho menestrel. — Agora que Sheriam já nos espremeu, pretende nos obrigar a ir falar pessoalmente com algumas Votantes. Por sorte, isso simplifica as coisas. Não tem Mantos-brancos o suficiente ao longo do Eldar para impedir sequer um rato de cruzar o rio, mesmo se esse rato tivesse tambores e trompetes para anunciar sua passagem com um dia de antecedência. Tirando o forte contingente na fronteira taraboniana e os homens que Niall colocou para tentar conter o Profeta, lá no norte, o tal Comandante dos Filhos parece estar reunindo todos os Mantos-brancos restantes em torno de Amadícia. E Ailron também está juntando seus soldados. Já tinha começado a aparecer conversa sobre Salidar nas ruas antes de irmos embora, mas, se Niall chegou a pensar na cidade, não encontrei nenhum indício disso.
— Tarabon — resmungou Juilin, analisando o chapéu. — Ouvi dizer que é um país muito perigoso para quem não sabe se cuidar.
Nynaeve não tinha certeza de qual dos dois era mais dissimulado, mas estava certa de que ambos eram perfeitamente capazes de mentiras tão deslavadas que deixariam um mercador de lã verde de inveja. E também não tinha dúvidas de que estavam escondendo alguma coisa.
Elayne percebeu na hora. Agarrando Thom pela lapela, ela ergueu os olhos e o encarou.
— Vocês ouviram alguma coisa sobre minha mãe — afirmou, calma. Não era uma pergunta.
Thom cofiou o bigode.
— Tem centenas de boatos em cada rua de Amadícia, criança, cada um mais louco que o outro. — Seu rosto curtido e cheio de rugas era pura inocência e franqueza, mas aquele homem perdera a inocência logo ao nascer. — Dizem que a Torre Branca inteira está aqui em Salidar, com dez mil Guardiões prontos para cruzar o Eldar. E que as Aes Sedai estão no controle de Tanchico, que Rand tem asas e sai voando por aí à noite e…
— Thom — interrompeu Elayne.
O menestrel bufou, olhando de Juilin para Nynaeve como se aquilo fosse culpa deles.
— É só um boato, criança, tão louco quanto qualquer outro. Não consegui confirmar nada, e pode acreditar que tentei. Não queria nem mencionar. Só vai lhe trazer sofrimento. Deixe estar, criança.
— Thom. — A voz de Elayne saiu bem mais firme dessa vez.
Juilin remexeu os pés, parecendo querer estar em outro lugar. Thom só parecia emburrado.
— Bem, se você faz questão… Ao que parece, todo mundo em Amadícia acha que sua mãe está na Fortaleza da Luz e que ela vai liderar um exército de Mantos-brancos de volta a Andor.
Elayne balançou a cabeça e soltou uma risada baixa.
— Ah, Thom, acha que eu me preocuparia com esse tipo de coisa? Mamãe nunca pediria ajuda aos Mantos-brancos. Eu até preferia que fosse o caso. Queria que ela estivesse viva para isso. Esse negócio de levar soldados estrangeiros para Andor, ainda mais Mantos-brancos, é uma afronta a tudo o que ela me ensinou, mas ainda assim eu gostaria que fosse verdade. Bem, se desejar adiantasse de alguma coisa… — Ela abriu um sorriso triste, mas de uma tristeza contida. — Já respeitei meu tempo de luto, Thom. Minha mãe morreu, e agora tenho que fazer meu melhor para ser digna de sucedê-la. Ela jamais teria ido atrás da verdade em boatos ridículos, nem ficaria chorando pelos cantos.
— Criança — interveio Thom, meio sem jeito.
Nynaeve se perguntou o que o menestrel sentia a respeito da morte de Morgase, se é que sentia alguma coisa. Pareia difícil de acreditar, mas Thom já fora amante de Morgase quando a rainha era jovem e Elayne mal passava de uma bebê. Naquela época, ele não devia parecer um pano deixado por tempo demais ao sol para secar. Não sabia muito sobre como e por que tudo acabara, só que ele tinha ido embora de Caemlyn de fininho, com um mandado de prisão nos calcanhares. Não era um amor para se contar em histórias. Ele no momento só parecia preocupado em saber se Elayne estava falando a verdade ou escondendo sua mágoa. Ele deu alguns tapinhas no ombro da jovem e afagou seu cabelo. Se Nynaeve não quisesse tanto que eles brigassem como pessoas normais pelo menos uma vez, teria achado a cena muito bonita.