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Um dos Guardiões meteu a cabeça porta adentro, um homem de cabelo escuro com nariz pronunciado e uma cicatriz branca profunda ao longo do queixo magro.

— Alguma coisa errada? A outra Aceita saiu correndo como se tivesse sentado numa urtiga.

— Está tudo absolutamente sob controle — respondeu Nynaeve, com a voz tranquila. Ou ao menos o mais tranquila que conseguiu. Ninguém pode saber, ninguém! Não até que tivesse a chance de conversar com Sheriam, de trazer a mulher para seu lado. — Elayne esqueceu uma coisa e foi buscar. — A desculpa soou esfarrapada. — Pode sair. Estou ocupada.

Tervail — era o nome dele, Tervail Dura, Guardião de Beonin. Luz, por que estava preocupada com o nome dele? Antes de se retirar, Tervail abriu um sorriso irônico e fez uma reverência zombeteira. Os Guardiões não deixavam as Aceitas agirem como Aes Sedai.

Precisou de um esforço considerável para evitar umedecer os lábios. Analisou Logain. Por fora, o homem estava calmo, como se nada tivesse mudado.

— Não há necessidade disso, Nynaeve. Acha que eu vou atacar uma aldeia com centenas de Aes Sedai? Elas fariam picadinho de mim antes que eu desse dois passos.

— Fique quieto — retrucou ela, sem nem pensar. Muito atrapalhada, encontrou uma cadeira atrás de si e, sem nunca tirar os olhos dele, se sentou. Luz, por que Sheriam estava demorando tanto? Ela precisava entender que tinha sido um acidente. A raiva de si própria era a única coisa que a mantinha canalizando. Como pudera ser tão descuidada, uma idiota cega?

— Não tenha medo — insistiu Logain. — Não vou me voltar contra elas, não a esta altura. Elas estão fazendo exatamente o que eu queria, mesmo que não percebam. A Ajah Vermelha acabou. Daqui a um ano, não haverá nenhuma Aes Sedai que ouse admitir que é Vermelha.

— Eu mandei você ficar quieto! — ralhou Nynaeve. — Acha que acredito que você só odeia as Vermelhas?

— Olha, já vi um homem que vai causar mais problemas do que eu já causei. Talvez seja o Dragão Renascido, não sei. Foi quando atravessaram Caemlyn comigo, depois que fui capturado. Ele estava longe, mas eu vi um… um brilho. Foi quando soube que ele iria abalar o mundo. Enjaulado como eu estava, não tive como não rir.

Nynaeve moveu parte do fluxo de Ar que o mantinha preso e o forçou entre as mandíbulas de Logain como uma mordaça. Seu rosto assumiu uma expressão raivosa e sombria, mas a emoção se dissipou quase imediatamente. Nynaeve nem se importou. Conseguira detê-lo. Pelo menos… Logain não tentara resistir, nem um pouco, mas talvez fosse porque soubera desde o princípio que seria inútil. Talvez. Mas com que força ele tentara romper a barreira? A pressão que ela havia sentido contra a blindagem não fora lenta, mas também não fora rápida. Fora quase como um homem alongando músculos há muito não utilizados, empurrando algo sem querer de fato movê-lo, apenas pela necessidade de exercitar os músculos. Só de pensar nisso seu estômago foi tomado por gelo.

Os olhos de Logain brilhavam, divertidos, quase como se o homem soubesse tudo o que havia se passado pela cabeça dela, o que só deixou Nynaeve ainda mais irritada. Logain estava com a boca escancarada feito um idiota, preso e blindado, mas ele estava tranquilo. Como pudera ser tão tola? Nynaeve não estava apta a ser Aes Sedai, não se sua barreira desmoronasse naquele instante. Não estava apta para ser deixada sozinha. Melhor dizerem a Birgitte para ficar de olho nela, antes que caísse de cara no chão ao tentar atravessar a rua.

Não foi intencional, mas ficar criticando a si mesma manteve a raiva borbulhando até a porta se escancarar. Não era Elayne.

Sheriam entrou logo depois de Romanda, com Myrelle, Morvrin e Takima seguindo de perto, depois entraram Lelaine, Janya, Delana, Bharatine e Beonin. Então vieram outras, aglomerando-se até lotarem o aposento. Nynaeve conseguia ver outras mulheres do outro lado da porta, que não tinha espaço para ser fechada. As que estavam lá dentro a encaravam, analisando também a tessitura. Estavam tão compenetradas que ela engoliu em seco, e toda a raiva cultivada com tanto cuidado se desfez. E, claro, desfizeram-se também a barreira e os elos que prendiam Logain.

Antes que Nynaeve pudesse pedir a outra pessoa que o blindasse, Nisao se plantou diante dela. Mesmo baixinha como era, a mulher conseguiu se assomar diante dela.

— Então que história é essa de você ter Curado este homem?

— Foi isso mesmo que ela disse que fez? — Logain até conseguiu parecer surpreso.

Varilin se aproximou e parou ao lado de Nisao. A Cinza esbelta era tão alta quanto Logain e se assomava acima de Nynaeve.

— Era isso que eu temia quando todo mundo começou a afagá-la por conta das descobertas. Assim que as novidades se esgotaram, os afagos cessaram. Claro que ela tentaria alguma maluquice para recuperá-los.

— É nisso que dá deixar a garota ficar estudando Siuan e Leane — interveio Romanda, firme. — E este sujeito. Deveriam ter dito a ela de uma vez que certas coisas não podem ser Curadas e ponto final!

— Mas eu Curei! — protestou Nynaeve. — Eu Curei! Por favor, blindem Logain. Vocês precisam blindá-lo, por favor!

As Aes Sedai diante dela se viraram para Logain, abrindo o mínimo de espaço de que ela precisava para também olhá-lo. O desgraçado devolveu os olhares com uma expressão inocente. Chegou até a dar de ombros!

— Acho que o mínimo que podemos fazer é mantê-lo blindado até termos certeza absoluta — sugeriu Sheriam.

Romanda aquiesceu, e uma blindagem despontou, sendo aumentada até se tornar forte o bastante para prender um gigante. O brilho de saidar envolvia quase todas as mulheres presentes. Romanda restaurou um pouco da ordem nomeando seis mulheres para manter uma blindagem menor, mas ainda assim mais que suficiente.

Myrelle agarrou o braço de Nynaeve.

— Você vai nos perdoar, Romanda, mas precisamos conversar a sós com Nynaeve.

Sheriam agarrou o outro braço.

— Melhor acabarmos logo com isso.

Romanda assentiu, distraída. Estava franzindo o cenho para Logain, como quase todas as Aes Sedai ali. Ninguém fez menção de sair.

Sheriam e Myrelle puseram Nynaeve de pé e a puxaram para a porta.

— O que vocês estão fazendo? — perguntou Nynaeve, sem fôlego. — Para onde estão me levando?

Do lado de fora, as três foram se acotovelando pela multidão de Aes Sedai. Muitas mulheres a encaravam com um olhar intenso, até acusador. Passaram aos empurrões por Elayne, que fez uma careta culpada. Nynaeve a encarou por cima do ombro enquanto as duas Aes Sedai a arrastavam tão depressa que ela não conseguia evitar tropeçar. Não que esperasse que Elayne fosse ajudá-la, mas podia ser a última vez que Nynaeve a via. Beonin estava falando alguma coisa para Elayne, que disparou pelo meio da multidão.

— O que vocês vão fazer comigo? — ganiu Nynaeve.

— Poderíamos deixar você esfregando panelas para o resto da vida — respondeu Sheriam em tom casual.

Myrelle assentiu.

— Você poderia passar o dia trabalhando nas cozinhas.

— Ou poderíamos açoitá-la todos os dias.

— Arrancar seu couro pedacinho por pedacinho.