Conforme canalizava, Nynaeve sentiu uma aproximação, mas ainda não sabia dizer o que se aproximava. A Cura em Leane e Siuan era um pouco diferente da de Logain. Bem, como vivia dizendo a si mesma, homens e mulheres eram diferentes. Luz, ainda bem que isso funciona com elas tão bem quanto funcionou com ele! Aquilo provocou algumas perguntas desagradáveis. E se certas coisas exigissem Curas distintas em homens e mulheres? Talvez seu conhecimento não fosse mesmo tão grande quanto o das Amarelas.
A reação de Leane foi diferente. Nada de lágrimas. A mulher abraçou saidar, abriu um sorriso agradecido e soltou, apesar de o sorriso permanecer. Então agarrou Nynaeve em um abraço, apertando até suas costelas estalarem.
— Obrigada, obrigada, obrigada — sussurrava, sem parar.
Um murmúrio despontou entre as Amarelas, e Nynaeve se preparou para se deleitar com os elogios que receberia. Aceitaria as desculpas com elegância. Foi quando ouviu o que as mulheres estavam falando:
— … usou Fogo e Terra como se estivesse abrindo um buraco numa pedra — comentou Dagdara em tom de reprovação.
— Um toque mais suave seria melhor — concordou Shanelle.
— … ver se Fogo pode ser útil em problemas com o coração — ponderou Therva, tamborilando o narigão.
Beldemaine, uma arafeliana rechonchuda com sininhos de prata no cabelo, aquiesceu, pensativa, e completou: — … se Terra fosse combinada com Ar assim, então…
— Fogo tecido em Água…
— Terra misturada com Água…
Nynaeve ficou boquiaberta. As mulheres já tinham se esquecido dela! Achavam que poderiam aprimorar a demonstração que tinham acabado de ver!
Myrelle deu um tapinha em seu braço.
— Você se saiu muito bem — murmurou. — Não se preocupe. Depois elas serão só elogios. Agora ainda estão um pouco desconcertadas.
Nynaeve fungou alto com desdém, mas nenhuma das Amarelas pareceu notar.
— Espero que isso ao menos signifique que não preciso mais esfregar panelas.
Sheriam se virou para ela de repente, sobressaltada.
— Por que não precisaria, criança? Que ideia é essa? — A mulher ainda tinha o braço em torno de Siuan, que, bastante envergonhada, enxugava os olhos com um lenço rendado. — Se qualquer pessoa pudesse quebrar regras ao bel-prazer, fazer o que bem entendesse, e escapar de punições só por fazer algo positivo para compensar… o mundo seria um caos.
Nynaeve suspirou. Devia ter imaginado.
Afastando-se das outras Amarelas, Nisao pigarreou. Disparou a Nynaeve um breve olhar que só poderia ser acusatório.
— Suponho que isso signifique que teremos que amansar Logain de novo. — Pelo tom de voz, ela parecia querer fingir que nada daquilo acontecera.
Quando as presentes começaram a aquiescer, Carlinya se pronunciou, tão gélida que o aposento pareceu ficar mais frio.
— Mas será que devemos? — Todos os olhos se voltaram para ela, que apenas prosseguiu, muito calma e tranquila. — Temos que considerar as implicações éticas. Como podemos apoiar um homem que é capaz de canalizar, um homem que está tentando juntar outros homens com a mesma habilidade, e, ao mesmo tempo, continuarmos agindo como antes, amansando os que encontramos? Na prática, que efeito isso terá quando ele descobrir? Por mais aflitiva que seja a atual situação, ela vai ajudá-lo a nos ver como um grupo dissociado da Torre e, mais importante, de Elaida e da Ajah Vermelha. Se amansarmos um único homem que seja, podemos perder essa diferenciação. Com isso, perdemos a chance de estabelecer nossa influência sobre ele antes de Elaida.
Quando ela parou, o silêncio caiu como um manto sobre o ambiente. Aes Sedai trocaram olhares preocupados, e os olhares dirigidos a Nynaeve fizeram o de Nisao parecer gentil. Irmãs tinham morrido na captura de Logain. E, mesmo que ele estivesse blindado, Nynaeve o transformara em um problema de novo e ainda dera um jeito de piorar a situação.
— Acho que você deveria ir — advertiu Sheriam, baixinho.
Nynaeve nem discutiu. Fez suas mesuras o mais rápido possível e fez o possível para não sair correndo.
Quando saiu, Elayne já estava se levantando da escadinha de pedra.
— Me desculpe, Nynaeve — pediu ela, esfregando a saia. — Eu estava tão empolgada que deixei escapar tudo para Sheriam antes de me dar conta de que Romanda e Delana estavam lá.
— Não importa — respondeu Nynaeve, com firmeza, começando a andar pela rua lotada. — Elas ficariam sabendo mais cedo ou mais tarde. — Mas não era justo, não era. Eu fiz uma coisa que elas disseram que não podia ser feita e ainda tenho que esfregar panelas! — Elayne, não me importa o que você disser, temos que ir embora. Carlinya estava falando de “estabelecer influência” sobre Rand. Esse pessoal não é diferente da Elaida. Thom ou Juilin podem arranjar cavalos para nós, e Birgitte pode ir pentear capim.
— Receio que já seja tarde demais — ponderou Elayne em tom infeliz. — A notícia já está se espalhando.
Vindas de direções opostas, Larissa Lyndel e Zenare Ghodar atacaram Nynaeve feito dois falcões disputando uma lebre. Larissa era uma mulher ossuda cujo rosto simples quase se sobrepunha à idade indefinida de Aes Sedai, e Zenare era um tanto rechonchuda e com arrogância suficiente para fazer frente a duas rainhas, mas ambas pareciam ávidas e ansiosas. Eram da Ajah Amarela, embora nenhuma das duas estivesse presente quando Nynaeve Curou Siuan e Leane.
— Quero ver você fazer tudo de novo passo a passo — afirmou Larissa, agarrando firme um de seus braços.
— Nynaeve! — exclamou Zenare, tomando o outro braço. — Se você repetir a tessitura algumas vezes, aposto que vou descobrir umas cem coisas em que você nunca pensou.
Salita Toranes, uma tairena quase tão escura quanto as pessoas do Povo do Mar, pareceu surgir do nada.
— Vejo que foram mais rápidas. Bem, que minha alma queime se vou ficar esperando na fila.
— Eu cheguei primeiro, Salita — advertiu Zenare, firme, apertando mais o braço de Nynaeve.
— Eu cheguei primeiro — corrigiu Larissa, apertando também.
Nynaeve lançou um olhar de puro terror para Elayne, mas recebeu de volta apenas um olhar de pena e um dar de ombros — era disso que a jovem estava falando quando disse já ser tarde demais. Nynaeve não teria mais um instante de paz.
— … com raiva? — ia dizendo Zenare. — Pois eu consigo pensar em cinquenta coisas que a deixariam com raiva suficiente até para mastigar pedras.
— Eu consigo pensar em cem — interveio Larissa. — E eu pretendo quebrar esse bloqueio dela, nem que seja a última coisa que eu faça.
Magla Daronos se enfiou entre o grupo abrindo caminho com os ombros, coisa que tinha de sobra. Parecia alguém hábil no manejo da espada ou de um machado de ferreiro.
— Você vai quebrar, Larissa? Rá! No caso, eu é que já pensei em várias maneiras de acabar de uma vez com essa história.
Nynaeve só queria gritar.
Siuan tentou com todas as suas forças não abraçar e segurar saidar, pois achou que fosse começar a chorar de novo, e isso seria inaceitável. Além de tudo, ficaria parecendo uma noviça boba aos olhos das mulheres que se amontoavam em torno dela na sala de espera. Cada expressão de fascínio e deleite, cada acolhida calorosa como se ela tivesse passado anos longe era como um bálsamo, sobretudo daquelas de quem já era amiga antes de se tornar Amyrlin, antes que o tempo e o dever as afastassem. Lelaine e Delana a envolveram em abraços como não faziam havia longos anos. Moiraine tinha sido sua única amiga mais próxima, a única além de Leane que ela conseguira manter por perto depois de receber a estola, e o dever as ajudara a permanecer juntas.
— É tão bom ter você de volta — disse Lelaine, risonha.
— Tão, tão bom — murmurou Delana, com uma voz calorosa.