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Siuan gargalhou e teve que enxugar as lágrimas das bochechas. Luz, qual era o problema dela? Não chorava assim desde criança!

Talvez fosse apenas alegria por recuperar saidar, por todas as reações calorosas ao seu redor. Só a Luz sabia, mas aquilo era o bastante para abalar qualquer um. Nunca ousara sonhar que aquele dia chegaria, mas, agora que tinha chegado, não guardava rancor de nenhuma daquelas mulheres, perdoava a frieza da distância de antes, assim como da insistência anterior para que Siuan jamais pensasse que era uma igual. A divisão entre Aes Sedai e não Aes Sedai era clara — Siuan insistira nisso antes de ser estancada, e não precisava dizer que tornaria a fazê-lo —, e ela sabia como antes era preciso lidar com dureza com mulheres estancadas, para o próprio bem delas e daquelas que ainda eram capazes de canalizar. Como antes. Era estranho se dar conta de que aquilo jamais se repetiria.

De rabo de olho, Siuan avistou Gareth Bryne subindo a escada lateral do aposento.

— Me deem licença um momentinho — disse, e foi correndo atrás dele.

Mesmo às pressas, precisou parar a cada dois passos para aceitar mais congratulações durante todo o caminho até a escada, de modo que só o alcançou quando Bryne já estava em um corredor no segundo andar. Correu para ultrapassá-lo e se plantou diante dele. O cabelo quase todo grisalho do homem estava assanhado pelo vento, o rosto quadrado e o casaco de camurça desgastada estavam empoeirados. Ele parecia tão sólido quanto uma pedra.

Bryne ergueu um maço de papéis e disse, tentando contorná-la:

— Tenho que entregar isto aqui, Siuan.

Ela se moveu para bloquear seu caminho.

— Eu fui Curada. Posso canalizar de novo.

Ele assentiu — só assentiu!

— Eu fiquei sabendo. Suponho que isso signifique que, de agora em diante, você vai canalizar para limpar minhas camisas. Quem sabe agora elas fiquem limpas de verdade. Já me arrependi de ter aberto mão de Min tão fácil.

Siuan o encarou. O homem não era bobo. Por que estava fingindo que não entendia?

— Eu voltei a ser Aes Sedai. Você espera mesmo que uma Aes Sedai lave as suas roupas?

Só para deixar bem claro, ela abraçou saidar — aquela doçura da qual sentia tanta falta era tão maravilhosa que seu corpo chegou a estremecer —, envolveu-o em fluxos de Ar e o suspendeu — ou melhor, tentou suspender. Pasma, abraçou mais, tentou com mais força… até que a doçura a apunhalou feito mil anzóis. As botas do homem sequer saíram do chão.

Era impossível. Tudo bem que suspender algo era uma das coisas mais difíceis de se fazer ao canalizar, mas ela antes podia erguer quase três vezes o próprio peso.

— Era para eu ficar impressionado? — perguntou Bryne, com toda a calma. — Sheriam e suas amigas me deram sua palavra, o Salão me deu sua palavra, e, mais importante, você me deu a sua palavra, Siuan. Não deixaria você se safar com menos do que me prometeu nem se você voltasse a ser a Amyrlin. Agora trate de desfazer o que quer que tenha feito, senão, quando eu mesmo me soltar, vou lhe virar de cabeça para baixo e lhe dar uns tapas no traseiro por ser tão infantil. É bem raro você ser infantil, então não vá pensando que, a esta altura, vou deixar que você comece com isso.

Quase aturdida, Siuan soltou a Fonte. Não fora por conta da ameaça dele — Bryne cumpriria a ameaça, como já fizera outras vezes, embora não por esse motivo — e nem pelo choque de não ter conseguido levantá-lo. Lágrimas pareciam brotar de repente em seus olhos, e ela esperava que soltar saidar pudesse contê-las. Algumas, contudo, continuaram a descer pelas bochechas, mesmo depois de ela piscar com força.

Antes de Siuan se dar conta de que o homem se movera, Gareth já tomara a cabeça dela entre as mãos.

— Luz, mulher, não vá me dizer que eu a assustei. Achava que você não teria medo nem se fosse largada numa cova com um bando de leopardos.

— Eu não estou com medo — retrucou ela, firme.

Bom. Ainda conseguia mentir. Por dentro, as lágrimas brotavam.

— Temos que encontrar um jeito de parar de atacar um ao outro o tempo todo — ponderou ele, em voz baixa.

— Não temos por que dar um jeito em nada. — As lágrimas estavam vindo. Estavam vindo. Ah, Luz, ele não podia ver. — Só me deixe em paz, por favor. Por favor, apenas suma.

Para sua surpresa, ele hesitou apenas por um momento antes de fazer o que ela pediu.

Ouvindo os passos de Bryne atrás de si, Siuan só conseguiu virar o corredor transversal antes que a represa arrebentasse e ela caísse de joelhos, debulhando-se em lágrimas. Àquela altura, já sabia o motivo. Alric, seu Guardião — seu Guardião morto, assassinado quando Elaida a depôs. Conseguia mentir — os Três Juramentos tinham mesmo sido desfeitos —, mas alguma parte do elo com Alric, um elo de carne com carne e mente com mente, voltara. A dor da morte dele, antes mascarada pelo choque de descobrir as intenções de Elaida e depois enterrada com o estancamento… aquela dor a tomou por completo. Encolhida junto à parede, aos prantos, seu único consolo era Gareth não estar ali. Não tenho tempo para o amor, que o queime!

Pensar aquilo foi como levar um balde de água fria no rosto. A dor permaneceu, mas as lágrimas cessaram, e ela conseguiu se levantar com certo esforço. Amor? Aquilo era tão impossível quanto… quanto… Siuan não conseguia pensar em nada tão impossível. Aquele homem era impossível!

De repente, percebeu que Leane estava ali, parada, a menos de duas passadas de distância, observando-a. Ergueu a mão para limpar as lágrimas do rosto, mas desistiu. Não havia nada além de compaixão no rosto da amiga.

— Como você lidou com a… morte de Anjen, Leane? — Já fazia quinze anos.

— Eu chorei — respondeu Leane. — Passei um mês me segurando durante o dia e gastando a noite inteira chorando encolhida na minha cama. Depois de já ter transformado os lençóis em farrapos. Por outros três meses, as lágrimas brotavam sem mais nem menos. Só parou de doer mais de um ano depois. Por isso que nunca mais criei nenhum elo. Achava que não suportaria passar por tudo aquilo de novo. Mas passa, Siuan. — Ela conseguiu abrir um sorriso travesso. — Hoje em dia acho que já daria conta de dois ou três Guardiões, se não quatro.

Siuan assentiu. Poderia chorar à noite. Quanto ao maldito Gareth Bryne… Não havia nada. Não havia!

— Acha que elas já estão prontas? — Lá embaixo, só tinham conseguido alguns momentos para conversar. Aquele anzol precisava ser posicionado rápido, ou não seria nem lançado.

— Talvez. Não tive muito tempo. E tive que tomar cuidado. — Leane hesitou. — Tem certeza de que quer continuar com isso, Siuan? Vai mudar tudo para o que trabalhamos tão de repente e… eu não sou tão forte quanto antes, Siuan, nem você. A maior parte das mulheres aqui consegue canalizar mais que nós duas. Luz, acho que até algumas Aceitas conseguiriam, sem contar Elayne ou Nynaeve.

— Eu sei — ponderou Siuan. Precisava correr o risco. O outro plano não passara de um paliativo por conta de não ser mais Aes Sedai. Agora que voltara a ser… bem, fora deposta com pouco ou quase nenhum respeito às leis da Torre. Se voltara a ser Aes Sedai, por que não poderia ser Amyrlin de novo?

Ela endireitou os ombros e partiu lá para baixo, para enfrentar o Salão.

Deitada de camisola, Elayne conteve um bocejo e continuou a esfregar o creme que recebera de Leane. A mistura pareceu surtir algum efeito — ao menos achava que as mãos estavam mais macias. Uma brisa noturna entrava pela janela, fazendo bruxulear a vela solitária; ainda assim as lufadas de ar só serviam, se muito, para esquentar ainda mais o quarto.

Nynaeve entrou cambaleante, bateu a porta e se jogou na cama, de onde encarou Elayne.

— Magla é a mulher mais baixa, odiosa e desprezível do mundo todo — resmungou. — Não, essa é Larissa. Ou melhor, Romanda.