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— Não entendo — comentou Elayne. Era uma bela aula sobre as políticas internas da Torre. Aquela hierarquia fazia sentido, mas devia ser um dos aspectos da vida na Torre que só se aprendia vivendo como Aes Sedai. De um jeito ou de outro, já encontrara muitos indícios de que o verdadeiro aprendizado só começava depois de se adquirir o xale. — Se Nynaeve conseguir Curar vocês de novo, vocês ficarão mais fortes?

Leane balançou a cabeça.

— Ninguém nunca foi Curado de um estancamento. Talvez as outras passem a encarar esse retorno ao Poder como encaram as bravias, que acabam em um status um pouco mais baixo do que teriam considerando-se apenas a força no Poder. Talvez ter sido mais fraca agora valha de alguma coisa. Bem, se Nynaeve não conseguiu nos Curar por completo da primeira vez, talvez agora consiga nos levar a dois terços do que éramos, ou quem sabe à metade. Até isso seria melhor do que o que temos agora, mas mesmo assim muitas irmãs aqui ainda seriam tão fortes quanto ficaríamos, e boa parte seria ainda mais forte.

Elayne a encarou, ainda mais confusa. Nynaeve parecia ter levado uma paulada na cara.

— Tudo entra na conta — explicou Siuan. — Quem aprendeu mais rápido, quem passou menos tempo como noviça e Aceita… Há nuances de todos os tipos. Não se pode afirmar a força de ninguém com muita precisão. Duas mulheres podem parecer igualmente fortes, e talvez até sejam, mas só se poderia afirmar com certeza se houvesse um duelo, e estamos acima disso, pela graça da Luz. Se Nynaeve não nos devolver toda a nossa força, corremos o risco de acabar bem abaixo na hierarquia.

Leane voltou a falar.

— A hierarquia não deveria ditar mais do que as regras da vida cotidiana, mas dita. O conselho de alguém em uma posição mais alta tem mais peso. Isso não importava enquanto estávamos estancadas, já que não ocupávamos posição nenhuma, e as irmãs consideravam o que dizíamos apenas pelo mérito do argumento. Só que não vai mais ser assim.

— Entendo — retrucou Elayne, hesitante. Não era de surpreender que muitos acreditavam que as Aes Sedai tinham inventado o Jogo das Casas! Elas faziam o Daes Dae’mar parecer simples.

— É um consolo ver que eu ter Curado vocês lhes trouxe ainda mais problemas do que a mim mesma — resmungou Nynaeve. Ela encarou o fundo da tigela, soltou um suspiro e esfregou o último naco de pão no restinho da sopa.

Siuan fechou a cara, mas conseguiu manter a voz equilibrada.

— Entenda, estamos aqui nos abrindo com você. E não é só para convencê-la a tentar nos Curar de novo. Você me devolveu… minha vida. É isso. Eu já tinha conseguido me convencer de que ainda estava viva, mas parecia era que eu estava morta, se comparado com a vida com o Poder. Então vamos fazer o que Leane sugeriu e recomeçar do zero. Como amigas, se vocês me aceitarem. Se não, ao menos como tripulantes do mesmo barco.

— Amigas — rebateu Elayne. — Amigas soa bem melhor.

Leane abriu um sorriso para ela, mas a antiga Curadora e Siuan logo voltaram a atenção para Nynaeve, que apenas olhou de uma para outra.

— Se Elayne pode fazer uma pergunta, então eu também tenho esse direito. O que Sheriam e as outras descobriram com as Sábias, noite passada? E não venha me dizer que não sabe, Siuan. Até onde eu sei, sempre que elas formulam uma ideia, você descobre exatamente qual foi menos de uma hora depois.

Siuan cerrou o maxilar, teimosa, assumindo um brilho intimidador naqueles olhos azul-escuros. De repente, ela soltou um gritinho e se curvou para esfregar o tornozelo.

— Conte — mandou Leane, ajeitando a perna que acabara de estender para chutar a amiga. — Ou você conta ou conto eu. E fale tudo, Siuan.

A mulher cravou os olhos em Leane e inspirou, irritada, tão fundo que Elayne achou que ela fosse explodir. Então pousou os olhos em Nynaeve e suavizou a expressão. As palavras saíram meio arrastadas, mas saíram:

— A missão diplomática de Elaida chegou a Cairhien. Rand se encontrou com elas, mas parece estar tentando ganhar tempo. Ao menos é o que esperamos que ele esteja fazendo. Sheriam e as outras estão muito satisfeitas porque, para variar, conseguiram não bancar as tolas diante das Sábias. E Egwene irá à próxima reunião.

Por algum motivo, aquela última informação foi a que pareceu sair com mais relutância.

Nynaeve se animou, sentando-se mais ereta.

— Egwene? Maravilha! Ah, então desta vez elas não fizeram papel de tolas… Eu já tinha imaginado, já que não vieram nos arrastar para mais uma aula. — Ela estreitou os olhos para Siuan, mas até seu olhar desconfiado parecia animado. — O mesmo barco, é? E quem é a capitã?

— Eu, sua mulherzinha miserável… — Leane pigarreou, e Siuan parou e respirou fundo. Então continuou, mais calma: — Bem, que tal uma capitania conjunta? Responsabilidades iguais. — Então acrescentou, quando Nynaeve começou a abrir um sorriso: — Mas alguém precisa manejar o leme, e serei eu.

— Tudo bem — concordou Nynaeve, depois de uma longa pausa. Então, após um momento de hesitação, remexendo a colher, ela perguntou, com uma voz tão casual que Elayne quase jogou as mãos para o alto, desistindo das negociações: — Alguma chance de vocês talvez me… nos ajudarem… nos tirarem das cozinhas? — Os rostos das duas não pareciam muito mais velhos do que o de Nynaeve, mas ambas tinham sido Aes Sedai por longos anos, e seus olhos ainda se lembravam de como dar aquele olhar impassível de Aes Sedai. Nynaeve conseguiu encará-las com uma expressão mais tranquila do que Elayne teria conseguido, deixando transparecer apenas uma leve inquietação. Ainda assim, não foi nenhuma surpresa quando ela murmurou: — Bem, imaginei que não.

— Temos que ir — anunciou Siuan, já se levantando. — Acho que Leane subestimou o risco que corremos em sermos descobertas. Nós acabaríamos sendo as primeiras Aes Sedai a ter o couro arrancado em público, e já fui a primeira em coisas demais na vida.

Para a surpresa de Elayne, Leane se curvou para abraçá-la, sussurrando:

— Amigas.

Ela retribuiu o abraço e a declaração com o mesmo calor.

Leane também abraçou Nynaeve, murmurando palavras que Elayne não conseguiu entender, e Siuan também as abraçou, resmungando um agradecimento relutante.

Pelo menos foi o que ela interpretou da situação, mas assim que as duas saíram, Nynaeve comentou:

— Nossa, Elayne, Siuan estava quase chorando. Talvez tenha sido mesmo sincera. Acho que eu deveria tentar ser mais gentil com ela. — Um suspiro que logo se transformou em bocejo a fez pausar por um momento, então: — Ainda mais agora que ela voltou a ser Aes Sedai.

Dizendo isso, Nynaeve dormiu ali mesmo, como estava, com a bandeja ainda apoiada nos joelhos.

Abafando um bocejo com o dorso da mão, Elayne se levantou para guardar a bandeja debaixo da cama de Nynaeve. Demorou para conseguir tirar o vestido da amiga e acomodá-la na cama em uma posição mais confortável, mas nem assim a outra mulher acordou. Depois que apagou a vela e se acomodou, abraçando o travesseiro, ainda ficou um tempo deitada sem dormir, encarando a escuridão, pensativa. Rand estava tentando dar conta de um grupo de Aes Sedai enviadas por Elaida? Ah, aquelas mulheres iam comê-lo vivo. Quase queria ter sido capaz de considerar aceitar a sugestão de Nynaeve, quando aquela ideia maluca ainda tinha alguma chance de êxito. Com o que aprendera com a mãe — mais os conhecimentos que adquirira com Thom —, sabia que se estivesse ao lado de Rand poderia guiá-lo por quaisquer armadilhas que aquelas mulheres preparassem, e ele sempre lhe daria ouvidos. E se estivesse lá também poderia criar um elo com ele. Não precisara esperar até usar o xale para criar um elo com Birgitte, por que teria que esperar para tornar Rand seu Guardião?

Ela se remexeu, inquieta, e se aconchegou ainda mais no travesseiro. Rand teria que ficar para depois. Ele estava em Caemlyn, não em Salidar, mas… Siuan não tinha dito que ele estava em Cairhien. Como…?