Estava cansada demais, e o pensamento se esvaiu. Siuan… Siuan ainda estava escondendo alguma coisa. Tinha certeza.
O sono chegou, e, com ele, veio um sonho: estava em um barco, com Leane sentada na proa flertando com um sujeito que parecia mudar de rosto a cada vez que Elayne olhava. Na popa, Siuan e Nynaeve brigavam, cada uma tentando virar o leme para um lado. A disputa continuou até Elayne se levantar e assumir o comando. Um motim era justificado quando a capitã guardava segredos demais.
Siuan e Leane voltaram na manhã seguinte, antes mesmo de Nynaeve abrir os olhos, o que foi mais que o bastante para deixá-la com raiva suficiente para canalizar. Porém o esforço de nada adiantou: não havia como Curar o que já tinha sido Curado.
— Farei o possível, Siuan — respondeu Delana, inclinando-se para a frente para dar um tapinha amigável em seu braço. As duas estavam sozinhas na sala de estar, e as xícaras de chá na mesinha entre elas permaneciam intocadas.
Siuan suspirou, parecendo desolada — bem, como mais poderia estar, depois da forma como se comportara diante do Salão? A luz do começo da manhã entrava pelas janelas, e Delana pensou no desjejum que ainda não tomara. Aquela era Siuan, afinal. Era uma situação desconcertante, e Delana não gostava nada de ficar desconcertada. Passara muito tempo se esforçando para não reconhecer sua velha amiga no rosto daquela mulher — o que não era muito difícil, já que a mulher em questão não se parecia em nada com a Siuan Sanche de que Delana se lembrava, mesmo depois de tantos anos de amizade. O primeiro choque viera logo que Siuan reapareceu, ainda que em uma forma mais jovem e bonita. O segundo foi encontrar Siuan à sua porta com o sol ainda por nascer, querendo sua ajuda. Siuan nunca pedia ajuda. Então veio o maior choque de todos, que se renovava toda vez que ela encontrava Siuan desde que aquela mulher al’Meara realizara o tal milagre: Delana agora era mais forte que Siuan. Bem mais. Sempre fora o contrário. Siuan assumira a dianteira quando as duas ainda eram noviças, antes até de passarem a Aceitas. Bem, ainda assim, aquela era Siuan, e parecia bem cabisbaixa, coisa que Delana não se lembrava de já ter visto. Siuan até podia ficar chateada, mas nunca deixava transparecer. Era uma tristeza não poder fazer mais pela mulher com quem roubara bolinhos e que, mais de uma vez, levara a culpa por brincadeiras em que ambas estavam envolvidas.
— Siuan, eu posso fazer pelo menos o seguinte: Romanda ficaria mais do que feliz se aqueles ter’angreal dos sonhos acabassem sob os cuidados do Salão. Ela não tem influência com um número suficiente de Votantes para garantir isso, mas se Sheriam pensar que ela tem, se achar que você usou a sua influência junto a mim e a Lelaine para impedir isso de acontecer… ora, ela não vai ter como recusar sua proposta. Sei que Lelaine vai concordar. Apesar de eu não conseguir imaginar por que você quer se encontrar com aquelas Aiel. Romanda fica sorrindo feito uma gata presa num pombal quando Sheriam volta daquelas reuniões e fica por aí batendo o pé, muito mal-humorada. Você, com esse seu temperamento, vai acabar quebrando alguma coisa de tanta raiva.
Que mudança. Em outros tempos, Delana não teria nem cogitado mencionar o temperamento de Siuan, mas agora o fazia sem nem pestanejar.
O semblante cabisbaixo de Siuan deu lugar a um sorriso.
— Ah, eu tinha esperanças de que você fosse ajudar com algo do tipo. Vou falar com Lelaine. E com Janya, acho que ela também ajudaria. Mas você precisa garantir que Romanda não leve isso adiante. Pelo pouco que sei, Sheriam já tem ao menos uma noção de como lidar com essas Aiel, e Romanda teria que começar do zero. Claro que isso talvez não seja importante para o Salão, mas eu preferiria não ter minha primeira interação com elas quando todo mundo já estivesse com um anzol nas guelras.
Delana reprimiu um sorriso ao levar Siuan até a porta e dar um abraço na amiga. Sim, era muito importante para o Salão manter uma relação pacífica com as Sábias, embora Siuan não tivesse como saber daquilo. Antes de entrar de volta, ficou um tempo ali, parada, assistindo enquanto Siuan seguia apressada pela rua. Ao que tudo indicava, ela é que teria que proteger a amiga, a partir de agora. Esperava se sair tão bem no papel quanto Siuan.
O chá ainda estava morno, então decidiu mandar Miesa, sua serviçal, ir buscar alguns pãezinhos e frutas. Quando ouviu uma batidinha tímida na porta da sala, ficou surpresa em ver não Miesa, e sim Lucilde, uma das noviças que tinham trazido da Torre.
A garota magricela baixou o corpo depressa em uma mesura nervosa. Bem, Lucilde sempre estava nervosa.
— Delana Sedai? Chegou uma mulher hoje de manhã, e Anaiya Sedai disse que era para eu trazer a visita aqui até você? O nome dela é Halima Saranov? Ela diz que conhece a senhora? — anunciou a garota, sempre hesitante.
Delana abriu a boca para responder que nunca tinha ouvido falar de nenhuma Halima Saranov, mas ficou quieta quando uma mulher surgiu à porta. Não conseguiu evitar encará-la. A mulher conseguia ser ao mesmo tempo esbelta e curvilínea, trajando um vestido de montaria cinza ridiculamente decotado, o cabelo negro comprido e brilhante emoldurando o rosto e os olhos verdes que decerto deixavam boquiabertos todos os homens que os encarassem. Claro que não foi por isso que Delana ficou surpresa ao encará-la. A mulher estava com as mãos soltas de cada lado do corpo, mas com os polegares bem presos entre o indicador e o médio. Delana nunca imaginou que veria uma mulher que não usasse o xale fazendo aquele sinal, e aquela Halima Saranov não tinha capacidade de canalizar — sabia disso, estava perto o bastante para ter certeza.
— Ah, sim — respondeu Delana —, eu me lembro, sim. Pode ir, Lucilde. E, criança, tente se lembrar de que nem toda frase é uma pergunta.
A noviça baixou o corpo depressa, em uma mesura tão rápida e profunda que quase caiu. Em outras circunstâncias, Delana teria suspirado. Nunca se saía bem com as noviças, mesmo sem entender por quê.
Quase antes de a garota sair, Halima foi rebolando até a cadeira em que pouco antes estivera Siuan e se sentou sem esperar convite. A mulher apanhou uma das xícaras intocadas, cruzou as pernas e bebericou o chá, encarando-a.
Delana devolveu um olhar firme.
— Quem você pensa que é, mulher? Não importa quão importante você pensa que é, ninguém está acima de uma Aes Sedai. E onde foi que aprendeu aquele sinal?
Seu olhar sério não surtiu efeito — devia ser a primeira vez em sua vida que aquilo acontecia.
Halima respondeu com um sorriso zombeteiro.
— Você acha mesmo que os segredos da… Ajah mais escura, por assim dizer, são assim tão secretos? E quanto à sua posição como Aes Sedai… ora, você sabe muito bem que se um mendigo lhe fizesse os sinais apropriados, você daria um pinote e obedeceria sem pestanejar. A minha história é que, por um tempo, fui companheira de viagem de uma mulher chamada Cabriana Mecandes, uma irmã Azul. Por infortúnio, Cabriana veio a falecer ao cair do cavalo, e depois disso o Guardião dela simplesmente se recusou a sair da cama ou a comer. Ele também acabou morrendo. — Halima abriu um sorriso gentil, como se perguntasse se Delana estava acompanhando. — Cabriana e eu conversamos muito antes de ela morrer, e foi assim que fiquei sabendo de Salidar. Ela também me contou diversas coisas que tinha descoberto acerca dos planos da Torre Branca para vocês, aqui, e para o Dragão Renascido.
Ela abriu outro sorriso, um rápido lampejo de dentes brancos, e voltou a bebericar o chá, observando Delana com atenção.
Delana nunca fora mulher de desistir fácil; já coagira reis a estabelecer acordos de paz quando queriam guerra e arrastara rainhas pela nuca para assinar tratados que precisavam ser assinados. Era verdade que teria obedecido ao tal mendigo hipotético, caso ele fizesse os sinais adequados e dissesse as palavras certas. Mas a posição das mãos de Halima, mais cedo, a identificaram como pertencente à Ajah Negra, o que via agora, com toda certeza, que a mulher não era. Talvez achasse que aquela fosse a única maneira de convencer Delana a recebê-la para uma conversa, ou podia ser que também quisesse demonstrar seu conhecimento proibido. Delana não gostava nada dessa Halima.