Ele enfiou o papel no bolso e voltou para a antessala.
— Balwer, qual é a última notícia do oeste?
Entre eles, “oeste” sempre significava a fronteira com Tarabon.
— Nenhuma mudança, milorde. As patrulhas que chegam bem a fundo no território de Tarabon não conseguem voltar. O pior problema perto da fronteira são os refugiados tentando atravessar.
Patrulhas que chegavam bem a fundo. Tarabon era uma cova cheia de víboras venenosas e ratos infectados, mas…
— Em quanto tempo você conseguiria mandar um mensageiro a Tanchico?
Balwer nem pestanejou. Ele não pareceria surpreso nem mesmo se algum dia seu cavalo começasse a falar com ele.
— O problema é arranjar cavalos novos depois que o mensageiro cruzar a fronteira, milorde. Em circunstâncias normais eu diria vinte dias para ir e voltar, talvez um pouco menos, num passo bom. Mas agora é o dobro disso, e se tivermos sorte. Talvez seja o dobro só para chegar em Tanchico.
Aquela cidade era uma cova que poderia engolir um mensageiro. Nem os ossos seriam encontrados
Bem, o sujeito não precisaria voltar, mas Niall guardou a informação só para si.
— Mande providenciarem um homem, Balwer. A carta estará pronta em uma hora. Eu mesmo vou falar com o mensageiro.
Balwer assentiu com uma mesura, mas também esfregou as mãos no manto, ofendido. Que ficasse. Havia uma chance muito pequena de concretizar aquilo sem expor Varadin — precaução desnecessária se o homem fosse mesmo insano, claro, mas se não fosse… Revelar a identidade do espião não aceleraria as coisas.
De volta à câmara de audiência, Niall analisou a mensagem de Varadin outra vez antes de tocar o papel na chama de uma lamparina e vê-lo se queimar. Amassou as cinzas entre os dedos.
O Senhor Capitão Comandante dos Filhos da Luz sempre seguia quatro regras para lidar com as informações que recebia: nunca fazer planos sem saber o máximo possível sobre o inimigo, nunca hesitar em mudar os planos quando surgisse uma nova informação, nunca acreditar que sabia tudo e nunca esperar até saber tudo. Quem espera até saber tudo fica sentado na tenda enquanto o inimigo ateia fogo na lona. Niall respeitava suas próprias regras. Só as deixara de lado uma vez na vida, seguindo uma intuição — tinha sido em Jhamara, onde, por nenhuma razão além de uma comichão no fundo da mente, destacara um terço do exército para vigiar montanhas que todos diziam serem intransponíveis. Enquanto manobrava o restante das forças para esmagar os murandianos e altaranos, um exército illianense que supostamente estava a cem milhas dali se abateu sobre o destacamento, vindo daquelas passagens “intransponíveis”. Só pôde bater em retirada sem ser esmagado por ter seguido aquela “intuição”. E ali estava, outra vez, a mesma comichão.
— Eu não confio nele — declarou Tallanvor com firmeza. — Ele me lembra um jovem trapaceiro que encontrei certa vez em um festival, o camarada tinha uma cara de bebê inocente, conseguia olhar qualquer um nos olhos e ainda sorrir enquanto escondia a carta marcada na manga.
Daquela vez, Morgase achou até fácil controlar o gênio. O jovem Paitr tinha relatado que o tio finalmente conseguiria dar um jeito de tirá-la sem ser vista da Fortaleza da Luz — ela e os outros. Os outros é que tinham sido o problema até então. Já fazia um tempo que Torwyn Barshaw declarara que conseguiria tirá-la de lá sozinha, mas Morgase não deixaria seus companheiros para trás, à mercê dos Mantos-brancos. Não deixaria nem mesmo Tallanvor.
— Compreendo que você se sinta assim — respondeu ela de forma indulgente. — Só não vá deixar que esses sentimentos atrapalhem. Algum ditado que se encaixe nessa situação, Lini? Algo que possa ajudar o jovem Tallanvor a lidar com seus sentimentos? — Luz, por que sentia tanto prazer em provocá-lo? O homem estava sempre a um passo da traição, mas ela era sua rainha, não… Recusava-se a concluir o pensamento.
Lini estava sentada perto das janelas, onde enrolava um novelo de lã azul da meada embolado nas mãos de Breane.
— Paitr me lembra aquele rapaz que foi ajudante de cavalariço um pouco antes de você ir para a Torre Branca. Aquele que engravidou duas moças e foi pego tentando fugir da mansão com uma saca cheia das pratarias da sua mãe.
Morgase comprimiu o maxilar, mas nada estragaria sua diversão, nem mesmo o olhar de Breane, que parecia achar que também devia ter permissão de opinar. Paitr se deleitara com a fuga iminente de Morgase — em parte, claro, porque parecia esperar algum tipo de recompensa do tio, ou ao menos era o que dava a entender com alguns de seus comentários, algo sobre se redimir de um fracasso em casa. Bem, o jovem só faltou sair dançando quando Morgase concordou com o plano que tiraria todos da Fortaleza naquele mesmo dia e os veria fora de Amador no pôr do sol do dia seguinte. Iriam para longe de Amador, a caminho de Ghealdan, onde arranjariam soldados que não tentariam tirar vantagem de Andor. Dois dias antes, o próprio Barshaw tinha ido discutir o plano com ela. O sujeito narigudo e atarracado viera disfarçado de um lojista que fazia a entrega de agulhas de tricô e um novelo — o homem tinha olhar colérico e boca zombeteira, mas suas palavras saíram com um respeito satisfatório. Difícil acreditar que aquele era tio de Paitr, sendo os dois tão diferentes, e ainda mais difícil aceitar que o homem era mercador. Ao fim das contas, o plano era de uma simplicidade maravilhosa, ainda que não fosse muito digno, e só precisava de uma quantidade suficiente de gente no exterior da Fortaleza para dar certo. Morgase sairia da Fortaleza da Luz enterrada no fundo de uma carroça cheia de refugos da cozinha.
— Agora vocês todos já sabem o que fazer — anunciou. Contanto que ela permanecesse em seus aposentos, seus acompanhantes podiam se deslocar com uma liberdade considerável, e tudo dependia disso. Bem, nem tudo, mas todas as fugas que não a dela. — Lini, você e Breane têm que estar no quintal da lavanderia quando o sino soar a hora mais alta. — Lini aquiesceu, complacente, mas Breane apenas a encarou, em silêncio, com um olhar de reprovação. Já tinham repassado aquilo quase vinte vezes. Ainda assim, Morgase não permitiria que alguém acabasse sendo deixado para trás por algum erro bobo. — Tallanvor, você deixará a espada para trás e vai esperar na estalagem chamada O Carvalho e o Espinho. — O homem abriu a boca para protestar, mas ela se antecipou, firme. — Já ouvi suas argumentações. Você vai conseguir outra espada. Se deixar a arma aqui, vão pensar que você pretende voltar. — Tallanvor fez cara feia, mas assentiu. — Lamgwin vai esperar na estalagem A Cabeça Dourada, e Basel na…
Uma breve batidinha na porta, e ela se abriu o suficiente para dar acesso à cabeça quase careca de Basel.
— Minha Rainha, tem um homem… um Filho… — Ele olhou por cima do ombro, para o corredor. — É um Questionador, minha Rainha.
Tallanvor levou as mãos ao punho da espada, claro, e só as tirou de lá depois de Morgase gesticular duas vezes e olhar de cara feia para ele.
— Deixe-o entrar.
Conseguiu manter a voz calma, mas sentia um frio tão intenso na barriga que era como se tivesse engolido um bloco de gelo. Um Questionador? Será que a situação estava prestes a piorar com a mesma rapidez com que começara a melhorar?
Um sujeito alto de nariz aquilino empurrou Basel para fora do caminho e fechou a porta na cara dele. O tabardo branco e dourado com o cajado carmesim despontando no ombro indicava sua patente de Inquisidor. Morgase não conhecia Einor Saren pessoalmente, mas já tinham apontado o sujeito para ela na rua. Ele projetava uma segurança inabalável.
— Você foi convocada pelo Senhor Capitão Comandante — anunciou o sujeito, tranquilo. — Você virá agora mesmo.
Os pensamentos de Morgase se tornaram um turbilhão. Já estava acostumada a ser convocada — Niall nunca ia até ela, agora que a tinha como refém na Fortaleza —, chamada a comparecer perante o homem para mais um falatório sobre seu dever para com Andor ou para o que supostamente seria uma conversa amigável em que Niall tentaria provar que só estava agindo de acordo com os interesses dela e de Andor. Estava acostumada com isso, mas não com aquele tipo de mensageiro. Se estivesse sendo entregue aos Questionadores, não haveria subterfúgios: Asunawa enviaria homens suficientes para arrastá-la dali e levar todos os seus companheiros junto. Morgase falara brevemente com o líder dos Questionadores, e o homem lhe dera calafrios. Por que tinham enviado um Inquisidor para convocá-la? Expôs sua dúvida, e Saren respondeu com o mesmo tom de voz gélido.