Ver as Sábias Shaido no acampamento não ajudava — pelo menos Therava e Emerys eram Sábias, a terceira era a própria Sevanna, andando para cima e para baixo cheia de si, usando a blusa tão aberta que rivalizava com Berelain, não importava quanto o vento soprasse a poeira. Therava e Emerys afirmavam que Sevanna era uma Sábia, e, apesar dos resmungos de Sorilea, eram obrigadas a aceitá-la como tal. Egwene tinha certeza de que as mulheres estavam ali para espionar, mas Amys só olhava feio sempre que ela insinuava aquilo. Protegidas pelos costumes, as mulheres tinham passagem livre pelas tendas e eram bem recebidas por todas as Sábias, inclusive Sorilea, acolhidas como amigas íntimas ou irmãs-primeiras. Ainda assim, a presença delas piorava o humor de todos — o de Egwene em especial. Sevanna, aquela pantera de sorriso afetado, sabia quem ela era e não se esforçava para esconder seu prazer em mandar “a aprendiz baixinha” ir buscar um copo d’água ou qualquer outra besteira em toda oportunidade. E Sevanna também a encarava com um olhar analítico, um olhar que lembrava Egwene de alguém analisando uma galinha e pensando em como a cozinharia depois de roubá-la. E não parava por aí: para piorar, as Sábias não lhe contavam sobre o que conversavam com as Shaido — era assunto das Sábias, não das aprendizes. Qualquer que fosse o motivo para aquelas três estarem ali, seu interesse no comportamento das outras Sábias era evidente. Mais de uma vez, em momentos em que Sevanna achava que não estava sendo observada, Egwene a flagrou sorrindo ao ver Amys, Malindhe ou Cosain passarem por ela falando sozinhas ou ajeitando o xale sem necessidade. Claro que ninguém dava ouvidos a Egwene, e um excesso de advertências a respeito das Shaido acabaram por lhe render a punição de passar quase um dia todo cavando um buraco “grande o bastante para se enfiar lá dentro sem ser vista” — e, para coroar o castigo, quando saiu do buraco toda suja e ensopada de suor para obedecer às ordens de tapá-lo de novo, viu que Sevanna a observava.
Dois dias depois da partida de Rand, Aeron e algumas outras Sábias mandaram três Donzelas pularem escondidas a muralha do palácio de Arilyn, à noite, para ver o que conseguiam descobrir, e isso só piorou a situação. As três conseguiram passar despercebidas pelos guardas de Gawyn, mesmo que com mais dificuldade do que esperavam, mas passar pelas Aes Sedai acabou sendo mais complicado. Quando ainda estavam no topo do telhado, tentando encontrar uma maneira de adentrar o sótão, acabaram envolvidas por tramas do Poder e puxadas para dentro do casarão. Por sorte, Coiren e as outras pareceram pensar que as Aiel só estavam ali para roubar, embora as Donzelas talvez não tivessem considerado aquilo tanta sorte. As três foram jogadas de volta na rua depois de uma sova tão grande que mal conseguiam andar — ainda estavam tentando conter os gemidos de dor quando voltaram para as tendas. As Sábias se revezaram repreendendo Aeron e as amigas, quase todas em particular, mas Sorilea pareceu fazer questão de confrontá-las diante do máximo de gente possível. Sevanna e as outras duas Shaido sorriam com um desdém bem explícito sempre que avistavam Aeron ou uma das outras, especulando em tons bastante audíveis sobre o que as Aes Sedai fariam quando descobrissem a verdade sobre a invasão. Até Sorilea olhou torto para as três ao ouvir os comentários, mas ninguém se pronunciou. Aeron e suas amigas passaram a andar parecendo pisar nos mesmos ovos que as aprendizes, que começaram a tentar se esconder sempre que não estavam desempenhando suas tarefas habituais ou envolvidas nas aulas. Os ânimos ficaram ainda mais exaltados.
Fora o buraco que tivera que cavar, Egwene conseguiu evitar o pior daquilo tudo, mas só porque passava boa parte do tempo longe das tendas — e o fazia sobretudo para ficar longe de Sevanna, antes que acabasse dando uma lição na mulher. Não tinha dúvidas de como terminaria, caso ousasse se manifestar: Sevanna era aceita como Sábia, não importava as caras feias quando ela não estava por perto, e Amys e Bair provavelmente deixariam as Shaido pensarem em um castigo para Egwene. Pelo menos não era tão difícil ficar afastada. Ela podia ser aprendiz, mas só Sorilea fazia qualquer esforço para lhe ensinar as milhares de coisas que uma Sábia precisava saber, e até Amys e Bair lhe darem permissão para voltar a Tel’aran’rhiod, Egwene tinha os dias e as noites livres — só precisava dar um jeito de escapar de ser convocada, junto com Surandha e as outras aprendizes, para lavar a louça, recolher esterco para as fogueiras ou coisa parecida.
Egwene não conseguia entender por que os dias pareciam passar tão devagar. Achava que podia ter algo a ver com ter que esperar a decisão de Amys e Bair. Encontrava Gawyn na estalagem O Homem Comprido todas as manhãs, e já estava acostumada com os sorrisinhos sugestivos da estalajadeira gorducha, apesar de ter considerado dar um belo pontapé na mulher em uma ou duas ocasiões. Talvez três, porém não mais que isso. Ah, aquelas horas da manhã passavam voando. Mal se sentava no colo dele e já era hora de endireitar o cabelo e ir embora. Não ficava mais incomodada de se sentar no colo de Gawyn — não que algum dia isso a tivesse incomodado de verdade, mas a experiência foi ficando cada vez melhor. Se por vezes pensava coisas que não deveria, e se esses pensamentos a faziam enrubescer… bem, nessas horas Gawyn sempre passava os dedos em seu rosto, murmurando seu nome de um jeito que ela poderia ouvi-lo repetir a vida inteira. O rapaz deixava escapar menos sobre o que vinha se passando com as Aes Sedai do que ela ficava sabendo em outros lugares, mas Egwene mal se importava.
Eram as outras horas que se arrastavam como se estivessem atoladas na lama. Havia tão pouco a fazer que ela achava que ia acabar explodindo de tanta frustração. As Sábias escolhidas para ficar de olho na mansão de Arilyn não relataram mais nenhuma novidade sobre a presença das Aes Sedai — escolhidas entre as que eram capazes de canalizar, as vigias afirmavam que as mulheres da Torre continuavam manejando o Poder lá dentro dia e noite sem parar, mas Egwene não ousava se aproximar. Mesmo se tivesse coragem, não saberia o que elas estavam fazendo sem ver os fluxos. Se as Sábias não estivessem tão irritadiças, poderia passar o tempo lendo em sua tenda — na única vez em que pegou um livro, a não ser à noite, sob a luz de uma lamparina, Bair resmungou tanto sobre as garotas que desperdiçavam os dias deitadas com preguiça que Egwene acabou murmurando que se esquecera de alguma coisa só para sair correndo, antes que a Sábia lhe arrumasse alguma coisa para fazer. E uma conversa de poucos instantes com uma aprendiz poderia ser tão perigosa quanto pegar um livro: ser flagrada por Sorilea em uma pequena pausa para falar com Surandha, escondida sob a sombra de uma tenda dos Cães de Pedra, lhe rendeu uma tarde inteira cuidando da lavagem das roupas. Até teria ficado feliz em cuidar de algumas tarefas pelo simples fato de ter o que fazer, mas Sorilea foi examinar as roupas impecavelmente limpas penduradas dentro da tenda, protegidas da poeira onipresente, fungou e mandou que fizessem tudo de novo — e isso aconteceu duas vezes! Sevanna também testemunhou parte desse castigo.
Quando ia à cidade, Egwene sempre ficava tensa — ainda assim, no terceiro dia, foi de fininho até as docas, se esgueirando como um rato roubando leite de um gato. Um sujeito todo enrugado com um barquinho estreito coçou o cocuruto coberto de cabelos ralos e pediu um marco de prata para levá-la a remo até o navio do Povo do Mar. Nada na vida era de graça, mas aquele preço era ridículo. Egwene encarou o homem, respondendo que ele receberia apenas uma moeda comum de prata — o que ainda era bem caro, aliás —, e esperou que a barganha que viria a seguir não lhe custasse todas as moedas da bolsa, pois não tinha muitas. Todos se sobressaltavam ou se encolhiam diante dos Aiel, mas, quando o assunto era dinheiro, esqueciam-se do cadin’sor e das lanças e lutavam feito leões. O homem abriu a boca banguela, então fechou, espiou Egwene de cima a baixo, resmungou para si mesmo e, para a surpresa da garota, aceitou, acrescentando que ela estava roubando o pouco pão que ele tinha para comer.