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Assim que chegaram, as Aes Sedai se voltaram para Egwene, como se as Sábias nem existissem.

— Egwene al’Vere — começou Sheriam, em um tom muito formal —, você está convocada a comparecer ao Salão da Torre. — A Aes Sedai estreitou os olhos de leve, tentando disfarçar alguma emoção. Egwene sentiu um aperto no peito: elas sabiam que estava se passando por uma irmã completa.

— Não pergunte o motivo da convocação — advertiu Carlinya, logo depois de Sheriam terminar, sua voz gélida aumentando ainda mais a sensação de formalidade. — Seu dever é responder, não perguntar.

Por algum motivo misterioso, Carlinya cortara o cabelo escuro bem curto. O detalhe irrelevante de repente pareceu importante para Egwene. Não queria ficar pensando no que tudo aquilo significava, não mesmo. As frases cerimoniosas vieram em sucessão, em um ritmo imponente. Amys e Bair ajeitaram os xales e franziram o cenho, a irritação começando a virar preocupação.

— Não adie sua vinda — continuou Anaiya. Egwene sempre a tinha achado bondosa, mas a mulher de rosto gentil soava tão firme quanto Carlinya, com uma formalidade quase tão fria quanto a da Branca. — Seu dever é obedecer com presteza.

As três falaram em uníssono:

— É bom temer as convocações do Salão. É bom obedecer com presteza e humildade, sem questionar. Você está convocada a se ajoelhar perante o Salão da Torre e aceitar seu julgamento.

Egwene se forçou a controlar a respiração, ao menos o suficiente para conseguir evitar parecer ofegante. Qual seria a punição para o que fizera? Suspeitava de que não seria nada branda, a julgar por toda aquela cerimônia. Todas a encaravam. Tentou decifrar alguma coisa naqueles rostos de Aes Sedai — seis deles exibiam apenas a serenidade da idade indefinida, talvez uma leve intensidade no olhar. A jovem Azul ostentava a calma tranquila de alguém que já era Aes Sedai havia anos, mas não conseguia esconder o sorriso discreto e satisfeito.

Elas pareciam estar esperando resposta.

— Vou assim que puder. — Seu coração estava tão apertado que parecia prestes a ser esmagado, mas Egwene conseguiu deixar a voz em um tom à altura do das mulheres. Nada de covardia. Ela ainda se tornaria Aes Sedai. Isso se deixassem, depois de tudo o que fez. — Só não sei se consigo chegar assim tão rápido. O caminho é longo, e não sei exatamente onde fica Salidar, só sei que é algum lugar ao longo do Rio Eldar.

Sheriam e outras Aes Sedai se entreolharam. Seu vestido passou de uma seda azul-clara a um cinza-escuro de saias plissadas.

— Temos certeza de que existe uma maneira de fazer essa jornada mais depressa. Se as Sábias ajudarem, claro. Siuan está certa de que não precisaríamos de mais de um ou dois dias, se você entrar fisicamente em Tel’aran’rhiod

— Não — interrompeu Bair, irritada, no mesmo instante em que Amys retrucava:

— Não vamos ensinar uma coisa dessas para ela. Isso já foi usado para o mal, e é uma habilidade maligna. Quem faz uma coisa dessas, não importa quem seja, perde uma parte de si mesmo.

— Você não pode saber disso com certeza — retrucou Beonin, em um tom muito paciente —, já que, ao que parece, nenhuma de vocês nunca nem tentou. Mas, se sabem que existe um jeito, devem ter alguma ideia de como se faz. Com essa informação, podemos descobrir a parte que vocês não souberem.

O tom paciente não foi a abordagem correta. Amys ajustou o xale e se endireitou, a postura ainda mais ereta que de costume. Bair plantou as mãos na cintura, encarando Beonin com um olhar duro e ameaçador. Em poucos instantes, haveria uma daquelas brigas que as Sábias tinham dado a entender que aconteciam. Ah, as duas iam ensinar àquelas Aes Sedai algumas lições sobre o que podia ser feito em Tel’aran’rhiod, deixando bem claro quão pouco aquelas mulheres da Torre sabiam. As Aes Sedai retribuíram os olhares irritados com expressões muito calmas e cheias de confiança. Os xales permaneciam estáveis, mas os vestidos se alternavam quase tão rápido quanto as batidas do coração de Egwene — só a roupa da jovem Azul parecia mais estável, tendo mudado apenas uma vez durante todo aquele longo silêncio.

Egwene tinha que acabar com aquilo. Precisava ir a Salidar, e não ajudaria em nada sua situação se ela testemunhasse aquelas Aes Sedai serem humilhadas.

— Eu sei como faz. Acho que sei. E estou disposta a tentar. — Se não desse certo, ainda poderia ir cavalgando. — Mas preciso saber onde é. Pelo menos melhor do que sei agora.

Amys e Bair desviaram a atenção das Aes Sedai para ela. Nem Carlinya conseguiria rivalizar com aqueles olhares frios — nem mesmo Morvrin teria conseguido. Egwene sentiu o coração se apertar mais um tanto.

Na mesma hora, Sheriam começou a dar as coordenadas — a tantas milhas dessa aldeia, a tantas léguas ao sul daquela outra —, mas a jovem Azul apenas pigarreou e disse:

— Isto aqui talvez seja mais útil. — A voz soava familiar, mas Egwene não conseguia se lembrar daquele rosto.

Ela parecia não ter muito mais controle sobre as próprias roupas do que as outras Aes Sedai, no fim das contas — a seda verde suave foi adquirindo um tom azul-escuro enquanto ela falava, e a gola alta bordada virou um rufo de renda ao estilo taireno enquanto uma touca cravejada de pérolas surgia em sua cabeça —, mas até que possuía algum conhecimento sobre Tel’aran’rhiod. Um mapa enorme se materializou no ar, mais para o lado. Um ponto vermelho reluzente em uma das extremidades indicava “Cairhien”, anotado com letras garrafais, e um segundo indicava “Salidar”, na outra extremidade. O mapa foi se expandindo e se modificando, e de repente as montanhas não eram apenas linhas, e sim relevos; as florestas adquiriram tons de verde e marrom; e os rios passaram a cintilar feito água azul à luz do sol. O mapa foi crescendo até virar um paredão que cobria toda a lateral da Pedra. Era como olhar de cima para o mundo inteiro.

Até as Sábias ficaram impressionadas — ao menos não deixaram a desaprovação clara até o vestido taireno da mulher se transformar em uma veste de seda amarela com bordados de prata na gola. Mas a jovem não estava interessada nas Aiel. Por algum motivo, fitava as outras Aes Sedai com um olhar desafiador.

— Esplêndido, Siuan — opinou Sheriam, depois de um momento.

Egwene ficou surpresa. Siuan? Devia ser outra mulher com o mesmo nome. A jovem Siuan pareceu muito satisfeita consigo mesma e aquiesceu — sua expressão assertiva lembrava muito Siuan Sanche, mas era impossível. Você só está enrolando, ralhou consigo mesma.

— Bem, isso com certeza é o suficiente para eu encontrar Salidar, podendo ou não… — Ela olhou de esguelha para Amys e Bair, que a encaravam com um olhar tão cheio de reprovação silenciosa que mais pareciam esculpidas em pedra invernal. — Podendo ou não entrar neste mundo em carne e osso. De um jeito ou de outro, prometo que estarei em Salidar assim que possível.

O mapa desapareceu. Luz, o que elas vão fazer comigo?

Chegou a abrir a boca para perguntar, mas Carlinya a interrompeu, ríspida, voltando ao tom cerimonioso, agora ainda mais intenso e rigoroso.

— Não pergunte o motivo da convocação. Seu dever é responder, não perguntar.

— Não adie a sua vinda — completou Anaiya. — Seu dever é obedecer com presteza.

As Aes Sedai se entreolharam e sumiram, indo embora tão depressa que Egwene chegou a suspeitar de que achavam que ela faria alguma pergunta.

Aquilo a deixou a sós com Amys e Bair. Mas, quando se virou para as Sábias, sem saber se deveria começar por uma explicação ou por um pedido de desculpas ou se apenas imploraria por compreensão, as duas também sumiram. Ficou sozinha, cercada pelas colunas de pedra vermelha, com Callandor cintilando a seu lado. Não havia desculpas no ji’e’toh.