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Egwene suspirou, tristonha, e saiu de Tel’aran’rhiod de volta para seu corpo adormecido.

Ela despertou na mesma hora — acordar por vontade própria era uma parte tão importante do treinamento de uma Andarilha dos Sonhos quanto adormecer quando queria, e ela de fato prometera ir o mais depressa possível. Canalizando, acendeu todas as lamparinas. Precisaria de luz. Esforçou-se para ser rápida ao se ajoelhar junto de um dos bauzinhos encostados nas paredes da tenda e desencavar as roupas que não usara desde que chegara ao Deserto. Parte de sua vida chegava ao fim, mas ela não choraria por aquela perda. Não mesmo.

Assim que Egwene sumiu, Rand saiu de detrás das colunas. Às vezes ia ali dar uma olhada em Callandor. A primeira visita tinha sido depois de Asmodean ensinar a ele a inverter os fluxos. Depois disso, tinha mudado as armadilhas dispostas ao redor do sa’angreal para que apenas ele conseguisse ver as tramas. Se podia acreditar nas Profecias, quem conseguisse empunhar a espada depois dele seria seu “sucessor”. Não tinha certeza de quanto ainda acreditava naquilo, mas não precisaria correr riscos desnecessários.

Lews Therin resmungava em algum lugar no fundo de sua mente — isso acontecia sempre que Rand chegava muito perto de Callandor. Naquela noite, no entanto, a espada de cristal reluzente não lhe despertou nenhum interesse. Em vez disso, olhava para o ponto onde o imenso mapa fora estendido — no fim das contas a coisa se revelou não apenas um mapa, e sim algo mais. Que lugar seria aquele? Será que a pura sorte o conduzira até ali, naquela noite, em vez da noite anterior ou da seguinte? Teria sido um dos puxões de ta’veren no Padrão? Não importava. Egwene aceitara a convocação sem protestar, coisa que jamais faria se aquilo fosse obra da Torre e de Elaida. Essa tal de Salidar era onde estavam escondidas suas amigas misteriosas. Onde estava Elayne. E aquelas mulheres tinham lhe entregado a localização de bandeja.

Com uma gargalhada, Rand abriu um portão para o reflexo do Palácio em Caemlyn.

CAPÍTULO 33

Coragem para fortificar

Ajoelhada, ainda só de camisola, Egwene franziu o cenho, examinando o vestido de cavalgada de seda verde-escura que estava usando quando chegou ao Deserto, tanto tempo antes. Ainda tinha muito a fazer. Tirara alguns instantes para escrever um bilhete apressado e depois acordara Cowinde para mandar que ela o entregasse na estalagem O Homem Comprido logo de manhã.

O bilhete não dizia muito, só explicava que precisara ir embora — e Egwene tampouco sabia muito mais que isso —, mas não podia simplesmente desaparecer sem deixar nenhuma explicação para Gawyn. Algumas das coisas que escrevera ainda a deixavam corada só de lembrar — dizer que o amava era uma coisa, mas chegara a pedir a ele que a esperasse! Bem, conseguira ser justa com ele, pelo menos tanto quanto possível. Só precisava terminar de se arrumar, e mal sabia para quê.

A abertura da tenda foi erguida, e Amys entrou com Bair e Sorilea. As três ficaram paradas, lado a lado, encarando-a de cima. Três olhares inflexíveis de reprovação. Egwene teve que se esforçar para não apertar o vestido contra o peito — só de camisola, como estava, sentia-se muito mais vulnerável. Embora, pensando bem, até de armadura estaria vulnerável diante daquelas três. A questão era que sabia que estava errada. Ficou surpresa por elas terem demorado tanto tempo para aparecer.

Egwene respirou fundo.

— Se vieram me punir, não tenho tempo para carregar água, cavar buracos e nem nada disso. Peço desculpas, de verdade, mas eu prometi que partiria assim que pudesse, e acho que elas vão contar cada minuto.

Amys ergueu as sobrancelhas claras, surpresa, e um olhar confuso perpassou o rosto de Bair e Sorilea.

— Como poderíamos punir você? — indagou Amys. — Você deixou de ser nossa pupila no instante em que as suas irmãs a convocaram, e agora tem que ir atender ao chamado delas como a Aes Sedai que é.

Egwene conteve a careta, disfarçando a expressão enquanto examinava o vestido de cavalgada. Achou impressionante como o tecido estava pouco amassado, mesmo depois de passar todos aqueles meses enrolado em um baú. Então se obrigou a encará-las.

— Sei que estão zangadas comigo e têm motivo para…

— Zangadas? — estranhou Sorilea. — Não estamos zangadas. Achei que você nos conhecesse melhor que isso. — Ela de fato não parecia zangada, mas ainda exibia a mesma expressão de censura das outras duas.

Egwene encarou cada uma delas, demorando-se em Amys e Bair.

— Mas vocês falaram que acham errado o que vou fazer. Que eu não devia nem pensar em fazer uma coisa dessas. E eu tinha dito que nem mesmo pensaria, mas pensei assim mesmo e descobri como se faz.

Para sua surpresa, um sorriso brotou no rosto enrugado de Sorilea. A profusão de braceletes retiniu quando ela ajeitou o xale, parecendo satisfeita.

— Viram só? Eu disse que ela entenderia. Ela poderia ser Aiel.

A tensão no rosto de Amys pareceu diminuir um pouco, e a de Bair cedeu ainda mais. Egwene enfim compreendeu. As Sábias não estavam irritadas porque ela ia entrar em Tel’aran’rhiod em carne e osso — aquilo ainda era errado a seus olhos, mas entendiam quando alguém precisava fazer o que julgava ser necessário. E, mesmo que desse certo, Egwene só incorreria em obrigação para com ela mesma. As Sábias não estavam nem um pouco irritadas, ao menos não ainda. O que as incomodava era a mentira. Egwene sentia o estômago palpitar. Só sabiam da mentira que admitira. Que talvez fosse a menor das mentiras.

Teve que parar mais uma vez para respirar fundo, preparando a garganta para as palavras que precisava se forçar a dizer.

— Também menti sobre outras questões. Entrei em Tel’aran’rhiod sozinha, mesmo depois de ter prometido que não entraria. — Amys ficou séria outra vez. Sorilea, que não era Andarilha dos Sonhos, apenas balançou a cabeça com pesar. — Prometi obedecer como pupila, mas, depois que me machuquei e vocês me disseram para esperar, explicando que o Mundo dos Sonhos era perigoso demais, eu voltei lá mesmo assim. — Bair cruzou os braços, o rosto inexpressivo. Sorilea resmungou algo sobre garotas tolas, mas sem muita raiva. Egwene respirou fundo uma terceira vez, preparando-se para a parte mais difícil de dizer. Nem sentia mais as palpitações no estômago, pois o que havia dentro dela agora era uma dança tão louca e intensa que era surpreendente o corpo todo não estar tremendo. — O pior de tudo é que eu não sou Aes Sedai. Sou só uma Aceita. É como ser aprendiz. Ainda faltam alguns anos para eu ser elevada a Aes Sedai, se é que algum dia serei, depois disso.

Sorilea ergueu a cabeça ao ouvir aquilo, comprimindo os lábios finos em uma linha firme, mas nenhuma das três disse uma única palavra. Egwene é quem precisava esclarecer e resolver a situação. As coisas nunca mais seriam exatamente como eram, mas…

Você admitiu tudo, sussurrou uma vozinha. Agora é melhor tratar de descobrir em quanto tempo consegue chegar em Salidar. Você algum dia ainda pode ser elevada a Aes Sedai, mas não se deixar as Aes Sedai mais irritadas do que elas já estão.

Egwene baixou os olhos, encarando os tapetes coloridos dispostos em camadas, a boca se retorcendo de desdém. Desdém por aquela vozinha. E vergonha por tê-la em sua mente, por poder pensar aquilo. Iria embora, sim, mas antes precisava resolver a situação — e dava para resolver, com o ji’e’toh. Depois de fazer o que julgava ser necessário, era preciso pagar o preço; era assim que as coisas funcionavam. Muitos meses antes, no Deserto, Aviendha lhe mostrara como era cobrado o preço de uma mentira.

Reunindo cada fragmento de coragem que conseguiu encontrar e torcendo para que fosse o suficiente, Egwene deixou o vestido de seda de lado e se levantou. Estranhamente, parecia mais fácil prosseguir com aquilo depois de ter começado. Ainda teve que erguer os olhos para encarar as três, mas encarou-as com orgulho, de cabeça erguida, e não precisou forçar as palavras.