— Eu tenho toh. — Não sentia mais o estômago palpitar. — Peço a vocês o favor de me ajudarem a cumprir minha toh.
Salidar teria que esperar.
Apoiado no cotovelo, Mat examinava o jogo de Cobras e Raposas disposto no chão da tenda. De tempos em tempos, uma gota de suor caía de seu queixo, quase pingando no tabuleiro. Não chegava a ser bem um tabuleiro, na verdade, só um pedaço de pano vermelho com as tramas das linhas desenhadas à tinta preta e setas identificando os possíveis sentidos de movimentos por cada linha — algumas permitiam ir apenas em uma direção, por outras era possível transitar nos dois sentidos. Dez discos de madeira clara, cada um com um triângulo pintado, marcavam as raposas, e outros dez com uma linha sinuosa eram as cobras. Duas lamparinas pousadas de cada lado proporcionavam luz mais que suficiente.
— Nós vamos ganhar esta, Mat — empolgou-se Olver. — Sei que vamos.
— Talvez — respondeu o mais velho. Os dois discos que os representavam, marcados com manchas pretas, estavam quase de volta ao círculo no meio do tabuleiro, mas eram as cobras e as raposas que jogariam os dados dessa vez. A maioria dos jogadores não conseguia nem chegar à ponta para começar a voltar. — Jogue os dados.
Não encostava no copo com os dados desde que o dera para o garoto — se iam jogar aquilo, melhor que fosse sem a ajuda da sua sorte.
Abrindo um sorriso enorme, Olver chacoalhou o copo de couro e deixou cair os dados de madeira, feitos por seu próprio pai. Ele gemeu, examinando as faces dos dados — três mostravam lados marcados com um triângulo, e os outros três exibiam linhas sinuosas, indicando que as três peças de cada lado se moveriam. Quando era a vez do inimigo, as cobras e as raposas se moviam em direção às peças dos jogadores seguindo pelo caminho mais curto, e se uma delas pousasse no mesmo ponto que uma peça… Uma cobra caiu em Olver, e uma raposa, em Mat — dava para ver que, se o garoto completasse a jogada, mais duas cobras teriam alcançado sua peça.
Era só um jogo para crianças, e um jogo impossível de vencer enquanto as regras fossem respeitadas. Olver logo estaria velho o bastante para compreender isso e, como qualquer outra criança, deixaria de jogar. Era apenas uma brincadeira de crianças, mas Mat não gostava de ver as raposas alcançando sua peça, e muito menos as cobras. Aquilo lhe trazia más recordações, mesmo que o jogo não tivesse nada a ver com suas memórias.
— Ah, bem, quase ganhamos — resmungou Olver. — Mais uma? — Sem esperar resposta, o garoto dispôs as peças nas posições iniciais do jogo, um triângulo perpassado por uma linha sinuosa, então entoou: — “Coragem para fortificar, fogo para cegar, música para encantar, ferro para selar.” Mat, por que dizemos isso? Aqui não tem fogo, nem música e nem ferro.
— Não sei.
Os versos faziam remexer algo no fundo de sua mente, mas Mat não sabia bem o quê. As antigas memórias que ganhara no ter’angreal pareciam ter sido escolhidas ao acaso — e provavelmente tinham sido mesmo —, e além disso ainda havia todas aquelas lacunas em suas próprias memórias, aquelas lembranças confusas. Bem, Olver sempre fazia perguntas que Mat não sabia responder, e quase todas começavam com um “por que”.
Daerid entrou na tenda, permitindo um vislumbre da noite lá fora, e levou um susto ao ver os dois. Estava com o rosto reluzindo de suor, mas usava o casaco, ainda que desamarrado. A nova cicatriz criara um sulco que ia de um lado ao outro das linhas brancas que já ziguezagueavam seu rosto.
— Acho que já passou da sua hora de dormir, Olver — anunciou Mat, levantando-se. Sentiu algumas pontadas das feridas, mas não doía muito. Estavam cicatrizando bem. — Guarde o tabuleiro. — Foi para perto de Daerid e baixou a voz até um sussurro. — Corto a sua garganta se você abrir o bico para alguém.
— Por quê? — indagou Daerid, seco. — Você está se saindo um pai maravilhoso. O garoto assemelha-se muito a você. — Mat teve a impressão de que o homem se esforçou para conter um sorriso, mas a vontade pareceu passar no instante seguinte. — O Lorde Dragão está vindo para o acampamento — anunciou, sério como a morte.
O impulso de socar o rosto de Daerid se dissipou. Mat puxou a aba da tenda para o lado e se abaixou, mergulhando na noite só de camisa. Seis dos homens de Daerid, parados ao redor da tenda, enrijeceram quando ele apareceu — todos besteiros, já que piques não seriam muito úteis para guardas. Era noite, mas o acampamento não estava escuro: o brilho luminoso da lua crescente quase cheia no céu límpido era até solapado pelo resplendor dos fogos acesos entre as fileiras de tendas e homens dormindo no chão. Sentinelas montavam guarda a cada vinte passadas ao longo de toda a paliçada de toras. Não era o que Mat queria, mas, caso houvesse um ataque surpresa…
O terreno ali era quase plano, o que lhe permitia uma visão bem clara de Rand vindo em sua direção — e não estava sozinho: dois Aiel velados avançavam a seu lado, atentos, virando a cabeça sempre que um dos homens do Bando se revirava durante o sono ou quando um sentinela mudava de posição para observá-los. Aquela Aviendha também estava com ele, carregando uma trouxa às costas e avançando a passos duros, parecendo prestes a pular na garganta do primeiro que cruzasse seu caminho. Mat não entendia por que Rand não a mandava para longe. Essas Aiel só trazem problemas, pensou, mal-humorado, e nunca vi uma mulher mais disposta a criar problemas do que essa aí.
— Aquele é mesmo o Dragão Renascido? — perguntou Olver, impressionado, quase pulando de tanta empolgação, o jogo enrolado bem apertado junto ao peito.
— É, sim — confirmou Mat. — Agora vá para a cama. Aqui não é lugar para garotos.
Olver foi embora resmungando, mas se calou logo ao chegar nos limites da tenda mais próxima. De rabo de olho, Mat foi acompanhando enquanto ele saía de vista, correndo em disparada, e o viu reaparecer ali perto, bisbilhotando.
Deixou o garoto em paz, mesmo depois de notar a expressão de Rand — pela cara dele, Mat não sabia se aquele seria lugar para homens adultos, quanto mais para um garoto como Olver. Aquele rosto parecia tão duro que poderia ser usado como arma de cerco para derrubar uma muralha, mas ainda havia um vislumbre de alguma emoção tentando se revelar — ansiedade, talvez, ou empolgação. Os olhos de Rand emitiam um brilho febril. Ele trazia um pergaminho grande enrolado em uma das mãos, e a outra alisava o punho da espada distraidamente. A fivela de Dragão do cinto reluzia à luz do fogo, e volta e meia a cabeça de um dos Dragões despontava por baixo das mangas do casaco.
Quando chegou diante de Mat, Rand não perdeu tempo com cumprimentos.
— Preciso falar com você. A sós. Preciso que você faça uma coisa.
A noite parecia um forno escuro. Rand usava um casaco verde de gola alta com bordados de ouro, mas não suava nem uma gota.
Daerid, Talmanes e Nalesean estavam parados a poucas passadas de distância, observando, cada um deles já meio despido para a cama. Mat gesticulou para que aguardassem e meneou a cabeça, indicando a própria tenda para Rand. Deixou o amigo entrar primeiro, então atravessou a abertura do tecido apalpando a cabeça de raposa de prata através da camisa. Pelo menos não tinha com o que se preocupar. Talvez.
Rand dissera que a conversa seria a sós, mas Aviendha parecia pensar que aquilo não se aplicava a ela: ficou parada a exatamente duas passadas dele, nem um triz a mais ou a menos. Ela passava quase todo o tempo encarando Rand com uma expressão indecifrável, mas volta e meia disparava uma olhadela para Mat, franzindo o cenho e analisando-o de alto a baixo. Rand a ignorava completamente. Toda a pressa de antes parecia ter desaparecido. Ele passou os olhos pela tenda — Mat se perguntou, incomodado, se o homem estava mesmo vendo alguma coisa. Bem, não havia muito o que ver: Olver botara as lamparinas de volta sobre a mesinha dobrável, e havia uma cadeira também dobrável, assim como o lavatório e a cama. Tudo era de laca preta com linhas douradas. Se tinha dinheiro, melhor gastar. Ainda dava para ver as fendas abertas pelos Aiel no tecido da tenda, apesar de terem sido muito bem remendadas.