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O silêncio começou a incomodar Mat.

— O que foi, Rand? Espero que não tenha decidido mudar os planos tão em cima da hora.

Nenhuma resposta. Ao ouvi-lo, Rand mudou de expressão, como se só então se desse conta de onde estava, o que deixou Mat um pouco nervoso. A despeito do que Daerid e o restante do Bando pensassem, ele se esforçava muito para ficar longe de qualquer batalha, mas, ainda assim, às vezes o fato de ser ta’veren pesava contra sua sorte. Pelo menos era assim que via a questão. Achava que Rand tinha algo a ver com aquilo, já que era o ta’veren mais forte — tão forte que, de vez em quando, Mat praticamente sentia o puxão que o levava de volta para perto do tal Dragão Renascido. Se Rand resolvesse se meter, Mat não ficaria surpreso de, ao ir tirar um cochilo em um celeiro isolado, acabar acordando no meio de uma batalha.

— Mais alguns dias e chego em Tear. As balsas vão levar o Bando até o outro lado do rio, então, alguns dias depois, alcançaremos Weiramon. Já é tarde demais para uma maldita intromissão…

— Quero que você leve Elayne para… para Caemlyn — começou Rand, de repente. — Quero que a conduza em segurança até Caemlyn, aconteça o que acontecer. E não saia do lado dela até que ela ocupe o Trono do Leão. — A Aiel atrás dele pigarreou. — Ah, sim… — Por algum motivo, sua voz ficou tão fria e dura quanto o rosto. Bem, se ele estava enlouquecendo, precisava mesmo de um motivo? — Aviendha vai com você. Acho melhor assim.

Você acha melhor assim? — indagou ela, indignada. — Se eu não tivesse acordado na hora em que acordei, nunca teria descoberto que você tinha encontrado Elayne. Você não pode me mandar ir a lugar nenhum, Rand al’Thor. Tenho que falar com Elayne para me… Tenho meus motivos para falar com ela.

— Acho mesmo ótimo você ter encontrado Elayne — começou Mat, escolhendo bem as palavras. Se ele fosse Rand, teria deixado aquela doida onde estava. Luz, até Aviendha seria melhor! Pelo menos as Aiel não andavam por aí de nariz empinado, achando que o sujeito devia dar um pinote só porque tinham mandado ele pular. Claro que alguns dos joguinhos das mulheres do Deserto eram bem pesados, e elas realmente tentavam matar homens inocentes de vez em quando… — Só não entendo por que você precisa de mim. Pegue um daqueles seus portões, ponha a mulher no colo, dê um beijo nela e a arraste de lá.

Aviendha o encarou, ultrajada. Pelo ar ofendido, parecia até que Mat aconselhara o amigo a roubar um beijo dela.

Rand desenrolou o enorme pergaminho sobre a mesa, usando as lamparinas para prender as extremidades.

— É bem aqui que ela está. — Era um mapa, um trecho do Rio Eldar com cerca de cinquenta milhas para o lado em cada margem. Uma seta azul fora desenhada apontando para a floresta, e a legenda indicava Salidar. Rand cutucou um ponto próximo à margem leste do mapa; também era arborizado. Era quase tudo mato. — Aqui tem uma clareira bem grande, dá para ver que a aldeia mais próxima fica a quase vinte milhas a norte. Vou abrir um portão até a clareira para você e o Bando.

Mat deu um jeito de fazer a hesitação sair como um sorriso forçado.

— Olha, se tem que ser eu, por que não vou só eu? Faça esse seu portão até Salidar, eu coloco a mulher no lombo de um cavalo e…

E o quê? Rand também abriria um portão de Salidar para Caemlyn? Era uma longa cavalgada do Eldar até Caemlyn — bem longa, e acompanhado apenas de uma nobre metida e uma Aiel, a viagem pareceria ainda mais longa.

— O Bando, Mat — irrompeu Rand. — Você e o Bando todo! — Ele inspirou fundo, trêmulo, e amansou a voz. Mas o rosto não perdeu a rigidez, e os olhos continuavam com aquele brilho febril. Quase dava para pensar que ele estava doente ou sentindo muita dor. — Tem Aes Sedai em Salidar, Mat. Não sei quantas. Centenas, pelo que ouvi, mas não ficaria surpreso se estiver mais para cinquenta. Do jeito que elas falam sobre a Torre, essa história de estar inteira e pura, duvido que você vá ver mais que isso. Quero colocar você a uns dois ou três dias de distância, para que elas saibam que você está a caminho. Não tem por que assustá-las, elas poderiam pensar que é um ataque dos Mantos-brancos. Essas mulheres começaram uma rebelião contra Elaida e devem estar assustadas o bastante para que você não precise fazer muito mais do que chegar dizendo que Elayne precisa ser coroada em Caemlyn para elas permitirem que ela vá. Se você achar que são confiáveis, ofereça sua proteção a elas. E a minha. Já que supostamente estão do meu lado, pode ser que fiquem felizes até com a minha proteção. Aí você escolta Elayne e quantas das Aes Sedai quiserem ir junto. Vá direto por Altara e Murandy até chegar em Caemlyn. É só mostrar meus estandartes e anunciar o que está fazendo, duvido de que os altaranos e murandianos criem problemas, basta você se manter na estrada. Se encontrar algum Devoto do Dragão, pode levar junto. Acho que a maioria deles vai acabar virando bandido se eu não amarrar todos com uma corda logo, logo. E olha que já ouvi um ou dois boatos sobre isso. Bem, você vai atrair esse tipo se levantar meus estandartes. — Ele abriu um sorriso súbito e irritado, mas nada se comparava àqueles olhos em chamas. — Quantos coelhos com uma cajadada só, Mat? Você atravessa Altara e Murandy com seis mil homens, arrasta os Devotos do Dragão junto e ainda pode acabar me entregando esses dois países.

Tantos aspectos daquilo o deixavam irritado que Mat já não daria mais a mínima nem se Rand estivesse com dez dentes doendo e espinhos enfiados nas duas botas. Deixar as Aes Sedai achando que ele pretendia atacá-las? Não mesmo. E ainda teria que intimidar cinquenta delas? Não tinha medo de Aes Sedai, nem mesmo se fossem cinco ou seis juntas, mas cinquenta? Apalpou outra vez a cabeça de raposa através da camisa — talvez acabasse descobrindo até onde ia sua sorte, afinal. E já até podia ver o desastre que seria atravessar Altara e Murandy a cavalo: todos os nobres cujas terras cruzasse ficariam inflados feito galos pomposos e tentariam bicá-lo assim que ele virasse as costas. Se aquela loucura de ta’veren se manifestasse, era provável que trombasse com algum lorde ou lady reunindo um exército bem no seu caminho.

Mat tentou mais uma vez.

— Rand, não acha que isso pode atrair a atenção de Sammael para o norte? Você não quer que ele se concentre no leste? É para isso que estou aqui, lembra? Para fazer ele se voltar para cá.

Rand balançou a cabeça, enfático.

— Ele só vai ver uma guarda de honra escoltando a Rainha de Andor até Caemlyn, isso se descobrir antes de vocês chegarem no Trono do Leão. Quanto tempo para você se aprontar?

Mat abriu a boca para protestar, mas desistiu. Nada o faria mudar de ideia.

— Duas horas.

Precisava de menos tempo para o Bando estar arrumado e já nas selas, mas Mat não estava com pressa, e a última coisa que queria era que o Bando achasse que eles estavam se deslocando para um ataque.

— Ótimo. Também preciso de mais ou menos uma hora. — Para o quê, Rand não disse. — Fique junto de Elayne, Mat. Cuide bem dela, mantenha-a segura. Nada disso fará sentido se ela não chegar viva para a coroação.

Rand achava mesmo que ele não sabia que passara os dias se enroscando com a Filha-herdeira em cada canto da Pedra, na última vez em que estiveram juntos?