Depois de algum tempo, quando tinha certeza de que já estava em um ponto qualquer bem dentro do território de Altara, Egwene começou a permitir que Bela desse saltos menores, puxando as rédeas com mais frequência e até cavalgando normalmente durante alguns intervalos, sobretudo quando havia alguma aldeia por perto. Algumas estalagens cobertas pela escuridão da noite informavam o nome da aldeia em suas placas, como a Estalagem Marella ou a Estalagem Fonte Ionina, e o luar combinado com aquela iluminação inusitada particular de Tel’aran’rhiod facilitava muito a leitura. Pouco a pouco, Egwene foi tendo certeza de onde estava em relação a Salidar e passou a dar saltos ainda menores, até não saltar mais, apenas conduzir Bela em seu trote normal, avançando por florestas com árvores altas que tinham acabado com quase toda a vegetação rasteira e em que tudo o que sobrara fora levado pela seca.
Ainda assim, ela se surpreendeu quando uma aldeia de tamanho considerável apareceu de repente, silenciosa e escura sob o luar. Só podia ser o lugar certo.
Parando diante da linha de casas de pedra com telhados de palha, Egwene desmontou e descarregou seus pertences. Estava tarde, mas talvez ainda houvesse pessoas por ali, no mundo desperto. Não havia por que assustá-las aparecendo do nada. Se uma Aes Sedai a visse e confundisse sua identidade, ela poderia acabar sem a oportunidade de encarar o Salão.
— Você correu mesmo como o vento — murmurou, dando um último abraço em Bela. — Queria que você pudesse ir comigo.
Uma fantasia tola. O que acontecia em Tel’aran’rhiod só poderia existir lá. Aquela não era a Bela de verdade. Ainda assim, sentiu uma pontada de tristeza quando deu as costas para a égua a fim de tecer a cortina de Espírito bruxuleante — não pararia de imaginar Bela, permitiria que ela existisse ali enquanto possível. De cabeça erguida, atravessou a passagem. Estava com o coração Aiel pronto para encarar o que viesse.
Mal dera o primeiro passo quando parou de repente, arregalando os olhos.
— Ai!
Assim como Bela, as transformações que criara em Tel’aran’rhiod não perdurariam no mundo reaclass="underline" a ardência voltou com tudo, trazendo junto a voz de Sorilea ao pé do ouvido: Se você fizer parecer que a consequência de cumprir sua toh nunca aconteceu, como terá cumprido sua toh? Não vá se esquecer de que tem seu coração de Aiel, garota.
Sim. Não esqueceria. Estava ali para uma batalha, quer as Aes Sedai soubessem quer não. Estava pronta para lutar pelo direito de ser Aes Sedai, para encarar… Luz, o que estava acontecendo?
Tinha gente nas ruas, algumas poucas pessoas andando por entre as casas de janelas acesas. Mancando de leve, Egwene abordou uma mulher magricela de avental branco e rosto sofrido.
— Com licença, meu nome é Egwene al’Vere e sou uma Aceita — a mulher lançou um olhar cortante para seu vestido de cavalgada — e acabei de chegar. Poderia me levar a Sheriam Sedai? Preciso falar com ela. — Era muito provável que Sheriam já estivesse dormindo, mas, se fosse o caso, Egwene pretendia acordá-la. Tinham ordenado que ela fosse o mais rápido possível, então ia fazer tudo ao seu alcance para que Sheriam soubesse que chegara.
— Ah, todo mundo sempre vem atrás de mim — resmungou a mulher. — Será que ninguém sabe resolver nada sozinho? Não, querem sempre que Nildra resolva. Vocês, Aceitas, são as piores. Olha, não tenho a noite inteira. Se quer mesmo que eu a leve, então é melhor apertar o passo. Se não, acho que você consegue encontrar Sheriam por conta própria. — Nildra saiu andando sem nem olhar para trás.
Egwene seguiu em silêncio. Se abrisse a boca, temia que fosse dizer à mulher o que pensava, o que só serviria para começar a estadia em Salidar com o pé esquerdo — não importava quão curta fosse ser essa estadia. Egwene gostaria que seu coração Aiel e sua cabeça de Dois Rios pudessem se fundir.
Não era tão longe assim. Seguiram um trecho da rua de terra batida e viraram a esquina até uma outra ainda mais estreita. Ela ouviu risadas de algumas das casas. Nildra parou diante de uma construção silenciosa, embora a luz ainda brilhasse pelas janelas do aposento da frente.
A mulher parou apenas por tempo suficiente para bater à porta e entrou sem esperar resposta. Ao passar pela porta, fez uma mesura perfeitamente adequada, ainda que rápida, e falou em um tom um tanto mais respeitoso do que o que usara com Egwene:
— Aes Sedai, tem uma garota aqui dizendo que se chama Egwene e ela… — Não conseguiu falar mais.
Todas as sete Aes Sedai do Coração da Pedra estavam lá, e nenhuma parecia pronta para dormir, embora todas, exceto a jovem chamada Siuan, estivessem de robe. Estavam sentadas com as cadeiras muito próximas, e Egwene teve a impressão de que interrompera alguma conversa séria. Sheriam foi a primeira a se levantar, acenando para que Nildra saísse.
— Luz, criança! Já?
Ninguém deu a menor importância para a reverência de Nildra ou para sua fungada de desgosto por ser dispensada daquele jeito.
— Não estávamos esperando você — completou Anaiya, tomando Egwene pelos braços com um sorriso caloroso. — Não tão cedo. Seja bem-vinda, criança. Bem-vinda.
— Teve algum efeito colateral? — indagou Morvrin. Ela não se levantou, assim como Carlinya e a jovem Aes Sedai, mas se inclinou para a frente, ansiosa pela resposta. Todas usavam robes de seda de diversos tons, alguns bordados ou adornados, mas o dela era de lã marrom comum, embora parecesse macio e muito bem-feito. — Você está sentindo alguma mudança depois da experiência? Tínhamos pouquíssimo conhecimento para basear nosso palpite. Para ser sincera, estou surpresa por ter dado certo.
— Teremos que ver isso na prática para saber se funciona mesmo tão bem. — Beonin fez uma pausa para tomar um gole de chá, então depositou a xícara e o pires em uma mesinha lateral de pernas bambas. A xícara e o pires não combinavam, mas nenhuma mobília ali combinava, e a maior parte parecia tão bamba quanto a mesinha. — Se houver efeitos colaterais, ela pode ser Curada. Vai ficar tudo bem.
Egwene se afastou depressa de Anaiya e largou seus pertences junto à porta.
— Não, estou muito bem. Estou mesmo.
Poderia ter hesitado. Anaiya a teria Curado sem nem perguntar. Mas seria uma trapaça.
— Ela parece bastante bem — opinou Carlinya, tranquila. Estava mesmo de cabelo curto, os cachos escuros mal cobrindo as orelhas, não fora apenas em Tel’aran’rhiod. A mulher ainda usava branco, claro, até os bordados da roupa eram brancos. — Podemos pedir a uma das Amarelas que faça um exame mais minucioso mais tarde, só para garantir.
— Deixem a menina botar os pés no chão antes de começar a arrastá-la para lá e para cá — disse Myrelle, rindo. Flores frondosas amarelas e vermelhas cobriam seu robe, eram tantas que mal se via algum verde. — Ela acabou de percorrer mil léguas em uma noite. Em horas.
— Vocês não têm tempo para deixar a garota ficar de pé pra cima — ponderou a jovem Aes Sedai com firmeza. A mulher parecia mesmo um peixe fora d’água naquela reunião, com o seu vestido amarelo de saias listradas em azul e a gola redonda bem cavada com bordados azuis. Além da roupa, era a única de quem dava para deduzir a idade. — Pela manhã, o Salão vai fazer um enxame completo. Se ela não estiver preparada, Romanda vai estripá-la feito uma carpa gorda.