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Egwene ficou boquiaberta. Prestou mais atenção na voz do que nas palavras.

— Você é Siuan Sanche. Impossível!

— Ah, é possível, sim — retrucou Anaiya, seca, encarando a jovem Aes Sedai com um olhar resignado.

— Siuan voltou a ser Aes Sedai — explicou Myrelle, com um olhar mais exasperado do que resignado.

Só podia ser verdade — as Aes Sedai tinham dito que era —, mas Egwene não conseguia acreditar. Achou difícil acreditar mesmo com a explicação de Sheriam. Nynaeve tinha Curado um estancamento? Siuan não parecia nem um dia mais velha que Nynaeve porque tinha sido estancada? Siuan sempre fora uma comandante durona e muito séria, com um coração igualmente duro, não uma mulher bonita e de bochechas rosadas, dona de uma boca quase delicada.

Egwene não conseguiu tirar os olhos da antiga Amyrlin enquanto Sheriam falava. Aqueles olhos azuis ainda eram os mesmos. Como podia ter visto aquele olhar, forte o bastante para martelar pregos, e não ter se dado conta? Bem, aquele rosto já era um bom motivo. Mas Siuan também sempre fora muito forte com o Poder. Quando uma garota começava a canalizar, era preciso fazer testes para verificar quão forte ela seria, mas não depois que sua força já se assentara e estabelecera. Egwene já tinha conhecimento suficiente para avaliar outra mulher, pelo menos em determinados aspectos. Além da própria Egwene, Sheriam era a mais forte ali, seguida de Myrelle, embora fosse difícil saber com certeza. Todo o resto parecia semelhante, exceto Siuan — ela era a mais fraca, e por uma boa margem.

— Esta foi mesmo a descoberta mais notável de Nynaeve — afirmou Myrelle. — As Amarelas estão aprendendo com ela e fazendo suas próprias inovações, mas foi Nynaeve quem começou com tudo. Sente-se, criança. É uma história longa demais para ouvir de pé.

— Prefiro continuar de pé, obrigada. — Quando viu a cadeira de espaldar reto com assento de madeira que Myrelle indicou, Egwene mal conseguiu conter um calafrio. — E Elayne? Também está bem? Quero saber tudo sobre ela e Nynaeve.

A descoberta mais notável de Nynaeve? Aquilo implicava que havia mais de uma. Parecia que ficara para trás junto com as Sábias e teria que correr para alcançar as amigas. Ao menos achava que ainda teria permissão para estudar. Era difícil que aquelas mulheres a tivessem saudado com tanta animação se fossem expulsá-la. Egwene não fizera reverências ou chamara qualquer uma delas de Aes Sedai uma única vez, porém isso fora mais por falta de chance do que por qualquer motivo. Não era uma boa ideia enfrentar as Aes Sedai demonstrando rebeldia. Ainda assim, nenhuma delas a repreendera. Talvez não soubessem, afinal. Mas, então, por que a tinham convocado?

— Bem, tirando um probleminha com panelas que ela e Nynaeve estão enfrentando… — começou Sheriam, mas Siuan a interrompeu, meio irritada:

— Por que vocês ficam tagarelando feito garotas desmioladas? É tarde demais para ficar com medo de seguir em frente. Já começou, e vocês é que começaram. Ou acabam logo com isso, ou Romanda vai pendurar o couro de todas para secar ao sol ao lado desta garota. E Delana, Faiselle e todo o Salão estarão lá para ajudar a prendê-las na corda.

Sheriam e Myrelle se viraram para encará-la quase ao mesmo tempo. Todas as Aes Sedai se viraram, aliás, e Morvrin e Carlinya até giraram o corpo nas cadeiras. Rostos gélidos de Aes Sedai fitando com olhos gélidos de Aes Sedai.

Siuan primeiro respondeu àqueles olhares com uma encarada igualmente desafiadora, tão Aes Sedai quanto elas, ainda que parecesse muito mais jovem. Então sua cabeça fraquejou um pouco, e manchas vermelhas surgiram em suas bochechas. Ela se levantou da cadeira, mantendo os olhos baixos.

— Eu me precipitei — resmungou.

Mas seus olhos não mudaram. Talvez as Aes Sedai não tenham percebido, mas Egwene notou. Ainda assim, não era do feitio de Siuan.

Egwene também reparou que não fazia a menor ideia do que estava acontecendo. Não se tratava só de uma Siuan Sanche dócil feito uma gata de casa, ainda que obrigada a agir com docilidade. Isso era o menos significativo. O que aquelas mulheres tinham começado? Por que ela seria colocada ao sol para secar, caso decidissem parar?

As Aes Sedai se entreolharam da forma mais indecifrável que podiam. Morvrin foi a primeira a assentir.

— Você foi convocada por um motivo muito especial, Egwene — anunciou Sheriam, solene.

Egwene sentiu o coração bater mais rápido. Elas não sabiam de sua farsa. Não sabiam. Mas o que era, então?

Sheriam finalmente explicou:

— Você será o próximo Trono de Amyrlin.

CAPÍTULO 35

No Salão das Votantes

Egwene encarou Sheriam, imaginando se deveria rir. Podia ser que, no tempo que passara com os Aiel, ela tivesse se esquecido do que era considerado engraçado entre as Aes Sedai. Sheriam a encarou de volta com aquele rosto sem idade definida, imperturbável, e os olhos verdes amendoados pareciam nem piscar. Egwene olhou para as demais. Sete rostos sem expressão, apenas um ar de expectativa. Siuan talvez até estivesse sorrindo de modo discreto, mas esse suposto sorriso poderia muito bem ser a curva natural dos seus lábios. A luz oscilante das lamparinas tornou suas feições repentinamente estranhas e inumanas.

Egwene se sentia tonta, os joelhos bambos. Sem pensar, ela se deixou desabar na cadeira de encosto reto. Também se levantou de um pulo. Aquilo, com certeza, a ajudou a clarear a mente. Um pouco, pelo menos.

— Nem Aes Sedai eu sou — afirmou, sem fôlego. A declaração parecia suficientemente evasiva. Tinha que ser algum tipo de brincadeira ou… ou… ou alguma coisa.

— Podemos dar um jeito nisso — respondeu Sheriam com firmeza, apertando ainda mais o laço da sua faixa azul-clara para enfatizar o que tinha dito.

As tranças cor de mel de Beonin balançavam enquanto ela assentia com a cabeça.

— Ela é Aes Sedai, o Trono de Amyrlin. A lei é bem clara. Em vários pontos se menciona “o Trono de Amyrlin como Aes Sedai”, mas não consta em lugar nenhum que é necessário ser Aes Sedai para se tornar Amyrlin. — Qualquer Aes Sedai estaria familiarizada com as leis da Torre, mas, como mediadoras, as Cinzas tinham que conhecer as leis de todas as terras, e Beonin assumiu um tom professoral, como se explicasse algo que ninguém conhecesse tão bem quanto ela. — A lei que estabelece como a Amyrlin deve ser escolhida faz referência apenas à “mulher que é convocada” ou “àquela que se apresenta diante do Salão” ou algo assim. Do começo ao fim elas não são mencionadas uma única vez, as palavras “Aes Sedai”. Nunca. Alguns diriam que era essa a intenção das legisladoras, e ela deve ser considerada, mas está claro, seja qual for a intenção das mulheres que escreveram a lei, que… — Beonin franziu a testa quando Carlinya a interrompeu.

— Sem dúvida, elas acharam tão óbvio que não havia a necessidade de deixar explícito. Por outro lado, é lógico que uma lei significa o que nela está escrito, a despeito da interpretação das legisladoras.

— As leis raramente dizem respeito à lógica — afirmou Beonin, ácida. — Neste caso, no entanto — admitiu ela após alguns instantes —, você tem toda a razão. — Ela se virou para Egwene e prosseguiu: — E ele também enxerga assim, o Salão.

Todas estavam sérias, inclusive Anaiya, quando disse:

— Você vai se tornar Aes Sedai, criança, assim que for elevada ao Trono de Amyrlin. De maneira bem geral, é isso.

Até Siuan parecia estar falando sério, apesar daquele sorriso minúsculo. Era um sorriso.

— Você vai poder fazer os Três Juramentos logo que voltarmos para a Torre — avisou Sheriam. — Chegamos a considerar que você os pronunciasse de qualquer forma, mas, sem o Bastão dos Juramentos, pode ser visto como uma farsa. Melhor esperar.