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Na extremidade oposta do aposento havia outra cadeira sobre uma pequena plataforma mais parecida com uma caixa achatada. Alta e pesada, os pés e o encosto com espirais entalhados, a cadeira fora pintada de amarelo e azul, verde e branco, cinza, marrom e vermelho. Uma estola jazia perpassada sobre os braços, listrada em sete cores. Parecia que milhas separavam o ponto em que Egwene estava e a estola.

— Quem se apresenta perante o Salão da Torre? — indagou Romanda com uma voz alta e clara. Estava sentada bem abaixo da cadeira colorida, em frente às três irmãs Azuis. Sheriam deu um passo suave para o lado e revelou Egwene.

— Alguém que vem com obediência, pela Luz — respondeu Egwene. Sua voz deveria estar trêmula. Claro que elas não iriam mesmo seguir adiante com aquilo.

— Quem se põe perante o Salão da Torre? — Romanda tornou a perguntar.

— Alguém que vem com humildade, pela Luz. — Em algum momento, aquela farsa se transformaria no julgamento dela por fingir ser Aes Sedai. Não, isso não. Se esse fosse o caso, elas teriam simplesmente feito uma blindagem e a deixado trancada até que chegasse a hora. Mas com certeza…

— Quem se apresenta perante o Salão da Torre?

— Alguém que vem sob a convocação do Salão, obediente e humilde pela Luz, pedindo apenas para aceitar a vontade do Salão.

Entre as Cinzas abaixo de Romanda, levantou-se uma mulher esbelta de pele escura. Por ser a Votante mais jovem, Kwamesa ficou responsável por proferir a indagação ritual que datava da Ruptura do Mundo:

— Há alguém presente que não seja mulher?

Romanda jogou o xale para trás deliberadamente e, ao se levantar, deixou-o sobre o encosto da cadeira. Como a mais velha, seria a primeira a responder. Também de maneira deliberada, desamarrou o vestido e o baixou até a cintura, descendo a anágua junto.

— Eu sou mulher — pronunciou.

Com cuidado, Kwamesa repousou seu xale sobre a sua própria cadeira e se desnudou até a cintura.

— Eu sou mulher — disse.

As outras então se levantaram e começaram a se despir, cada qual enunciando as mesmas palavras tão logo provava que também era mulher. Egwene sentiu um pouco de dificuldade com o corpete apertado do vestido de Aceita que lhe fora encontrado e precisou da ajuda de Myrelle com os botões, mas, bem depressa, todas as quatro estavam tão nuas quanto qualquer uma das demais.

— Eu sou mulher — falou Egwene junto com as outras.

Kwamesa andou devagar pelo aposento, fazendo uma pausa diante de cada mulher para uma encarada quase insultuosa, e então parou de novo à frente da própria cadeira para anunciar que não havia ninguém presente que não fosse mulher. As Aes Sedai se sentaram e a maior parte delas começou a vestir os corpetes de volta. Não exatamente com pressa, mas também foram poucas as que se demoraram. Egwene quase balançou a cabeça. Não podia se cobrir até um momento posterior da cerimônia. Muito tempo atrás, a pergunta de Kwamesa teria demandado mais provas. Naqueles dias, as cerimônias formais eram realizadas “sob a vestimenta da Luz”, o que significava dizer que não se usava nada além da própria pele. O que aquelas mulheres achariam de uma tenda de vapor Aiel ou de um banho shienarano?

Não havia tempo para imaginar isso.

— Quem representa esta mulher — indagou Romanda —, e se compromete por ela, coração por coração, alma por alma, vida por vida? — A mulher se sentava ereta com toda a dignidade, seu busto redondo ainda desnudo.

— Eu me comprometo — afirmou Sheriam com firmeza, seguida um instante depois pelas vozes fortes de Morvrin e Myrelle, uma de cada vez.

— Aproxime-se, Egwene al’Vere — ordenou Romanda com rispidez. Egwene deu três passos e se ajoelhou. Sentia-se entorpecida. — Por que você está aqui, Egwene al’Vere?

Ela estava, de fato, entorpecida. Não era capaz de sentir nada. Também não conseguia se lembrar das suas respostas, mas, de alguma forma, elas lhe saíram rolando pela língua.

— Fui convocada pelo Salão da Torre.

— O que deseja, Egwene al’Vere?

— Servir à Torre Branca, nada mais e nada menos. — Luz, elas iam mesmo seguir adiante com aquilo!

— E como pretende servir, Egwene al’Vere?

— Com meu coração, minha alma e minha vida, pela Luz. Sem medo ou favoritismo, pela Luz.

— Onde pretende servir, Egwene al’Vere?

Egwene respirou fundo. Ainda podia parar com aquela idiotice. Não era possível que estivesse mesmo prestes a…

— No Trono de Amyrlin, se for da vontade do Salão da Torre. — Sua respiração paralisou. Já era tarde demais para voltar atrás. Desde o Coração da Pedra talvez já fosse tarde demais.

Delana foi a primeira a se levantar, depois Kwamesa e Janya, e então outras, até nove Votantes estarem de pé à frente das suas cadeiras, o que significava aceitação. Romanda ainda estava firme em seu assento. Nove de dezoito. A aceitação precisava ser unânime, já que o Salão sempre buscava o consenso. Ao final, todas as votações eram unânimes, embora muita conversa fosse necessária para se chegar lá, mas, naquela noite, não haveria conversas além das frases cerimoniais, e aquilo significava quase a rejeição absoluta. Sheriam e as outras haviam feito pouco caso da sugestão de Egwene de que aquilo talvez acontecesse, desprezando a ideia com tanta rapidez que ela poderia ter ficado preocupada se a coisa toda não fosse tão ridícula, mas, quase por alto, tinham avisado que sim, isso poderia ocorrer. Não uma rejeição, mas uma manifestação de que as Votantes que permaneceram em seus assentos não pretendiam servir de capacho. Só um gesto simbólico, segundo Sheriam, mas, com base na expressão severa de Romanda, bem como na de Lelaine, só um pouco menos severa acima do peito nu, Egwene não tinha nenhuma certeza daquilo. Elas também haviam dito que talvez fossem três ou quatro mulheres.

Sem dar um pio, as mulheres de pé retomaram seus lugares. Nenhuma delas falou, mas Egwene sabia o que fazer. Seu entorpecimento desaparecera.

Ela se levantou e se moveu na direção da Votante mais próxima, uma Verde de rosto penetrante chamada Samalin, que permanecera sentada. Quando Egwene tornou a se ajoelhar à frente de Samalin, Sheriam ficou de joelhos ao lado dela, segurando uma bacia larga com água. Ondulações dançavam na superfície do líquido. Sheriam parecia tranquila e seca, enquanto Egwene começava a reluzir de suor, mas as mãos de Sheriam tremiam. Morvrin se ajoelhou e entregou um pano para Egwene, enquanto Myrelle ficou aguardando ao lado com pedaços de um tecido atoalhado sobre o braço. Por algum motivo, Myrelle aparentava estar zangada.

— Por favor, me permita servir — disse Egwene. Com o olhar fixo à frente, Samalin suspendeu as saias até a altura do joelho. Seus pés estavam descalços. Egwene lavou cada pé e os secou, e então foi até a Verde seguinte, uma mulher levemente rechonchuda chamada Malind. Sheriam e as demais lhe haviam dito os nomes de todas as Votantes. — Por favor, me permita servir. — Malind tinha um rosto bonito, com lábios carnudos e olhos escuros que davam a impressão de que gostavam de sorrir, mas, naquele momento, não havia sorriso. Era uma das que haviam se levantado, mas seus pés também estavam descalços.

Os pés de todas as Votantes estavam descalços. Enquanto lavava todos aqueles pés, Egwene se perguntou se as Votantes já sabiam quantas permaneceriam sentadas. Estava tão óbvio que elas já sabiam que algumas ficariam, que aquele serviço seria exigido. Quase tudo o que Egwene sabia a respeito de como funcionava o Salão da Torre fora do que ouvira naquela aula enquanto noviça: para todos os fins práticos, não sabia nada. Sua única opção era continuar.

Ela lavou e secou o último pé — pertencia a Janya, que tinha o cenho franzido como se tivesse outros assuntos em mente. Pelo menos fora uma das que se levantaram. Largando o pano na bacia, voltou para o seu lugar ao pé das fileiras e se ajoelhou.