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— Por favor, me permitam servir. — Mais uma chance.

Novamente, Delana foi a primeira a se levantar, mas Samalin desta vez fez o mesmo logo depois. Ninguém se pôs de pé de um salto, mas, uma a uma, todas foram se levantando, até que apenas Lelaine e Romanda continuavam sentadas olhando uma para a outra, e não para Egwene. Por fim, Lelaine deu de ombros sutilmente, puxou o corpete sem a menor pressa e se levantou. Romanda virou a cabeça e olhou para Egwene. Encarou-a por tanto tempo que Egwene tomou consciência do suor que lhe escorria por entre os seios e pelas costelas. Enfim, com uma vagarosidade imponente, Romanda se vestiu e se juntou às demais. Egwene escutou um arquejo de alívio vindo de trás dela, onde Sheriam e as outras estavam aguardando.

Ainda não havia acabado, claro. Romanda e Lelaine se aproximaram ao mesmo tempo para conduzi-la até a cadeira colorida. Egwene ficou de pé diante dela enquanto as duas lhe puxaram o corpete e puseram a estola do Trono de Amyrlin sobre seus ombros. Em uníssono, todas as Votantes disseram:

— Você está elevada ao Trono de Amyrlin, pela glória da Luz, que a Torre Branca possa perdurar para sempre. Egwene al’Vere, a Vigia dos Selos, a Chama de Tar Valon, o Trono de Amyrlin. — Lelaine removeu o anel da Grande Serpente da mão esquerda de Egwene e entregou-o a Romanda, que o passou para a mão direita. — Que a Luz ilumine o Trono de Amyrlin e a Torre Branca.

Egwene riu. Romanda apenas piscou, chocada, enquanto Lelaine se sobressaltou — e elas não foram as únicas.

— Acabei de me lembrar de uma coisa — disse ela, acrescentando: —, filhas. — Era como a Amyrlin chamava as Aes Sedai. Do que ela se lembrara foi o que veio em seguida. Egwene não pôde deixar de pensar que se tratava de uma compensação pelo alívio que tivera em sua viagem por Tel’aran’rhiod. Egwene al’Vere, a Vigia dos Selos, a Chama de Tar Valon, o Trono de Amyrlin, foi capaz de se sentar naquela cadeira de madeira dura sem aparentar muito cuidado e sem se retrair de dor. Considerou as duas coisas triunfos da sua força de vontade.

Sheriam, Myrelle e Morvrin deram um passo à frente — olhando os rostos igualmente serenos, não era possível saber qual delas tinha soltado uma exclamação surpresa — e as Votantes formaram uma fila logo atrás delas que se estendia até a porta. Foi organizada por ordem de idade, com Romanda na última posição.

Numa mesura profunda, Sheriam abriu as saias.

— Por favor, me permita servir, Mãe.

— Você pode servir à Torre, filha — respondeu Egwene no tom mais sério que pôde. Sheriam beijou seu anel e se afastou, enquanto Myrelle fez sua mesura.

Foi assim ao longo da fila inteira. Aquele arranjo proporcionou algumas surpresas. Nenhuma das Votantes era jovem de fato, apesar dos seus rostos de Aes Sedai, mas Delana, com seus cabelos claros, que Egwene pensara ser tão velha quanto Romanda, estava mais ou menos pelo meio da fila. Lelaine e Janya, duas mulheres bem bonitas sem um único fio grisalho em seus cabelos escuros, ficaram à frente apenas da Amarela de cabelo louro. Cada qual fez sua reverência e beijou o anel de Egwene com o rosto impassível — embora algumas tenham olhado de relance para as faixas da bainha de Egwene — e deixaram o aposento por uma porta nos fundos sem dar mais nenhum pio. O normal era que tivesse havido mais rituais, mas o restante da cerimônia deveria esperar até de manhã.

Enfim, Egwene se viu sozinha com as três mulheres que haviam se comprometido por ela. Ainda não tinha certeza do que aquilo significava. Assim que ela se levantou, Myrelle saiu para deixar entrar as três que haviam ficado do lado de fora.

— O que teria acontecido se Romanda não tivesse se levantado? — Em tese, teria havido mais uma chance, mais uma rodada de lavagem de pés e pedidos de permissão para servir, mas Egwene tinha certeza de que, se Romanda tivesse votado não na segunda vez, também teria votado na terceira.

— Então é bem provável que ela própria fosse se elevar a Amyrlin daqui a alguns dias — opinou Sheriam. — Ela ou Lelaine.

— Não foi isso que eu quis dizer — rebateu Egwene. — O que teria acontecido comigo? Teria simplesmente voltado a ser uma Aceita? — Anaiya e as outras apareceram apressadas, sorrindo, e Myrelle começou a ajudar Egwene a trocar o vestido branco com faixas por um de seda verde-clara que ela só iria usar pelo tempo que levasse para chegar até sua cama. Era tarde, mas a Amyrlin não podia andar por aí com um vestido de Aceita.

— Muito provavelmente — disse Morvrin após alguns instantes. — Não posso dizer se isso seria sorte ou não, ser uma Aceita que todas as Votantes sabiam que quase havia ocupado o Trono de Amyrlin.

— Aconteceu pouquíssimas vezes — explicou Beonin —, mas uma mulher que é recusada após se apresentar para ser elevada ao Trono de Amyrlin costuma ser exilada. O Salão busca sempre a harmonia, e, querendo ou não, ela sempre acabaria causando desarmonia.

Sheriam encarou os olhos de Egwene, como que para reforçar suas palavras.

— Nós teríamos sido exiladas. Myrelle, Morvrin e eu, com certeza, já que nos comprometemos por você, e é provável que Carlinya, Beonin e Anaiya também. — Seu sorriso foi abrupto. — Mas não foi isso que aconteceu. A nova Amyrlin deveria passar a primeira noite em contemplação e oração, mas, assim que Myrelle terminar com esses botões, talvez seja melhor lhe darmos ao menos uma palavrinha sobre como estão as coisas em Salidar.

Todas observavam Egwene. Myrelle estava atrás dela, cuidando do último botão, mas ela conseguia sentir os olhos da mulher em sua nuca.

— É, eu acho que é melhor, sim.

CAPÍTULO 36

A Amyrlin é elevada

Egwene levantou a cabeça do travesseiro, olhou em volta e por um momento ficou surpresa ao se ver em uma cama com dossel em um grande quarto. A primeira luz da manhã entrava pelas janelas, e uma mulher bonita e rechonchuda trajando um vestido simples de lã cinza estava colocando um grande jarro branco de água quente no lavatório. Chesa lhe fora apresentada na véspera como sua criada. A criada da Amyrlin. Uma bandeja tampada já estava ao lado do seu pente e da sua escova em uma mesinha estreita diante de um espelho com moldura trabalhada em prata. O quarto cheirava a pão quente e peras cozidas.

Anaiya havia preparado o quarto para a chegada de Egwene. Os móveis ali também não combinavam, mas eram os melhores de Salidar, da poltrona acolchoada estofada com seda verde ao espelho de chão no canto, com todas as suas douraduras intactas, e ao armário com entalhes decorativos que agora guardava seus pertences. Infelizmente, parecia que o gosto de Anaiya pendia fortemente para babados e rendas espalhafatosas. Ambos bordejavam o dossel e as cortinas da cama, que estavam abertas, e um ou outro adornavam a mesa e seu banquinho, os braços e os pés da poltrona acolchoada, a manta que Egwene jogara no chão e até mesmo o lençol fino de seda que ela deixara cair logo em seguida. As cortinas das janelas também eram rendadas. Egwene deitou a cabeça. Havia rendas nas extremidades dos travesseiros também. Corria um sério risco de morrer sufocada pelos babados e rendas daquele quarto.

Tinham conversado muito depois que Sheriam e as outras a levaram para aquele lugar, ao qual se referiam como a Pequena Torre, mas Egwene quase não abrira a boca. As mulheres não estavam muito interessadas no que ela achava que Rand estaria tramando, ou no que Coiren e as demais poderiam querer. Havia uma missão diplomática a caminho de Caemlyn a cargo de Merana, que sabia o que fazer, embora elas tivessem sido bem vagas quanto a qual seria, exatamente, a missão. Na maior parte do tempo, elas falaram e Egwene escutou, e suas perguntas foram deixadas de lado. As respostas a algumas delas não tinham importância, disseram-lhe, ao menos por enquanto. As que foram respondidas tiveram apenas uma explicação rápida antes que as mulheres voltassem ao que era mais importante. Missões diplomáticas haviam sido despachadas para cada governante, e o nome de cada um deles foi revelado a Egwene, com uma explicação sobre o porquê de ele ou ela ser absolutamente vital para a causa de Salidar — ao que parecia, todos eram. Elas não chegaram a dizer com todas as letras que tudo estaria perdido se ao menos um dos governantes se posicionasse contra, mas a ênfase dada a cada um já deixava isso claro. Gareth Bryne estava montando um exército que acabaria se mostrando forte o bastante para defender seus direitos — ou os de Egwene — diante de Elaida, se fosse preciso. As Aes Sedai não pareciam achar que seria o caso, apesar da exigência de Elaida para que voltassem à Torre. Elas pareciam acreditar que, assim que a notícia sobre a elevação de Egwene al’Vere ao Trono de Amyrlin se espalhasse, as Aes Sedai viriam até ela, inclusive algumas das que estavam na Torre naquele momento, o suficiente para que Elaida não tivesse outra opção a não ser aceitar a exigência de renunciar. Por algum motivo, os Mantos-brancos andavam quietos, de forma que Salidar estava tão segura quanto qualquer outro local, até onde sabiam. O fato de Logain ter sido Curado, assim como Siuan — e também Leane, naturalmente, já que estava em Salidar —, surgiu na conversa quase por acaso.