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— Não precisa se preocupar com isso — disse Sheriam de modo tranquilizador. Estava de pé junto a Egwene, que se encontrava sentada na poltrona acolchoada, com as demais formando um arco ao seu redor. — O Salão vai ficar discutindo se deve ou não amansar Logain de novo até ele morrer de velhice e a questão se resolver sozinha.

Egwene tentou conter outro bocejo — estava ficando tarde — e Anaiya disse:

— Temos que deixá-la dormir. Amanhã vai ser quase tão importante quanto hoje, criança. — De repente ela fez uma pausa e riu. — Mãe. Amanhã também é importante, Mãe. Vamos mandar Chesa vir ajudá-la a se preparar para dormir.

Mesmo após elas terem saído, ir para a cama não foi fácil. Enquanto Chesa ainda desabotoava o vestido de Egwene, Romanda apareceu com várias sugestões para a Amyrlin, oferecendo-as com uma voz firme e equilibrada, e, tão logo ela saiu, Lelaine entrou, como se só estivesse esperando a saída da Amarela. A Azul tinha seus próprios conselhos, dados com Egwene já sentada na cama após Chesa ter sido expulsa do quarto com palavras gentis, mas firmes. Suas recomendações eram completamente diferentes das de Romanda — que por sua vez também se contrapunham às de Sheriam — e vieram acompanhadas de um sorriso caloroso e até afetuoso, mas seu tom, como o das outras duas, traía a certeza de que Egwene precisaria ser guiada durante os seus primeiros meses. Nenhuma mulher disse exatamente que teria mais preparo do que Sheriam para orientar Egwene e garantir que ela tomasse as melhores decisões para a Torre, ou que Sheriam e seu pequeno círculo talvez acabassem brigando entre si, ou que elas pudessem dar conselhos ruins, mas tudo isso ficou subentendido. Romanda e Lelaine também insinuaram que a outra poderia ter suas próprias intenções ocultas, que, sem a menor dúvida, causariam sofrimentos incalculáveis.

Quando canalizou para apagar a última lamparina, Egwene esperava um sono repleto de pesadelos. Na verdade, na manhã seguinte só se lembrou de dois. No primeiro, ela era Amyrlin — uma Aes Sedai, mas sem prestar os juramentos — e tudo o que fazia resultava em desastres. Ela despertou só para poder escapar, mas teve certeza de que não se tratava de nada com algum significado oculto. Foi uma experiência muito parecida com aquela pela qual passou dentro do ter’angreal em que fizera o teste para se tornar uma Aceita. Até onde se sabia, elas não tinham nenhuma relação com a realidade. Não com aquela realidade. O outro foi o tipo de bobagem que Egwene esperava. Ela já conhecia os próprios sonhos o suficiente para saber disso, ainda que tenha precisado acordar para finalmente escapar também daquele segundo. Sheriam tinha tirado a estola dos ombros dela e todas as pessoas ao redor começaram a gargalhar e apontar para Egwene, uma bobalhona que acreditou mesmo que uma garota que mal tinha dezoito anos poderia ser Amyrlin. Não estavam só as Aes Sedai, mas todas as Sábias, além de Rand, Perrin e Mat, Nynaeve e Elayne, e quase todo mundo que ela conhecera algum dia, enquanto ela ficava lá nua, tentando desesperadamente colocar um vestido de Aceita que talvez coubesse em uma garotinha de dez anos.

— Você já não pode passar o dia todo deitada na cama, Mãe.

Egwene abriu os olhos.

A expressão no rosto de Chesa era de uma falsa severidade, e ela sorria com os olhos. Com pelo menos o dobro da idade de Egwene, a mulher, desde o momento em que foram apresentadas, assumira logo de cara a mistura de respeito e familiaridade que se poderia esperar de uma criada experiente.

— O Trono de Amyrlin não pode dormir até tarde, ainda mais num dia como hoje.

— Isso nem passou pela minha cabeça. — Egwene se levantou da cama com dificuldade e se espreguiçou antes de tirar a camisola suada. Mal podia esperar pelo dia em que sua experiência com o Poder a faria parar de suar. — Vou usar o de seda azul com as estrelas d’alva brancas na gola. — Egwene notou que Chesa fez questão de desviar o olhar das pernas de Egwene ao lhe entregar uma anágua limpa. Os efeitos de ter cumprido sua toh haviam diminuído um pouco, mas sua pele continuava visivelmente marcada. — Sofri um acidente na vinda para cá — disse, enfiando a cabeça com pressa na anágua nova.

Chesa assentiu com a cabeça, entendendo na mesma hora.

— Cavalos são criaturas terríveis e pouco confiáveis. Você nunca vai me ver em cima de um, Mãe. Uma carroça boa e robusta é sempre muito mais segura. Se eu caísse assim de um cavalo, também não contaria para ninguém. Nildra não falaria noutra coisa, e Kaylin… Ah, você não iria acreditar nas coisas que algumas mulheres são capazes de dizer assim que você vira as costas. Claro que com o Trono de Amyrlin é diferente, mas é o que eu faria. — Segurando a porta do armário aberta, a criada olhou de soslaio para ver se Egwene havia entendido.

Egwene sorriu para ela.

— Gente é gente, independente da posição — afirmou com sinceridade.

Chesa abriu um largo sorriso e foi buscar o vestido azul. Anaiya podia até tê-la escolhido, mas ela era criada do Trono de Amyrlin, e era leal ao Trono de Amyrlin. E ela também tinha razão quanto à importância daquele dia.

Comendo rápido — apesar de Chesa resmungar baixinho que engolir a comida fazia mal ao estômago e que leite morno com mel e especiarias era imbatível para acalmar uma barriga nervosa —, Egwene esfregou os dentes e se lavou às pressas, deixou Chesa dar uma escovada de leve em seu cabelo e se vestiu o mais depressa que a criada permitiu, ajudando-a a passar o vestido de seda azul pela cabeça. Ajustou a estola de sete listras nos ombros e parou para se olhar no espelho. Com ou sem estola, não se parecia muito com o Trono de Amyrlin. Mas eu sou. Isso não é um sonho.

No amplo aposento do andar de baixo, as mesas continuavam tão vazias quanto na véspera. Apenas as Votantes estavam presentes, usando seus xales e divididas de acordo com as Ajahs. Sheriam estava sozinha. Todas ficaram quietas enquanto Egwene descia a escada e fizeram mesuras quando ela chegou lá embaixo. Romanda e Lelaine lhe lançaram olhares penetrantes e então se viraram, claramente evitando olhar para Sheriam, e retomaram suas conversas. Quando Egwene permanecia calada, as outras faziam o mesmo. Vez ou outra, uma delas lhe dava uma olhadinha. Mesmo cochichando, suas vozes pareciam altas demais. Fazia silêncio lá fora, uma quietude absoluta. Egwene puxou o lenço da manga e secou o rosto com delicadeza. Nenhuma delas suava uma gota sequer.

Sheriam se aproximou e ficou ao lado dela.

— Vai dar tudo certo — disse em voz baixa. — Basta você se lembrar do que deve dizer. — Aquele foi outro ponto que elas haviam repassado com riqueza de detalhes na noite anterior. Egwene tinha um discurso para fazer naquela manhã.