Выбрать главу

Qualquer pessoa que não fosse Aes Sedai teria ficado boquiaberta. Romanda, por sua vez, quase gaguejou.

— Pode até ser verdade — começou a dizer Lelaine, em tom irritado, dando um puxão em seu xale de bordas azuis, e então parou. Era verdade. Mais que isso, o Trono de Amyrlin decretara publicamente que aquelas mulheres eram Aes Sedai. O Salão talvez conseguisse mantê-las como Aceitas, ou o que quer que Theodrin e Faolain fossem, mas não podia apagar memórias e não evitaria que todos soubessem que elas haviam se mostrado contrárias à Amyrlin em seu primeiro dia. Seria uma maneira de garantir que as pessoas jamais confiassem em Egwene.

— Eu espero, Mãe — ponderou Romanda com a voz firme —, que, na próxima vez, você primeiro consulte o Salão. Ir contra os costumes pode ter consequências inesperadas.

— Ir contra a lei pode ter consequências infelizes — afirmou Lelaine sem rodeios, acrescentando, atrasada: — Mãe. — Aquilo era um absurdo, ou perto disso. As condições para alguém ser elevada a Aes Sedai estavam definidas pela lei, era um fato, mas a Amyrlin podia decretar quase tudo o que quisesse. Ainda assim, uma Amyrlin sábia não compraria brigas com o Salão, a menos que fosse inevitável.

— Ah, no futuro eu vou consultar, sim — respondeu Egwene, séria. — Mas me pareceu a forma correta de agir. Agora vocês me dão licença, por favor? Eu realmente preciso conversar com a Curadora.

As mulheres quase estremeceram. As mesuras foram discretas, as palavras de despedida perfeitamente corretas no que dizia respeito a palavras, mas resmungadas, no caso de Romanda, e, no de Lelaine, pronunciadas em tom cortante.

— Você se saiu muito bem — disse Sheriam depois que as mulheres se retiraram. Parecia surpresa. — Mas é preciso ter em mente que o Salão pode criar problemas para qualquer Amyrlin. Um dos motivos para eu ser a sua Curadora é poder aconselhá-la e mantê-la bem longe desse tipo de problema. É melhor você me perguntar antes de decretar as coisas. E, caso eu não esteja por perto, pergunte para Myrelle, Morvrin e as outras. Estamos aqui para ajudá-la, Mãe.

— Eu compreendo, Sheriam. Prometo escutar com atenção qualquer coisa que vocês disserem. Eu gostaria de falar com Nynaeve e Elayne, se for possível.

— Deve ser — disse Sheriam, sorrindo —, embora eu talvez tenha que arrancar Nynaeve de alguma Amarela. Siuan está vindo ensinar você a etiqueta da função de Amyrlin, e há muito o que aprender sobre esse assunto, mas vou dizer para ela vir um pouco mais tarde.

Depois que Sheriam saiu, Egwene ficou olhando para a porta. Em seguida, virou-se e ficou encarando a mesa. Absolutamente vazia. Nenhum relatório para ser lido, nenhum registro a estudar. Nem mesmo caneta e tinta para escrever um bilhete, muito menos um decreto. E Siuan vindo dar aulas sobre etiqueta.

Quando ouviu uma tímida batidinha na porta, ela ainda estava ali de pé.

— Entre — respondeu, imaginando se seria Siuan ou, quem sabe, uma serviçal trazendo bolo de mel já devidamente cortado em pedacinhos para o lanche.

Hesitante, Nynaeve pôs a cabeça para dentro, e então Elayne empurrou-a gabinete adentro. Lado a lado, ambas executaram mesuras perfeitas, profundas, abrindo as saias brancas de barras listradas e murmurando:

— Mãe.

— Não façam isso, por favor — reprovou Egwene. Na verdade, saiu mais como uma lamentação. — Vocês são as duas únicas amigas que eu tenho, e se começarem… — Luz, Egwene estava quase a ponto de chorar!

Elayne antecipou-se ao choro por muito pouco e abraçou Egwene. Nynaeve ficou calada e, nervosa, mexia e remexia um bracelete fino de prata.

— Ainda somos suas amigas, Egwene, mas você é o Trono de Amyrlin. Luz, eu lembro que um dia falei que você seria a Amyrlin, quando eu fosse… — Elayne não terminou a frase, fazendo uma leve careta. — Bem, em todo caso, você é. Não podemos simplesmente chegar para a Amyrlin e dizer “Egwene, esse vestido me deixa gorda?”. Não seria adequado.

— Seria, sim — retrucou Egwene, resoluta. — Pelo menos quando estivermos a sós — acrescentou após um instante. — Quando estivermos só nós três, eu quero que vocês me digam se um vestido me deixa gorda ou se… ou o que vocês quiserem. — Sorrindo para Nynaeve, ela deu um puxão bem delicado na trança da mulher. Nynaeve tomou um susto. — E quero que você dê puxões na sua trança perto de mim, se sentir vontade. Preciso de amigas, de alguém que não veja apenas essa… essa maldita estola o tempo todo, ou eu vou acabar ficando louca. Falando em vestidos, por que vocês ainda estão com esses? Eu tinha certeza de que, a esta altura, vocês já poderiam ter se trocado.

Nynaeve realmente deu um puxão na trança ao ouvir isso.

— Aquela Nisao me falou que devia ter sido um erro qualquer e me arrastou com ela, dizendo que não iria desperdiçar a sua vez só por causa de uma celebração. — Do lado de fora, os sons dos festejos começavam a aumentar, um burburinho indistinto, alto o bastante para penetrar as paredes de pedra, além de uma música ecoando ao longe.

— Não houve erro nenhum, ora — contestou Egwene. Era a vez de Nisao? Bem, não era o melhor momento para pedir explicações. Nynaeve não parecia nada feliz, e Egwene queria que a ocasião fosse o mais alegre possível. Puxando a cadeira de trás da mesa, viu duas almofadas gorduchas de retalhos no assento e sorriu. Chesa. — Nós vamos nos sentar aqui e conversar, e depois eu vou ajudar vocês a encontrar os dois melhores vestidos de Salidar. Me falem sobre essas descobertas de vocês. Anaiya tocou no assunto e Sheriam também, mas não consegui fazer as duas sossegarem por tempo suficiente para me contar os detalhes.

Ao mesmo tempo, as duas fizeram uma pausa antes de se sentar e se entreolharam. Por algum motivo, pareciam relutantes em falar sobre qualquer coisa que não fosse Nynaeve ter Curado Siuan e Leane — Nynaeve repetiu três vezes, e com bastante nervosismo, que Curar Logain havia sido um acidente — e sobre Elayne ter aprendido a fazer ter’angreal. Eram feitos notáveis, em especial o de Nynaeve, mas não havia muito o que elas pudessem contar, e Egwene não podia apenas continuar repetindo que elas haviam feito coisas maravilhosas e ela estava com inveja. A demonstração de Nynaeve não durou muito. Egwene não tinha a menor aptidão para Cura, e menos ainda, em particular, para aquela complicada tapeçaria que Nynaeve tecia sem nem pensar. Embora tivesse certa afinidade com metais e fosse bastante forte tanto com o Fogo quanto com a Terra, Elayne perdeu a atenção dela quase de imediato. Claro que elas queriam saber como era a vida entre os Aiel. Pelas expressões surpresas e risadas chocadas, interrompidas de forma abrupta, Egwene não sabia se as amigas acreditaram em tudo o que contou, e ela com certeza deixou muito de fora. Falar nos Aiel as fez falar em Rand, naturalmente. As duas prestaram atenção durante toda a narrativa de Egwene sobre o encontro dele com as Aes Sedai. Concordaram que ele não sabia onde estava se metendo e que precisava de alguém para guiá-lo antes que caísse numa armadilha. Elayne achou que Min poderia ajudar nesse sentido, assim que a missão diplomática chegasse a Caemlyn — foi a primeira notícia que Egwene tivera de que Min estava com ele, ou que estivera em Salidar —, embora, na realidade, Elayne parecesse desanimada. E ela acabou resmungando algo bem estranho, como se estivesse repetindo uma verdade desagradável.

— Min é uma mulher melhor que eu. — Por algum motivo, aquilo suscitou um olhar de compaixão da parte de Nynaeve. — Eu queria que eu estivesse lá — prosseguiu Elayne com uma voz mais forte. — Para guiá-lo, quero dizer. — Seu olhar passou de Egwene para Nynaeve, e suas bochechas ficaram vermelhas. — Ah, e por outros motivos também. — Nynaeve e Egwene começaram a gargalhar tanto que quase caíram das cadeiras, e Elayne se juntou às duas quase de imediato.