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Egwene fungou com desdém. Sorilea teria sido mandada embora da Torre sem nem fazer o teste para Aceita.

— Talvez elas não possam ser Aes Sedai, mas isso não significa que sejam inúteis. Afinal, já se confia que essas mulheres são capazes de usar o Poder com certo discernimento, ou elas não seriam liberadas da Torre. O meu sonho é que todas as mulheres capazes de canalizar estejam conectadas com a Torre de alguma forma. Absolutamente todas.

— Até as Chamadoras de Ventos? — Elayne se encolheu quando Egwene assentiu com a cabeça.

— Você não as traiu, Elayne. Não consigo acreditar que elas tenham conseguido guardar segredo por tanto tempo.

Elayne soltou um suspiro profundo.

— Bem, o que está feito, está feito. “O mel não volta para o favo”, como dizem por aí. Mas se essas suas Aiel tiverem uma proteção especial, o Povo do Mar também deveria ter. Deixe as Chamadoras ensinarem as garotas delas. As mulheres do Povo do Mar também não devem ser levadas por Aes Sedai contra a sua vontade.

— De acordo. — Egwene cuspiu na palma da mão e estendeu-a, e, após um momento, Elayne cuspiu na dela e sorriu quando as duas apertaram as mãos para selar o pacto.

O sorriso foi sumindo devagar.

— Isso tem a ver com Rand e a anistia dele, Egwene?

— Em parte. Elayne, como esse homem consegue ser tão…? — Não sabia como concluir a frase, e a amiga também não sabia como responder, de qualquer forma. A outra mulher apenas assentiu com um quê de tristeza, talvez também de compreensão, concordância ou ambos.

A porta se abriu, e uma mulher forte trajando lã escura apareceu trazendo uma bandeja de prata com três copos e um jarro de prata de gargalo comprido contendo vinho. Tinha um rosto sofrido, o rosto da mulher de um fazendeiro, mas seus olhos escuros reluziam enquanto ela analisava Egwene e Elayne com um olhar irrequieto. Egwene mal teve tempo de se sentir surpresa ao ver o colar de prata apertado no pescoço da mulher, apesar do vestido sem graça; Nynaeve entrou depois dela e fechou a porta. Devia ter corrido feito o vento, já que havia encontrado tempo para trocar o vestido de Aceita por um de seda azul-marinho bordado com ornamentos dourados ao longo da gola e da bainha. Não era nem de perto tão decotado quanto o que Berelain usava, mas, ainda assim, era consideravelmente mais revelador do que Egwene esperava ver em Nynaeve.

— Essa é Marigan — disse Nynaeve, puxando a trança por cima do ombro em um movimento ensaiado. Seu anel dourado da Grande Serpente estava na mão direita.

Egwene teve o impulso de perguntar por que ela enfatizou tanto o nome, quando, de repente, percebeu que o colar de “Marigan” combinava com o bracelete no pulso de Nynaeve. Não conseguiu deixar de encarar. A mulher certamente não se parecia em nada com o que ela esperaria de uma Abandonada. Egwene disse exatamente isso e Nynaeve gargalhou.

— Veja só, Egwene.

Ela fez mais que ver: quase saltou da cadeira e abraçou saidar. Tão logo Nynaeve falou, o brilho já envolvia “Marigan”. Apenas por um instante, mas, antes que desaparecesse, a mulher no vestido simples de lã mudou por completo. Mudanças pequenas, na verdade, mas que, somadas, mostravam uma mulher completamente diferente, de traços fortes porém belos, e nem um pouco acabada — uma mulher orgulhosa e até majestosa. Só os olhos permaneciam os mesmos, com um brilho perigoso, mas, apesar de inquietos, Egwene era capaz de acreditar que aquela mulher era Moghedien.

— Como? — Foi tudo o que disse. Egwene escutou com atenção quando Nynaeve e Elayne explicaram como teciam disfarces e invertiam tessituras, mas seus olhos permaneceram em Moghedien. Ela estava orgulhosa e cheia de si, orgulhosa por voltar a ser ela mesma.

— Transformem de novo — ordenou Egwene assim que as duas terminaram a explicação. Uma vez mais, o brilho de saidar só durou uns poucos instantes e, assim que esvaneceu, não havia tessituras que ela conseguisse enxergar. Moghedien estava acabada e simples outra vez, uma mulher do campo que vivera uma vida difícil e que parecia mais velha do que a idade que tinha. Seus olhos negros fitavam Egwene, tomados pelo ódio e também, talvez, por asco dela própria.

Ao perceber que ainda abraçava saidar, Egwene se sentiu uma tola. Nem Nynaeve nem Elayne haviam abraçado a Fonte. Porém, Nynaeve estava usando aquele bracelete. Egwene se levantou sem tirar os olhos de Moghedien e estendeu a mão. Nynaeve pareceu até ansiosa para tirar aquela coisa do pulso, o que Egwene podia compreender.

Ao entregar o bracelete, Nynaeve disse:

— Ponha a bandeja na mesa, Marigan. E trate de se comportar bem. Egwene tem vivido com os Aiel.

Egwene virou o bracelete prateado em suas mãos, examinando-o, e tentou não sentir um calafrio. Um trabalho de muita astúcia, segmentado de modo tão inteligente que aparentava ser quase sólido. Ela já havia estado na outra extremidade de um a’dam. Um artefato Seanchan, com uma corrente de prata ligando o colar ao bracelete, mas, no fim das contas, a mesma coisa. Seu estômago agora estava agitado de um modo que não estivera nem diante do Salão nem da multidão, em um rebuliço que parecia tentar compensar a calmaria de antes. Em um gesto decidido, fechou o bracelete de prata em torno do pulso. Tinha alguma ideia do que esperar, mas, mesmo assim, quase pulou de susto. As emoções da outra mulher foram reveladas diante dela, além do seu estado físico, tudo reunido em uma porção delimitada de sua mente. Em especial, sentia um medo pulsante, mas o asco de si mesma que Egwene achava que percebera vibrava de maneira quase tão intensa quanto o medo. Moghedien não gostava da sua aparência atual. Talvez não gostasse, em especial, após o breve retorno a quem ela era de fato.

Egwene pensou em quem era aquela mulher diante de seus olhos: uma Abandonada, alguém cujo nome fora usado para atemorizar crianças durante séculos, uma mulher cujos crimes mereciam centenas de vezes a pena de morte. Pensou no conhecimento que havia naquela cabeça. Obrigou-se a sorrir. Um sorriso nada bonito. Não pretendia que fosse, mas acreditava que não teria conseguido mesmo que tivesse tentado.

— Ela falou a verdade. Eu estava vivendo entre os Aiel. Então, se você espera que eu seja tão bondosa quanto Nynaeve e Elayne, trate de esquecer. Dê um único passo em falso comigo e eu vou fazer você implorar pela morte. Só que eu não vou matar você. Só vou encontrar um jeito de tornar esse sofrimento permanente. Por outro lado, se você fizer algo pior que um único passo em falso… — Egwene foi abrindo ainda mais seu sorriso, até deixá-lo absolutamente ameaçador.

O medo ficou tão intenso que sobrepujou todas as outras emoções e chegou a tentar derrubar as paredes daquele espaço delimitado na mente de Egwene. De pé diante da mesa, Moghedien agarrou as saias com os nós dos dedos já esbranquiçados, tremendo visivelmente. Nynaeve e Elayne olhavam para Egwene como se jamais a tivessem visto. Luz, as duas esperavam que ela fosse educada com uma Abandonada? Sorilea amarraria a mulher em uma estaca sob o sol para obrigar Moghedien a obedecê-la, isso se simplesmente não lhe cortasse a garganta com as próprias mãos.

Egwene se aproximou de Moghedien. A outra mulher era mais alta, mas se curvou para trás, contra a mesa, derrubando os copos de vinho da bandeja e fazendo o jarro balançar. Egwene deixou a voz ainda mais fria — não que a diferença fosse muito grande.

— O dia em que eu perceber qualquer mentira sua, eu juro que executo você eu mesma. Preste atenção. Considerei a hipótese de viajar de um lugar para o outro fazendo um buraco, digamos, daqui até lá. Um buraco através do Padrão, de forma que não haja distância entre uma ponta e a outra. Vai funcionar?