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Anaiya, então, voltou sua atenção para Mat com um daqueles olhares de Aes Sedai cujo objetivo era desestabilizar um homem. E foi exatamente o que ela fez. Claro que algumas Aes Sedai sabiam a respeito dele — algumas sabiam bem mais do que ele gostaria e, parando para pensar, ele se lembrou de que Anaiya era uma dessas —, mas ouvir aquilo ser anunciado daquela maneira, diante de só a Luz sabia quantas mulheres com aqueles olhos frios de Aes Sedai… Suas mãos alisaram o cabo entalhado da lança. Com ou sem cabeça de raposa, elas estavam em número suficiente para simplesmente pôr as mãos nele e carregá-lo para onde quisessem. Malditas Aes Sedai! Maldito Rand!

Mat, no entanto, só reteve o interesse de Anaiya por um momento. Aproximando-se de Aviendha, ela disse:

— E qual é o seu nome, criança? — Seu tom de voz era agradável, mas deixava claro que ela esperava uma resposta.

Aviendha encarou-a de frente, uma cabeça mais alta e usando cada fio de cabelo a seu favor.

— Sou Aviendha, do ramo dos Nove Vales dos Aiel Taardad.

A boca de Anaiya ensaiou um leve sorriso por conta daquele quê de desafio.

Mat ficou se perguntando quem iria vencer aquele duelo de olhares, mas, antes que pudesse fazer uma aposta consigo mesmo, uma outra Aes Sedai se juntou a elas, uma mulher cujas maçãs do rosto ossudas sugeriam certa idade, apesar das bochechas sem rugas e do cabelo castanho brilhoso.

— Garota, você sabia que, no caso, é capaz de canalizar?

— Sabia — respondeu Aviendha, curta e grossa, fechando a boca em seguida como se não pretendesse dizer mais nada. Concentrou-se em ajustar o xale, mas já dissera o bastante. As Aes Sedai cercaram-na feito abelhas, empurrando Mat para longe.

— Quantos anos você tem, criança?

— Você é muito forte, mas poderia aprender muito mais como noviça.

— Morrem muitas garotas Aiel de uma doença misteriosa quando ainda são alguns anos mais jovens que você?

— Há quanto tempo você…?

— Você poderia…

— Você deveria mesmo…

— Você tem que…

Nynaeve surgiu tão de repente à porta que pareceu ter brotado no ar. Com os punhos apoiados na cintura, encarou Mat.

— O que você está fazendo em Salidar, Matrim Cauthon? Como chegou aqui? Acho que é pedir demais que você tenha alguma coisa a ver com esse exército de Devotos do Dragão que está prestes a nos atacar.

— Na verdade — retrucou ele, seco —, eu estou no comando.

— Você…! — Nynaeve ficou ali de pé boquiaberta e então se recompôs, puxando o vestido azul como se precisasse ajustá-lo. Era mais revelador do que qualquer outro que Mat se recordava de tê-la visto usando antes, o bastante para ostentar algo que podia ser chamado de decote, com arabescos amarelos ao redor da gola e da bainha. Totalmente diferente do que ela usara em casa. — Bem, venha comigo — disse ela com firmeza. — Vou levar você até a Amyrlin.

— Mat Cauthon — chamou Aviendha, a respiração um pouco sôfrega. Olhava por cima e para um lado e para o outro das Aes Sedai tentando encontrá-lo. — Mat Cauthon. — Apenas isso, mas, para uma Aiel, parecia desesperada.

As Aes Sedai que a cercavam continuavam a falar, as vozes calmas, ponderadas e implacáveis.

— Para você, o melhor seria…

— Você precisa considerar…

— É bem melhor…

— Nem cogite…

Mat deu um sorrisinho. Ela poderia sacar sua faca em um instante, mas, em meio àquela multidão, ele duvidou de que lhe seria de grande serventia. Aviendha não sairia à caça de Elayne tão cedo, isso era certo. Mat se perguntou se a encontraria usando um vestido branco quando voltasse, então arremessou sua lança para Vanin e disse:

— É só mostrar o caminho, Nynaeve. Vamos lá falar com essa sua Amyrlin.

Ela olhou para ele com a testa muito franzida e o levou para dentro dando puxões em sua trança e resmungando — apenas em parte consigo mesma:

— Isso é coisa de Rand, não é? Eu sei que é. Deve ter dedo dele nessa história. Mas que ideia, quase matou todo mundo de susto. Olhe bem por onde anda, Senhor General Cauthon, ou eu juro que você vai desejar que eu tivesse pego você roubando mirtilos de novo. Ele deixou todo mundo apavorado! Até mesmo um homem deveria ter mais juízo! E tire esse sorrisinho da cara agora mesmo, Mat Cauthon. Não sei o que ela vai achar disso tudo.

Havia Aes Sedai nas mesas lá dentro — parecia o salão de uma estalagem para Mat, mesmo com aquelas mulheres sérias rabiscando ou dando ordens a criados —, mas elas não fizeram mais do que dar uma olhadela para ele e Nynaeve quando ambos atravessaram o ambiente. A cena ilustrava bem o nível do espetáculo que elas estavam apresentando ali. Uma Aceita passou resmungando sozinha e nenhuma das Aes Sedai a repreendeu. Mat ficara na Torre pelo menor tempo que pôde, mas sabia que aquele não era o modo como as Aes Sedai tocavam suas atividades.

Nos fundos do aposento, Nynaeve empurrou uma porta em condições ruins. Tudo lá dentro estava em condições ruins, para dizer a verdade. Mat entrou logo depois… e ficou paralisado. Ali estava Elayne, linda de morrer com aqueles cabelos dourados, mas com aquele seu ar de importância costumeiro, em um vestido de seda verde com gola alta rendada e exibindo um daqueles sorrisos condescendentes, as sobrancelhas erguidas para ele. E ali estava Egwene, sentada atrás de uma mesa, um sorriso inquisitivo no rosto. E uma estola com sete listras por sobre o vestido amarelo-claro. Mat deu uma rápida espreitada lá fora e fechou a porta antes que alguma Aes Sedai pudesse olhar para dentro.

— Talvez vocês achem isso engraçado — rosnou ele, atravessando o trecho atapetado o mais rápido que conseguiu —, mas elas vão arrancar o couro de vocês se descobrirem essa brincadeira. Elas nunca vão deixar vocês irem embora, nenhuma de vocês, se… — Arrancando a estola do pescoço de Egwene, ele começou a arrastá-la da cadeira… e a cabeça de raposa de prata ficou fria como a morte em seu peito.

Mat deu um último empurrãozinho para afastar Egwene da mesa e fitou as três. Egwene só o olhou, perplexa, mas Nynaeve ficou boquiaberta, e os enormes olhos azuis de Elayne pareciam prestes a saltar das órbitas. Uma delas havia tentado usar o Poder contra ele. A única coisa boa que resultara da jornada dele dentro daquele ter’angreal era o medalhão com a cabeça de raposa. Mat supunha que o objeto também só podia ser um ter’angreal, mas, ainda assim, estava grato por ele. Desde que o medalhão estivesse tocando sua pele, o Poder Único não podia atingi-lo. Pelo menos não saidar. Ele já tivera mais provas disso do que gostaria. O medalhão ficava frio sempre que alguém tentava.

Arremessando a estola e seu chapéu em cima da mesa, Mat fez menção de se sentar, mas precisou de uma pausa rápida para tirar algumas almofadas da cadeira e jogá-las no chão. Descansou uma das botas em cima da mesa e ficou olhando para aquelas tolas.

— Vocês vão precisar dessas almofadas se essa tal Amyrlin descobrir essa brincadeirinha de vocês.

— Mat — começou Egwene com a voz firme, mas ele a interrompeu.

— Não! Se você quisesse falar, deveria ter falado, em vez de me atacar com o seu maldito Poder. Agora você vai ouvir.

— Como você…? — quis saber Elayne, admirada. — Os fluxos simplesmente… desapareceram.

Quase no mesmo instante, Nynaeve se pronunciou num tom ameaçador:

— Mat Cauthon, você está cometendo o maior…

— Eu mandei vocês ouvirem! — Ele apontou para Elayne. — Você eu vou levar de volta para Caemlyn, isso se conseguir salvá-la de Aviendha. Se não quiser que cortem esse seu pescocinho esbelto, é melhor não sair da minha vista e fazer o que eu mandar, sem questionar! — O dedo passou a apontar para Egwene. — Rand disse que vai mandá-la de volta para as Sábias se você quiser, e se o que eu vi até agora é alguma indicação dos problemas em que estão prestes a se meter, acho melhor você aceitar e arrumar as malas agora mesmo! Como parece que você sabe Viajar — Egwene se sobressaltou —, pode abrir um portão até Caemlyn para o Bando. Não quero discussão, Egwene! E você, Nynaeve! Eu devia deixá-la aqui, mas, se quiser vir junto, pode vir. Mas vou logo avisando: puxe essa sua trança uma única vez para mim e eu juro que deixo esse seu traseiro ardido!