As três encaravam-no como se chifres de Trolloc tivessem brotado em sua testa, mas pelo menos se mantiveram de boca fechada. Talvez ele tivesse conseguido enfiar um pouco de juízo na cabeça delas. Não que qualquer uma delas fosse lhe agradecer algum dia por ter salvado seus couros. Ah, não, elas não. Como de costume, diriam que teriam pensado em um plano sozinhas com só um pouquinho mais de tempo. Aquelas mulheres eram capazes de dizer que você estava se metendo onde não era chamado quando as salvava de uma masmorra, então Mat esperava qualquer coisa delas.
Mat tomou fôlego e continuou:
— É o seguinte: quando a pobre coitada que elas escolheram para ser a Amyrlin aparecer aqui, deixem que eu falo. Ela não deve ser das mais espertas, ou elas nunca teriam conseguido enfiá-la na função. Que ideia mais ridícula, o Trono de Amyrlin de uma aldeia no meio do nada. Tratem de ficar de boca fechada, façam suas melhores mesuras e deixem que eu tiro vocês dessa confusão. — Elas só ficaram olhando. Ótimo. — Já sei tudo sobre o exército dela, mas também tenho o meu. Se ela for louca o bastante para achar que é capaz de tirar a Torre de Elaida… Bem, duvido de que ela se arrisque a sofrer baixas só para manter vocês três aqui. Abra o tal do portão, Egwene, e eu deixo vocês três em Caemlyn amanhã, ou no máximo no dia seguinte, e aí essas malucas podem ir ser mortas por Elaida, se é o que querem. Talvez vocês até tenham companhia. Não é possível que sejam todas loucas. Rand está disposto a oferecer um refúgio. Basta uma mesura aqui, um juramento de lealdade a ele ali e Rand vai evitar que Elaida enfie a cabeça delas em estacas na frente de Tar Valon. Elas não podem pedir mais que isso. Então? Algo a declarar? — Até onde Mat pôde ver, as três nem piscaram. — Um simples “Obrigada, Mat” já basta. — Nenhuma palavra. Nem uma piscadinha.
Uma tímida batida à porta foi seguida por uma noviça, uma linda garota de olhos verdes que fez uma mesura profunda, os olhos bem abertos em total veneração.
— Me mandaram ver se desejava algo, Mãe. Para o… general. Vinho ou… ou…
— Não, Tabiya. — Egwene puxou a estola listrada de baixo do chapéu de Mat e arrumou-a nos ombros. — Quero falar a sós com o General Cauthon um pouco mais. Diga a Sheriam que vou mandar chamá-la daqui a pouco para me aconselhar.
— Feche essa boca, Mat, antes que você engula uma mosca — disse Nynaeve, em um tom de voz repleto de satisfação.
CAPÍTULO 39
Possibilidades
Ajustando a estola, Egwene examinou Mat. Esperara vê-lo com cara de urso encurralado, mas ele só parecia perplexo e suado. Havia tantas perguntas que ela desejava fazer — Como Rand descobriu onde ficava Salidar? Como sabia que ela aprendera a Viajar? O que Rand achava que estava fazendo? —, mas não iria fazê-las. Mat e seu Bando da Mão Vermelha a tinham deixado com a mente em turbilhão. Talvez Rand tivesse lhe entregado um presente dos céus.
— A minha cadeira — pediu ela, calma. Torcia para que Mat tivesse percebido que ela não estava suando, assim como Elayne e Nynaeve. A segunda suava um pouquinho, na verdade. Siuan ensinara o truque, que não tinha nada a ver com o Poder; era só uma questão de se concentrar de um certo modo. Nynaeve ficara bem zangada por Siuan não ter lhes ensinado antes, o que não era surpresa, mas a mulher só fez responder com toda a calma que aquele conhecimento se destinava às Aes Sedai, não às Aceitas. Até então, Egwene tinha conseguido controlar os pensamentos de modo adequado quando havia irmãs por perto, e o rosto sereno, em vez de suado, de fato parecia ajudar no comportamento delas. De algumas delas. Deveria funcionar às maravilhas com Mat. Isso se algum dia ele parasse de ficar só olhando fixo para ela e a enxergasse de verdade. — Mat? A minha cadeira.
Ele se sobressaltou, então se levantou e se afastou para o lado, sem dar um pio e com os olhos indo de Egwene para Elayne e para Nynaeve como se elas fossem algum tipo de quebra-cabeças. Bem, Nynaeve e Elayne também estavam olhando para ele quase da mesma forma, e com certeza tinham motivos melhores para tal.
Egwene sacudiu o pó das almofadas antes de recolocá-las na cadeira. Lembrou-se de Chesa com carinho. Depois de dois dias, já não precisava mais das almofadas macias, não muito, mas ou ela abria mão de tomar banho ou as aceitava até que as manchas roxas sumissem por completo. Se Egwene mandasse, Chesa retiraria as almofadas. Rosto suado ou sereno, ela era o Trono de Amyrlin, perante o qual reis e rainhas se curvavam, embora nenhum tivesse feito isso ainda. Era ela quem faria Elaida ser julgada e executada, normalizando a situação da Torre Branca e, consequentemente, do mundo. Chesa lhe obedeceria, mas lançaria olhares tão sentidos e acusatórios por ter sido impedida de cuidar dela que deixar as almofadas ali era bem mais fácil de suportar.
Ela se ajeitou na cadeira com as mãos sobre a mesa e disse:
— Mat…
— Isso é mesmo uma loucura, sabia? — interrompeu ele, em voz baixa. Baixa, mas bem firme. — Vão acabar cortando a sua cabeça, Egwene. A de todas vocês. Vão cortar… as cabeças… de vocês.
— Mat — interveio ela num tom mais severo, mas ele seguiu em frente.
— Olha, vocês ainda podem sair dessa. Se elas pensam que você é a Amyrlin, você pode ir comigo para… inspecionar o Bando. Aí você abre um portão e nós vamos embora antes que essa cambada de lunáticas com cérebro de cabra consiga piscar.
Nynaeve vira com os próprios olhos que Mat era imune a saidar, mas já lidara com homens teimosos muito antes de ter aprendido a canalizar. Rosnando um “Deixar o meu traseiro ardido?” abafado que Egwene achou que não era para ter sido ouvido, Nynaeve levantou as saias e deu um pontapé certeiro no traseiro dele, com tanta força que Mat cambaleou até a parede, onde se apoiou com uma das mãos. Elayne deixou escapar o início de uma gargalhada que foi imediatamente sufocada, embora a Filha-herdeira continuasse balançando com o esforço de se conter, os olhos ainda risonhos.
Egwene mordeu o lábio para também abafar o riso. A cena foi cômica, de fato. Mat virou a cabeça devagar para encarar Nynaeve, os olhos arregalados em um misto de indignação e ultraje. Em seguida, suas sobrancelhas baixaram e, endireitando o manto desabotoado, ele começou a caminhar lentamente em direção a ela. Lentamente porque estava mancando. Egwene cobriu a boca. Gargalhar não seria bom mesmo.
Nynaeve se empertigou, e, então, talvez, algumas coisas lhe tenham ocorrido. Ela podia estar zangada o suficiente para canalizar, mas saidar parecia não surtir efeito com ele. Mat era alto para um homem de Dois Rios, bem mais alto que ela, além de bem mais forte, e havia, decididamente, um brilho perigoso em seu olhar. Nynaeve deu uma olhadinha para Egwene e ajeitou o vestido, tentando manter o rosto impassível. Mat chegou ainda mais perto, o rosto tal qual um trovão. Outra olhadinha afobada, com a preocupação começando a transparecer, e Nynaeve chegou a dar um passinho para trás.
— Mat — disse Egwene em um tom equilibrado. Ele não parou. — Mat, pare com essa besteira. Você está numa bela encrenca, mas eu devo conseguir salvar sua pele, caso você tenha juízo.