Elayne se levantou em um movimento gracioso e fez uma mesura profunda e formal para Egwene.
— Se me dá licença, Mãe, é melhor eu ir procurar Aviendha.
Nynaeve, por outro lado, ficou encarando Sheriam até Egwene pigarrear e recolocar a estola listrada sobre os ombros.
Enrubescendo, Nynaeve fez uma mesura e se levantou.
— Melhor eu ir também. Janya disse que iria conversar comigo sobre Talentos perdidos.
A recuperação daqueles Talentos estava se provando não ser tão fácil quanto Egwene esperara. As irmãs estavam suficientemente dispostas a falar. O problema era fazer Moghedien compreender o que estava sendo dito apenas por uma vaga descrição ou às vezes só por um nome, e então torcer para que ela realmente soubesse de algo. Ótimo saber, por exemplo, que Alinhar a Matriz fortalecia metais, mas a mulher entendia ainda menos de metais que da Cura. E o que, sob a Luz, significava Girar Fogo Terrestre? E Ordenhar Lágrimas?
Moghedien parecia disposta a ajudar, desesperada até, em especial depois que Siuan ensinou o truque de ignorar o calor. Ao que parecia, ela havia mentido para Nynaeve e Elayne a respeito daquilo. Convencida de que Egwene interpretaria isso como “uma única mentira” dela, a mulher ficara de joelhos, chorando e implorando, batendo os dentes e beijando-lhes as barras das saias. Ansiosa para ajudar ou não, seu medo se elevara a novos patamares. A chuva nauseante e incessante de terror choroso era insuportável. Apesar do que Egwene pretendera fazer inicialmente, o bracelete do a’dam estava guardado em sua bolsinha. Àquela altura, ela já o teria dado a Nynaeve — e estaria feliz por se ver livre dele —, mas ficar passando aquilo para lá e para cá na frente dos outros acabaria gerando comentários mais cedo ou mais tarde.
Em vez disso, ela falou:
— Nynaeve, talvez seja melhor você evitar Mat até que ele se acalme. — Ela não tinha certeza de que Mat de fato levaria sua ameaça adiante, mas se havia alguém que o incitasse a tal, esse alguém era Nynaeve, e não seria possível convencê-la se isso acontecesse. — Ou pelo menos tome o cuidado de só se dirigir a ele quando houver muita gente em volta. Talvez alguns Guardiões.
Nynaeve abriu a boca e então, momentos depois, fechou. Suas bochechas empalideceram um pouco e ela engoliu em seco.
— Certo. É, acho que pode ser melhor, Mãe.
Sheriam assistiu à porta se fechar com o cenho levemente franzido, e a expressão permaneceu quando ela se virou para Egwene.
— A conversa foi difícil, Mãe?
— Apenas o que se espera quando velhos amigos se encontram depois de muito tempo. Nynaeve se lembra de Mat como um moleque travesso, mas ele já não tem mais dez anos e se ressente disso. — Impedidas de mentir por conta do Juramento, as Aes Sedai haviam transformado meias verdades e insinuações em arte. Uma arte muito útil, na opinião de Egwene. Especialmente com Aes Sedai. Os Três Juramentos não eram bons para ninguém, menos ainda para as Aes Sedai.
— Às vezes é difícil lembrar que as pessoas mudam. — Sheriam se sentou sem ter sido convidada e arrumou suas saias azuis de seda com cuidado. — Presumo que quem quer que esteja no comando dos Devotos do Dragão tenha mandado o jovem Mat com uma mensagem de Rand al’Thor, não? Espero que você não tenha dito nada que ele possa interpretar como uma promessa, Mãe. Um exército de Devotos do Dragão a menos de dez milhas daqui nos põe em uma posição muito delicada. Não vai ajudar em nada se o comandante deles acreditar que descumprimos uma promessa.
Egwene analisou a outra mulher por um momento. Nada abalava Sheriam. Não que ela deixasse alguém perceber, pelo menos. Sheriam sabia bastante sobre Mat, assim como o sabiam várias outras irmãs em Salidar. Será que aquilo poderia ser usado para pressioná-lo na direção correta ou o faria dar no pé? Depois eu cuido de Mat, pensou ela com firmeza. Preciso me concentrar em Sheriam.
— Você poderia pedir para alguém trazer chá, Sheriam? Estou com um pouquinho de sede.
O rosto de Sheriam se alterou apenas levemente, um mero estreitamento daqueles olhos amendoados, tão pequeno que mal perturbou sua aparente serenidade. Egwene, no entanto, podia quase enxergar a pergunta querendo brotar. O que ela dissera a Mat e que agora não queria revelar? Que promessas tinha feito? De que enrascada Sheriam teria de resgatá-la sem ter que ceder a Romanda e Lelaine?
A única coisa que Sheriam fez foi dizer umas poucas palavras para alguém do lado de fora e, quando retomou seu assento, Egwene não lhe deu chance para abrir a boca. Em vez disso, acertou-a entre os olhos, por assim dizer.
— Parece que Mat é o comandante, Sheriam, e, de certa forma, o exército é a mensagem. Aparentemente, Rand gostaria que todas nós fôssemos para junto dele em Caemlyn. Houve até uma menção a juramentos de lealdade.
Sheriam levantou a cabeça, os olhos se arregalando. Só em parte, porém, em ultraje àquela sugestão. Havia um claro quê de… bem, em qualquer pessoa que não fosse Aes Sedai, Egwene teria chamado de medo. Bastante compreensível, se fosse o caso. Se ela tivesse prometido aquilo — e eles eram da mesma aldeia, e uma das utilidades de ter Egwene como Amyrlin era o fato de ela ter sido criada com Rand —, seria como tentar escapar de um atoleiro sem fim. A notícia se espalharia a despeito do que Sheriam fizesse para abafá-la. Uma parte do Salão talvez pusesse a culpa nela, ou usaria o caso como pretexto, de qualquer forma. Romanda e Lelaine não eram as únicas Votantes a ter alertado Egwene quanto a seguir os conselhos de Sheriam sem consultar o Salão. Na verdade, Delana era a única que parecia apoiar Sheriam sem restrições, mas sempre advertia que Romanda e Lelaine também deveriam ser ouvidas, como se realmente fosse possível seguir por três caminhos de uma só vez. E, ainda que se pudesse contornar o Salão, tão logo a notícia da promessa, bem como da sua revogação, chegasse aos ouvidos de Rand, seria dez vezes mais difícil lidar com ele. Cem vezes.
Egwene só aguardou até que os lábios de Sheriam se abrissem, e então tornou a se antecipar:
— Claro que eu falei para ele que era uma ideia ridícula.
— Claro. — A voz de Sheriam não estava tão firme quanto já estivera. Muito bom.
— Mas você tem toda razão. A situação é delicada. É uma pena. O seu conselho sobre como lidar com Romanda e Lelaine foi bom, mas creio que aumentar os preparativos para um deslocamento já não seja mais suficiente.
Romanda a colocara contra a parede e a advertira com severidade quanto à pressa levar à ruína. O exército de Gareth Bryne deveria ter seus números aumentados, até ficar grande o bastante para que a notícia sobre o seu tamanho intimidasse Elaida. Por sinal, Romanda não poderia ser mais contundente ao enfatizar uma vez mais que missões diplomáticas para governantes tinham que ser suspensas. Somente as Aes Sedai deveriam saber de quaisquer problemas na Torre. Lelaine não dava a mínima nem para o exército do Lorde Bryne nem para governantes — ambos eram irrelevantes —, embora tenha recomendado cautela e espera. As abordagens adequadas às Aes Sedai que ainda estavam na Torre por certo dariam frutos: Elaida poderia ser removida do Trono de Amyrlin e Egwene empossada de tal forma que ninguém além de umas poucas irmãs jamais teria certeza do que realmente ocorrera. Com o tempo, o fato de a Torre Branca um dia ter se rompido seria visto como não mais que um boato de camponês. Poderia até ter dado certo, se elas tivessem mais tempo. Caso esperar não desse a Elaida exatamente a mesma chance de atuar junto às irmãs que estavam ali.
A outra diferença com relação a Lelaine era que ela dissera tudo aquilo com um sorriso apropriado para se dirigir a uma noviça promissora ou a uma Aceita da qual ela estava orgulhosa. Egwene ter redescoberto a Viagem fez com que várias Aes Sedai sorrissem, embora só umas poucas fossem fortes o bastante para abrir um portão maior que o necessário para a passagem de um braço, e a maioria, nem isso. Romanda queria usar os portões para retirar da Torre o Bastão dos Juramentos e certos outros objetos — não disseram a Egwene exatamente quais —, para que elas pudessem elevar Aes Sedai “de verdade” em Salidar, privando Elaida dessa capacidade, e era certo que Egwene queria ser uma Aes Sedai “de verdade”. Lelaine concordava com esse último ponto, mas não com o uso de portões na Torre. Havia grandes chances de que eles fossem detectados, e, se as mulheres na Torre aprendessem a Viajar, uma vantagem importante demais seria perdida. Esses argumentos haviam tido um peso considerável junto ao Salão, o que não deixou Romanda nada satisfeita.