Mat fez menção de detê-lo e chegou até a abrir a boca. Só não conseguia pensar no que dizer. Velho maluco! Não, não era maluco. Egwene era teimosa como uma mula, e Nynaeve a fazia parecer dócil. Pior, ambas subiriam numa árvore para enxergar melhor um relâmpago. Quanto a Elayne, as mulheres nobres nunca tinham bom senso suficiente para sair da chuva. E depois ficavam indignadas quando se molhavam.
Dando tapinhas para esvaziar o cachimbo, Mat apagou as brasas com os calcanhares antes que as ervas daninhas secas pudessem pegar fogo, então apanhou o chapéu no chão e saiu mancando pela rua. Precisava obter informações de uma fonte melhor que um menestrel que tinha delírios de grandeza por ter passado tempo demais com aquela Filha-herdeira de nariz em pé. À sua esquerda, ao longe, Mat viu Nynaeve saindo da Pequena Torre e disparou atrás dela, serpenteando por entre carroças puxadas por bois ou cavalos. Talvez ela pudesse ajudá-lo a entender melhor. Se quisesse. Sentiu uma pontada no quadril. Que me queime, ela me deve algumas respostas.
Foi quando Nynaeve o avistou e ficou visivelmente tensa. Por um momento, observou-o se aproximar e então, de maneira abrupta, apressou-se na direção contrária, numa clara tentativa de evitá-lo. Ela olhou por cima do ombro duas vezes antes de as pessoas e as carroças a encobrirem.
Mat parou, com a expressão carrancuda, e puxou o chapéu para baixo. Primeiro, a mulher lhe dera um pontapé sem motivo e agora se recusava a falar com ele. Estavam querendo deixá-lo abalado, ela e Egwene, até que Mat saísse correndo sempre que elas lhe apontassem o dedo. Bem, elas escolheram o homem errado para esse joguinho, e que a Luz queime seus couros!
Vanin e os demais estavam do lado de fora de um estábulo, junto de uma construção de pedra que, no passado, com certeza fora uma estalagem. Àquela altura, Aes Sedai entravam e saíam do local. Pips e o restante dos cavalos estavam amarrados a um poste, e Vanin e os dois batedores que haviam sido capturados estavam agachados junto da parede. Não havia dois homens mais diferentes entre si do que Marr e Ladwin; um alto, magrelo e de rosto duro, o outro baixo, troncudo e de aspecto pacato, mas ambos pareciam absolutamente envergonhados quando Mat apareceu. Nenhum dos dois havia se recuperado de como a captura dele tinha sido fácil. Rijos, os dois homens do esquadrão estavam de pé e ainda seguravam os estandartes bem justos junto às hastes, como se ainda houvesse sentido naquilo. Pareciam mais do que só um pouco apreensivos. Uma batalha era uma coisa, todas aquelas Aes Sedai eram outra bem diferente. Numa batalha, um homem tinha chances de vencer. Havia dois Guardiões de olho neles. Não abertamente. Estavam do outro lado do pátio do estábulo, mas não teriam optado por ficar ali, de pé no sol a pino, só para conversar.
Mat alisou o focinho de Pips e, em seguida, instantes depois, começou a examinar os olhos do cavalo. Um sujeito de colete de couro saiu do estábulo e seguiu rua acima empurrando um carrinho de mão cheio de esterco. Vanin se aproximou para observar o olho de Pips. Sem olhar para ele, Mat disse:
— Você consegue ir até o Bando?
— Talvez. — Vanin franziu o cenho e levantou a pálpebra de Pips. — Com um pouco de sorte, talvez. Mas odeio ter que abandonar o meu cavalo.
Mat assentiu, observando o olho mais de perto.
— Avise a Talmanes que eu disse para ele ficar onde está. Pode ser que eu fique aqui alguns dias, e não quero nenhuma maldita tentativa de resgate. Tente voltar para cá. Sem ser visto, se possível.
Vanin cuspiu na poeira debaixo de Pips.
— Um homem que se mistura com Aes Sedai põe uma rédea em si mesmo e uma sela em suas costas. Vou voltar assim que puder. — Balançando a cabeça, ele se misturou à multidão, um gorducho desalinhado e de andar bamboleante que ninguém suspeitaria de que fosse capaz de ser furtivo.
Um dos homens do esquadrão pigarreou com hesitação e deu um passo em direção a Mat.
— Milorde, está tudo…? Foi isso que você planejou, não foi, milorde?
— Tudo dentro do plano, Verdin — respondeu Mat, dando tapinhas em Pips. Ele fora enfiado de cabeça numa saca, e com os barbantes bem amarrados. Havia prometido a Rand que levaria Elayne em segurança a Caemlyn e não podia ir embora sem ela. E também não podia dar no pé e deixar Egwene com o pescoço estirado no cepo. Podia ser que… Luz, como aquilo o irritava! Mas podia ser que ele tivesse de seguir o conselho de Thom. Tentar manter a maldita cabeça daquelas malditas mulheres sobre seus malditos ombros dando um jeito de ajudá-las a fazer aquele plano completamente maluco dar certo. E, de quebra, tentava manter o próprio pescoço intacto. Sem falar em deixar Aviendha bem longe da goela de Elayne. Bem, pelo menos ele poderia estar por perto para levá-las embora quando tudo desse errado. Belo consolo. — Está tudo indo às mil maravilhas.
Elayne esperara encontrar Aviendha na sala de espera ou talvez no lado de fora, mas não precisou investigar muito para descobrir por que a Aiel não estava nem num lugar nem noutro. Havia dois assuntos nas conversas entre as outras Aes Sedai, e todas elas estavam falando, os papéis importantes abandonados sobre as mesas. A maioria das línguas se ocupava com Mat. Até as serviçais e noviças que passavam às pressas pela sala de espera faziam pausas na realização das suas incumbências para trocar uma ou outra palavra a respeito dele. Ele era ta’veren. Era seguro permitir que um ta’veren permanecesse em Salidar? Ele havia estado mesmo na Torre e simplesmente teve permissão para ir embora? Era verdade que comandava um exército de Devotos do Dragão? Será que ele seria preso pelas atrocidades das quais elas tinham ouvido falar? Era verdade que ele era da mesma aldeia que o Dragão Renascido e a Amyrlin? Havia boatos de dois ta’veren ligados ao Dragão Renascido. Quem seria o segundo e onde ele poderia ser encontrado? Talvez Mat Cauthon soubesse. Parecia haver tantas opiniões quanto pessoas para dá-las.
Havia duas perguntas que Elayne esperava ouvir e que não ouviu: o que Mat queria em Salidar e como Rand soubera para onde mandá-lo? Ninguém as fez, mas, num canto, uma Aes Sedai mexia de repente no xale como se estivesse com frio e se sobressaltava quando alguém falava com ela, e, no outro, uma serviçal parada no meio do aposento olhava para o nada antes de recobrar a consciência com uma sacudidela, ou uma noviça disparava olhares apavorados para as irmãs. Mat não era exatamente um gato à solta entre os pombos, mas chegava perto. O simples fato de Rand saber onde elas estavam parecia o suficiente para causar calafrios.
Aviendha gerava menos comentários, mas as irmãs não tinham como evitar falar sobre ela, e não só para mudar de assunto. Não era todo dia que uma bravia simplesmente aparecia por conta própria, em especial com aquela força notável e, ainda por cima, sendo uma Aiel. Esse último aspecto causava verdadeiro fascínio em todas as irmãs. Nenhuma Aiel jamais treinara na Torre, e poucas Aes Sedai já haviam adentrado o Deserto Aiel.
Bastou uma única pergunta para ela descobrir onde estavam mantendo-a presa. Não oficialmente presa, mas Elayne sabia como as Aes Sedai podiam ser quando queriam que uma mulher se tornasse noviça.
— Ao cair da noite, ela já vai estar de branco — afirmou Akarrin de modo confiante. A Marrom esbelta assentia para dar ênfase a quase todas as palavras. As duas irmãs que a acompanhavam aquiesceram com a mesma certeza.
Resmungando sozinha, Elayne saiu apressada para a rua. À sua frente, conseguia avistar Nynaeve quase trotando e olhando por cima do ombro com tanta frequência que acabava esbarrando nas pessoas. Sem se importar em ter companhia, Elayne cogitou alcançá-la, mas não estava disposta a correr naquele calor, com ou sem a concentração que a impedia de suar, e aquela parecia ser a única alternativa. Ainda assim, ela acabou suspendendo um pouco as saias e apertou o passo.