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Antes que tivesse percorrido cinquenta passadas, sentiu Birgitte se aproximando e virou-se para vê-la correndo rua abaixo. Areina estava com ela, mas parou não muito longe e cruzou os braços fazendo cara feia. A mulher era intratável, e com certeza não mudara de opinião só porque Elayne passara a ser de fato uma Aes Sedai.

— Achei que você deveria saber — disse Birgitte, em voz baixa. — Acabei de saber que, quando formos partir para Ebou Dar, Vandene e Adeleas vão junto.

— Entendi — murmurou Elayne. Podia ser que a dupla, por algum motivo, fosse se juntar a Merilille, embora já houvesse três Aes Sedai na corte de Tylin, ou talvez tivessem uma missão específica em Ebou Dar. Elayne não acreditava em nenhuma das duas hipóteses. Areina já tinha feito seus julgamentos, e o Salão também: Elayne e Nynaeve teriam duas Aes Sedai de verdade como babás. — Ela já entendeu bem que ela não vai.

Birgitte espiou na direção para onde Elayne estava olhando, para Areina, e deu de ombros.

— Ela sabe, e não está nem um pouco contente com isso. Da minha parte, não vejo a hora de ir.

Elayne hesitou por um breve momento. Tinha prometido que guardaria segredos, o que não gostava de fazer, mas não que pararia de tentar convencer a outra mulher de que não havia necessidade.

— Birgitte, a Egwene…

— Não!

— Por que não? — Não fazia muito tempo que Elayne tinha Birgitte como Guardiã quando decidira que, assim que estabelecesse um elo com Rand, daria um jeito de obrigá-lo a prometer que ele a obedeceria, ao menos nas coisas importantes. Nos últimos dias, ela se contentaria com uma outra promessa: ele teria que responder às perguntas dela. Birgitte respondia quando queria, fazia-se de desentendida quando tinha vontade e às vezes só exibia uma expressão teimosa, como era o caso naquele momento. — Me diga por que não e, se a justificativa for boa, eu nunca mais pergunto de novo.

De início, Birgitte apenas encarou-a com raiva, mas, em seguida, pegou Elayne pelo braço e quase a arrastou até a entrada de uma viela. Nenhum transeunte deu mais que uma única olhadela para as duas, e Areina permaneceu onde estava, ainda que com uma expressão mais irritada do que antes, mas Birgitte, mesmo assim, olhou com cuidado para os lados e falou sussurrando:

— Sempre que a Roda girou e lançou para fora, eu nasci, vivi e morri sem saber que estava presa à Roda. Eu só ficava sabendo disso nos intervalos, em Tel’aran’rhiod. Algumas vezes, eu me tornei conhecida, e até famosa, mas era como qualquer outra pessoa, e não alguém que saiu de uma lenda. Desta vez, eu fui arrancada, não lançada. É a primeira vez em carne e osso que eu sei quem sou. Pela primeira vez, outras pessoas também podem saber. Thom e Juilin sabem. Não falam nada, mas eu tenho certeza. Eles não olham para mim como as outras pessoas me olham. Se eu dissesse que iria escalar uma montanha de vidro e matar um gigante só com as mãos, eles só perguntariam se eu iria precisar de alguma ajuda para encontrar o caminho, e não esperariam que eu precisasse.

— Eu não estou entendendo — disse Elayne devagar e Birgitte suspirou, baixando a cabeça.

— Não sei se estou à altura disso tudo. Em outras vidas, eu fiz o que tinha de fazer, o que parecia certo, o bastante para Maerion, Joana ou qualquer mulher. Agora, eu sou a Birgitte das histórias. Todos que sabem disso vão ter expectativas. Me sinto como uma dançarina com tanga de pena chegando num conclave tovano.

Elayne nem perguntou. Quando Birgitte mencionava coisas de vidas passadas, as explicações costumavam gerar mais confusão que a pura ignorância.

— Isso é bobagem — opinou ela com firmeza, pegando a outra mulher pelo braço. — Eu sei, e eu com certeza não espero que você saia matando gigantes. Egwene também não. E ela sabe.

— Enquanto eu não admitir — resmungou Birgitte — é como se ela não soubesse. Nem tenha o trabalho de dizer que isso também é bobagem. Eu sei que é, e isso não muda nada.

— E o que você me diz do seguinte: ela é a Amyrlin e você é uma Guardiã. Ela merece a sua confiança, Birgitte. Ela precisa dela.

— Você já terminou o que tinha para fazer com ela? — quis saber Areina, a uma passada de distância. — Se você está indo embora e vai me abandonar, o mínimo que pode fazer é me ajudar com o arco, como disse que faria.

— Eu vou pensar — disse Birgitte, com tranquilidade, para Elayne. Virando-se para Areina, ela pegou a mulher pela trança junto à base da nuca. — Nós vamos conversar sobre o arco, sim — confirmou, puxando-a rua acima —, mas, primeiro, vamos falar sobre boas maneiras.

Balançando a cabeça, Elayne de repente se lembrou de Aviendha e saiu às pressas. A casa não ficava muito longe.

Ela levou um momento para reconhecer Aviendha. Estava acostumada a vê-la de cadin’sor, com seu cabelo avermelhado cortado bem curto, não de saia, blusa e xale, com o cabelo abaixo dos ombros e preso atrás da cabeça por um lenço dobrado. À primeira vista, não parecia estar em nenhuma dificuldade. Sentada meio sem jeito numa cadeira — os Aiel não estavam habituados a cadeiras —, dava a impressão de estar bebericando chá em absoluta paz com outras cinco irmãs que formavam um círculo na sala de estar. Casas que abrigavam Aes Sedai tinham essas coisas, apesar de Elayne e Nynaeve ainda estarem em seu quartinho apertado. Numa segunda análise, Aviendha lançava olhares assustados para as Aes Sedai por cima da borda da xícara de chá. Não houve tempo para uma terceira análise. Ao ver Elayne, Aviendha se pôs de pé instintivamente e deixou a xícara cair no chão limpo. Exceto na Pedra de Tear, Elayne tinha visto poucos Aiel, mas sabia que eles escondiam suas emoções, coisa que Aviendha fazia muito bem. Só que, dessa vez, sua expressão era sofrida.

— Me desculpem — disse Elayne para todas as presentes em um tom suave —, mas eu preciso tirá-la da conversa com vocês por alguns momentos. Talvez vocês possam falar com ela mais tarde.

A hesitação de várias irmãs beirou os protestos, embora não devesse ter havido nenhuma. Era bem claro que ela era, de longe, a mais forte do aposento, tirando Aviendha, e nenhuma daquelas Aes Sedai era Votante ou fazia parte do conselho de Sheriam. Elayne ficou muito feliz por Myrelle não estar lá, já que a mulher morava na casa. Ela optara pela Verde, fora aceita, e só então descobriu que Myrelle era a líder da Ajah Verde em Salidar. Myrelle, que não fazia nem quinze anos que era Aes Sedai. Com base em coisas que já haviam sido ditas, Elayne sabia que existiam Verdes em Salidar que já usavam o xale havia ao menos cinquenta anos, embora nenhuma delas exibisse um único fio grisalho. Se Myrelle estivesse presente, toda a força de Elayne não teria valido de nada caso a líder da sua Ajah quisesse manter Aviendha ali. Como não era o caso, apenas Shana, uma Branca dos olhos saltados que Elayne achava parecida com um peixe, não fez mais que abrir a boca um pouco mais e depois tornar a fechá-la, ainda que de forma bem contrariada, após Elayne ter erguido uma das sobrancelhas.

As cinco mais que comprimiram os lábios, mas Elayne ignorou a tensão.

— Obrigada — agradeceu, com um sorriso sem vontade.

Aviendha jogou uma trouxa escura nas costas, mas só deixou de hesitar quando Elayne de fato pediu para ela ir. Já na rua, Elayne disse:

— Peço desculpas por elas. Vou tomar cuidado para que não se repita. — Ela devia ser capaz de proteger Aviendha, tinha certeza. Ou Egwene seria, por certo. — Infelizmente não há muitos lugares para se conversar a sós. Meu quarto é bem quente a esta hora do dia. Poderíamos tentar encontrar uma sombra, ou tomar um chá, caso elas ainda não tenham entupido você.

— No seu quarto. — Ela não chegou a ser exatamente rude, mas estava claro que Aviendha não queria conversar, ainda não. De repente, ela disparou na direção de uma carroça com lenha que passava e apanhou um dos galhos que seriam partidos em gravetos, maior que seu braço e mais grosso que seu polegar. A Aiel voltou para perto de Elayne e começou a descascá-lo com a faca do seu cinto. A lâmina afiada raspava os galhinhos menores feito uma navalha. A expressão não era mais sofrida. Ela parecia determinada.