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Ainda assim, não eram os Aiel que deixavam Min hesitante — ao menos não só eles, pois já ouvira toda sorte de histórias terríveis sobre Aiel de véus negros. Ela usava casaco e calças da melhor e mais suave lã que se podia encontrar em Salidar, toda de um tom rosa-claro e com florezinhas azuis e brancas bordadas nas lapelas, nos punhos e pela lateral externa das pernas. A camisa também tinha o corte típico das vestimentas masculinas, mas era de seda creme. Depois que seu pai morrera, quando ainda estava em Baerlon, as tias tentaram transformá-la no que alegavam ser uma “mulher direita” — tia Miren talvez soubesse que, depois de Min passar dez anos nas minas usando roupas de menino, talvez fosse tarde demais para enfiar a sobrinha em vestidos, mas elas tentaram mesmo assim. Min combateu as tentativas com a mesma teimosia com que se recusara a aprender a manejar a agulha. Tirando aquele episódio infeliz quando estava servindo mesas na estalagem Pouso dos Mineiros — o lugar era barra-pesada, mas ela não passara muito tempo lá: assim que ficaram sabendo do novo trabalho de Min, Rana, Jan e Miren fizeram questão de tirá-la de lá, apesar dos protestos da sobrinha sobre já ter vinte anos. Tirando essa única vez, nunca usara um vestido de bom grado. Só que, ali parada, estava pensando que talvez devesse ter mandado fazer um, em vez de usar aquele conjunto de casaco e calças. Quem sabe um vestido de seda, com decote profundo e justo no corpete e…

Ele vai ter que me aceitar como sou, pensou, irritada, mexendo nas rédeas. Não vou mudar por homem nenhum. Ainda assim, nem tanto tempo antes Min teria usado roupas tão simples como as de um fazendeiro, não estaria com o cabelo quase até os ombros e arrumado em cachos, e não ouviria aquela vozinha sussurrando em sua mente: Você vai ser o que achar que ele quer que seja. Min massacrou aquelas palavras com a mesma força e intensidade com que massacrava qualquer cavalariço que tentava ser mais grosseiro e, com um mínimo a mais de delicadeza, esporou Rosa. Sentia ódio só de pensar em como as mulheres podiam ser fracas quando se tratava de um homem. Só que o problema é que tinha quase certeza de que, muito em breve, sentiria aquela fraqueza na pele.

Desmontou bem na frente dos portões do palácio e, examinando os Aiel com desconfiança, deu um tapinha amigável na égua, explicando que o chute não fora de propósito. Metade dos Aiel ali eram mulheres e, tirando uma, eram todas bem mais altas que ela. Os homens eram quase sempre tão grandes quanto Rand, alguns até maiores. Todos estavam bem atentos à sua presença — bem, pareciam atentos a tudo, então com certeza também estavam prestando atenção nela. De tão atentos, parecia que nenhum deles sequer piscava. Portavam lanças e broquéis, além dos arcos presos às costas e as aljavas na cintura, junto das facas largas — pareciam prontos para matar. Aquelas tiras de pano negro pendendo sobre o peito deviam ser os véus. Já ouvira falar que os Aiel não matavam ninguém sem cobrir os rostos. Espero que seja verdade.

Decidiu falar com a menor mulher ali. O rosto bronzeado, emoldurado por um cabelo ruivo reluzente e tão curto quanto Min usava antes, era tão rígido que poderia muito bem ter sido entalhada em madeira, mas a mulher chegava até a ser um pouco mais baixa que ela.

— Vim ver Rand al’Thor — anunciou, um tanto insegura. — O Dragão Renascido. — Aqueles Aiel não piscavam nunca? — Eu me chamo Min. Ele me conhece, e trago uma mensagem importante.

A ruiva se virou para as outras Aiel, fazendo alguns gestos rápidos com a mão livre. Quando ela se virou de volta para responder, as mulheres estavam rindo.

— Vou levá-la até ele, Min. Mas se ele não souber quem você é, vai sair de lá muito mais rápido do que entrou. — Algumas das Aiel também riram disso. — Eu me chamo Enaila.

— Ele me conhece — insistiu Min, ruborizando. Levava um par de facas escondidas nas mangas do casaco. Aprendera a usar as lâminas com Thom Merrilin, mas tinha a sensação de que aquela Enaila não teria dificuldades em desarmá-la e descascá-la com as próprias facas. Viu uma imagem tremeluzir sobre a cabeça da mulher, mas desapareceu rápido. Alguma guirlanda, mas não tinha ideia do que poderia significar. — É para eu levar minha égua junto? Acho que Rand não está com saudades dela. — Para sua surpresa, alguns dos Aiel deram risadinhas, tanto homens quanto mulheres, e Enaila contorceu os lábios, como se também quisesse rir.

Um sujeito veio pegar Rosa — também parecia Aiel, apesar dos olhos tristonhos e do robe branco —, então ela acompanhou Enaila portões adentro, cruzando um largo pátio até o Palácio propriamente dito. Foi um certo alívio ver serviçais de uniforme vermelho e branco atravessando apressados os corredores repletos de tapeçarias, todos observando os Aiel que ficavam por ali com cautela — mas a mesma cautela com que olhariam para um cão estranho. Min já estava achando que encontraria um Palácio povoado apenas de Aiel, com Rand cercado por aquela gente, talvez até usando casaco e calças naqueles tons de marrom, cinza e verde e encarando-a sem nunca piscar.

Enaila a levou até portas duplas, largas e imensas, entalhadas com leões. Estavam abertas, e ela fez uma pausa e deu um aceno para a Aiel que estava de guarda. Todas ali eram mulheres. Uma delas, de cabelo claro e consideravelmente mais alta do que a maioria dos homens, remexeu os dedos em resposta.

— Espere aqui — advertiu Enaila, e entrou.

Min fez menção de segui-la, mas, em um movimento despreocupado, a Aiel de cabelos claros bloqueou seu caminho com a lança — quer dizer, talvez não tenha sido tão despreocupado, mas Min não ligava. Conseguia ver Rand dali.

Ele estava sentado em um grande trono dourado que parecia todo feito de Dragões, usando um casaco vermelho cheio de brocados de ouro, e, para a surpresa de Min, portava um cabo de lança borlado verde e branco. Um segundo trono, também dourado, repousava sobre um pedestal logo atrás, esse com um leão de pedras preciosas brancas encrustado no fundo vermelho. O Trono do Leão, segundo os rumores. Bem, Rand poderia estar usando o trono até como apoio para os pés e Min não teria se importado. Ele parecia cansado. Ah, e era tão bonito que ela sentia um aperto no peito. Via imagens dançando ao redor dele, sem parar. Quando aquela enxurrada acontecia com as Aes Sedai e os Guardiões, ela sempre tentava sair de perto — não sabia o que significavam as visões, não mais do que saberia se fosse outra pessoa qualquer, mas as visões estavam sempre lá. Com Rand, Min precisava se concentrar para vê-las, senão ficaria apenas encarando o rosto dele. Uma das imagens ela já conhecia, pois a vira toda vez que esteve diante dele: milhares de luzes cintilantes, como estrelas ou pirilampos, investiam contra uma massa escura enorme, querendo preenchê-la, mas acabavam engolidas. Parecia que tinha mais luzes do que nunca, mas a escuridão também absorvia os pontos brilhantes mais depressa. E tinha algo mais, algo novo: uma aura amarela, marrom e roxa que fez seu estômago se retesar.

Tentou examinar as imagens dos nobres parados diante de Rand — só podiam ser nobres, com aqueles casacos bordados e ricos vestidos de seda —, mas não havia o que ver — e era quase sempre assim, com quase todos; quando ela de fato via algo, era quase certo que não teria ideia do que a imagem predizia. Ainda assim, estreitou os olhos e tentou. Se conseguisse identificar uma imagem, uma aura que fosse, talvez pudesse ajudar Rand. Pelas histórias que ouvira desde que chegara a Andor, Rand parecia precisar de toda a ajuda que pudesse ter.

Suspirando pesadamente, ela enfim desistiu. Estreitar os olhos e forçar a vista só faria diferença se houvesse o que ver.

Foi quando notou que os nobres estavam se retirando. Rand se levantou e Enaila gesticulou para que ela entrasse. Rand estava sorrindo, e Min achou que o coração fosse sair pela boca. Então era assim que se sentiam aquelas mulheres de quem ela tanto rira ao vê-las se jogando aos pés de algum homem. Não. Ela não era frívola. Era mais velha que Rand, dera seu primeiro beijo quando, para ele, pastorear ovelhas ainda era a coisa mais divertida do mundo, tinha… Luz, por favor, que meus joelhos não cedam.