Rand largou o Cetro do Dragão na poltrona em que estivera sentado, saltou do estrado de um pulo só e atravessou correndo o Grande Salão. Assim que alcançou Min, agarrou-a em um abraço e a rodopiou no ar várias vezes, sem nem esperar Dyelin e os outros saírem. Alguns nobres ficaram olhando. Que olhassem à vontade: Rand não estava nem aí.
— Luz, Min, mas como é bom ver seu rosto!
Ele riu. Era um rosto consideravelmente melhor que as feições pétreas de Dyelin ou de Ellorien. E teria ficado feliz em vê-la mesmo que Aemlyn, Arathelle, Pelivar, Luan e todos os outros parecessem felizes com a notícia de que Elayne estava a caminho de Caemyln, em vez de simplesmente o encararem cheios de dúvida, parecendo achar que ele estava mentindo.
Quando ele a botou de volta no chão, Min se deixou cair contra seu peito, abraçando-o com força, ofegante.
— Ah, me desculpe — pediu Rand. — Não queria deixar você tonta. É que estou mesmo feliz em vê-la.
— Bem, e você realmente me deixou tonta, seu pastorzinho cabeça de lã — balbuciou ela contra seu peito. Min se afastou e, de cara feia, ergueu os olhos de cílios compridos para ele. — A cavalgada foi bem longa, cheguei praticamente no meio da noite, e você me joga de um lado e para o outro feito uma saca de aveia. Não lhe ensinaram a ter modos?
— Cabeça de lã! — Ele riu baixinho. — Min, pode me chamar de mentiroso, se quiser, mas juro que senti saudade de ouvir você me chamar assim.
Ela não respondeu, só ergueu os olhos para ele, já sem fazer cara feia. Seus cílios de fato pareciam mais compridos do que ele se recordava.
Rand se lembrou de onde estavam, então segurou sua mão e a puxou atrás de si. O salão do trono não era lugar para reencontrar velhos amigos.
— Vamos, Min. Podemos tomar um ponche gelado na sala de estar. Somara, vou para meus aposentos. Pode mandar todo mundo embora.
Somara não pareceu muito feliz com aquilo, mas dispensou todas as Donzelas, restando apenas ela mesma e Enaila. Ambas pareciam um pouco emburradas, o que Rand não compreendeu. Ele só permitira que Somara mantivesse tantos Aiel dentro do palácio porque Dyelin e os outros tinham ido visitá-lo. E Bashere estava fora, no acampamento dos cavaleiros dele ao norte da cidade, pelo mesmo motivo. As Donzelas ficaram no palácio como lembrete, e Bashere fora mandado para longe porque talvez fosse lembrete demais. Esperava que aquelas duas não planejassem dar uma de mãe — achava que elas se revezavam mais do que deviam na guarda dele, mas Nandera era tão irredutível quanto Sulin, quando ele tentava definir que donzela deveria fazer o quê. Rand até podia comandar as Far Dareis Mai, mas não era uma Donzela, e aquilo não era da sua conta.
Enquanto conduzia Min pela mão pelo corredor, viu que ela analisava as tapeçarias, as mesas, os baús incrustados, as vasilhas douradas e os vasos compridos de porcelana do Povo do Mar arrumados em alguns nichos. A jovem examinou Enaila e Somara da cabeça aos pés três vezes, mas mal olhou para ele e não disse uma palavra. Sua mão envolvia toda a dela, e Rand podia sentir a pulsação de Min mais acelerada que cavalos a galope. Torcia para que ela não estivesse irritada de verdade por ele tê-la deixado tonta.
Para seu imenso alívio, Somara e Enaila assumiram seus lugares uma de cada lado da porta. Ainda assim, elas apenas o encararam quando ele pediu ponche, e Rand precisou se repetir. Na sala de estar, ele tirou o casaco e o jogou sobre uma cadeira.
— Sente-se, Min. Sente-se. Fique à vontade. Alguém já deve estar trazendo o ponche. Agora me conte tudo. Por onde você andou, como chegou aqui, por que chegou no meio da noite. Não é muito seguro viajar de noite, Min. E menos ainda nesses tempos. Vou botar você nos melhores aposentos do Palácio. Quer dizer, no segundo melhor, já que estou ocupando os melhores. E vou destacar uma escolta Aiel para levar você aonde quiser. Qualquer encrenqueiro vai tirar o chapéu e abaixar a cabeça na hora, isso se não sair correndo pelas ruas laterais de onde você estiver passando.
Rand achou que ela fosse rir, parada junto à porta, mas Min apenas respirou fundo e sacou uma carta do bolso.
— Não posso contar de onde vim. Eu prometi, Rand. Mas Elayne está lá e…
— Salidar — interrompeu ele, então sorriu ao vê-la arregalar os olhos, surpresa. — Eu sei de algumas coisas, Min. Talvez mais do que acham que sei.
— É… parece que sabe mesmo — retrucou ela, sem forças. Então empurrou a carta nas mãos dele e se afastou de volta. Com a voz mais firme, completou: — Jurei que lhe entregaria isto assim que o visse. Leia de uma vez.
Rand reconheceu o selo — um lírio pressionado na cera amarela escura — ao lado de seu nome, escrito na caligrafia floreada de Elayne, e hesitou antes de abrir. Era melhor acabar tudo de uma vez, e Rand tomara o cuidado de acabar com tudo mesmo, mas não conseguiu se conter ao ver aquela carta em suas mãos. Leu, então se sentou, sem reparar que estava em cima do casaco, e leu de novo. Era bem curta.
Rand,
Deixei meus sentimentos bem claros, e saiba que nada mudou. Espero que você sinta por mim o mesmo que sinto por você. Min pode ajudá-lo, se você aceitar os conselhos dela. Eu a amo como a uma irmã, e espero que você a ame da mesma forma.
A tinta devia estar acabando, porque as últimas linhas saíram em um garrancho apressado, bem diferente da caligrafia elegante do restante da mensagem. Min passara aquele tempo todo inquieta, se remexendo e tentando ler a carta sem que ele reparasse, mas se afastou depressa quando ele se levantou para tirar o casaco de baixo do corpo — o angreal do homenzinho gordo estava no bolso, incomodando.
— Será que todas as mulheres fazem o possível para enlouquecer os homens? — murmurou.
— O quê?
Rand fitou a carta e murmurou, quase falando sozinho.
— Elayne é tão linda que é difícil tirar os olhos dela, mas metade das vezes não sei se ela quer que eu a beije ou que eu me ajoelhe a seus pés. E é verdade que algumas vezes eu quis mesmo me ajoelhar e… e idolatrá-la, a Luz que me ajude. Aqui ela diz que eu sei como ela se sente, mas recebi duas cartas antes desta; uma cheia de declarações de amor e a outra dizendo que ela nunca mais queria me ver. Ah, quantas vezes não fiquei desejando que a primeira fosse verdade e a outra fosse alguma brincadeira, um engano ou… E tem Aviendha. Ela também é bem bonita, mas cada dia era uma batalha. Nada de me beijar, não mais, e não deixava nenhuma dúvida do que sente por mim. E acho que ela ficou mais feliz de poder se afastar de mim do que eu fiquei em vê-la partir. Só que continuo achando que vou vê-la sempre que me viro. E, quando não a vejo, é como se faltasse um pedaço de mim. Até sinto falta daquela luta constante, e algumas vezes me pego pensando: há coisas pelas quais vale a pena lutar.
Algo no silêncio de Min o fez erguer os olhos. Ela o encarava, o rosto tão inexpressivo quanto o de uma Aes Sedai.
— Ninguém nunca lhe falou que não é educado falar de uma mulher para outra? — Sua voz estava completamente neutra. — E muito menos de duas outras?
— Min, você é minha amiga — protestou ele. — Não vejo você como mulher.
Era a coisa errada a se dizer, e ele soube assim que as palavras saíram da boca.
— Ah, é?
Ela arrancou o casaco e plantou as mãos na cintura. Não era aquela postura irritada tão familiar, nada disso. Apoiara as mãos de forma que os dedos apontavam para cima, em vez de na direção do umbigo, e por algum motivo isso fazia toda a diferença. Além disso, ela ficou parada com um dos joelhos um pouco flexionado, e aquilo… Pela primeira vez, Rand a enxergou de verdade. Não viu apenas sua amiga Min, também notou sua aparência. Ela não usava o casaco marrom e comum e as calças de sempre, e sim um traje vermelho-claro com bordados. E não usava mais o cabelo cortado de qualquer jeito e mal cobrindo as orelhas, agora tinha cachos que chegavam até o pescoço.