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Contaria só uma parte, claro. Ninguém iria saber de tudo o que ele tinha que aguentar de Enaila, Somara e algumas das outras. Bem, todas as Donzelas já sabiam, porém mais ninguém precisava ouvir aquilo.

Melaine entrou na sala daquele jeito dos Aiel. Ou seja, meteu a cabeça porta adentro, deu uma espiada e só então entrou de vez no aposento. Rand nunca conseguira descobrir o que faria um Aiel recuar e esperar do lado de fora. Chefes, Sábias e Donzelas já tinham entrado com ele só de roupas de baixo, deitado ou tomando banho. A Sábia de cabelos dourados se aproximou com um tilintar dos braceletes, aninhou-se no tapete poucas passadas diante dele e de Min, mantendo as pernas cruzadas, e ajeitou as saias com todo o cuidado. Seus olhos verdes observavam Min com uma expressão neutra.

Dessa vez, Min não fez nem menção de se levantar. Aliás, pelo modo como a jovem estava se apoiando nele, com a cabeça em seu peito, e pela respiração cada vez mais lenta, Rand achava que ela talvez estivesse pegando no sono. Min não tinha dito que chegara no meio da noite, afinal? De repente, reparou na mão que mantinha encaixada na curva da cintura dela e agarrou, determinado, o braço da cadeira. Min soltou um suspiro quase queixoso e se aconchegou mais a seu corpo. Com certeza estava quase dormindo.

— Tenho novidades — informou Melaine —, mas não sei bem qual é a mais importante. Egwene foi embora das tendas, está a caminho de um lugar chamado Salidar, onde há outras Aes Sedai. Essas são as Aes Sedai que talvez o apoiem, e não viemos falar delas antes porque Egwene nos pediu. Bem, agora venho lhe dizer que essas mulheres são teimosas, indisciplinadas, briguentas e convencidas além da conta. — A voz foi se acalorando conforme a Sábia falava, pontuando as palavras com um balançar enfático da cabeça.

Ah, então uma das Andarilhas dos Sonhos de Cairhien tinha entrado nos sonhos de Melaine e conversado com ela — era praticamente tudo o que sabia a respeito das capacidades das Andarilhas; uma habilidade que poderia lhe ser útil, mas era raro as Sábias se dispuserem a colocá-la à disposição dele. A novidade era toda aquela irritação de Melaine. Os Aiel quase todos agiam como se achassem que as Aes Sedai fossem lhes dar uma surra a qualquer instante e ainda acreditavam que seria merecido, tendo toda a intenção de suportar cada golpe sem nem vacilar. Até as Sábias falavam com respeito das Aes Sedai, isso quando falavam. Algumas coisas tinham mesmo mudado. Ainda assim, Rand respondeu com um simples:

— Eu sei. — Se Melaine tivesse qualquer intenção de lhe contar por que pensava daquela forma, contaria sem que ele perguntasse. Se ela não quisesse contar, perguntar não traria nenhuma resposta. — E também sei sobre Egwene e sobre Salidar. Tem nove mulheres de Salidar aqui em Caemlyn. Esta aqui é Min, que veio com elas.

Min se remexeu contra seu peito e murmurou qualquer coisa. Lews Therin voltou a resmungar, mas baixo demais para que ele conseguisse entender, e Rand ficou feliz com a distração da sensação de Min em seu colo. Tê-la ali era bem… agradável. Min ficaria ofendidíssima se soubesse — ou, considerando a promessa que ela fizera mais cedo, talvez fosse rir. Talvez. Ela às vezes podia ser bem temperamental.

Melaine não demonstrou nenhuma surpresa por ele saber, nem sequer mexeu no xale. Desde que se casara com Bael, a mulher parecia estar mais… bem, “calma” não era bem o termo, uma palavra plácida demais para Melaine. Mas de fato ficara menos irritadiça.

— Essa era a minha segunda notícia. Você precisa tomar muito cuidado com elas, Rand al’Thor, e ter mão firme. Só assim elas vão respeitá-lo.

É, as coisas tinham mesmo mudado.

— Você vai ter duas filhas — murmurou Min. — Gêmeas idênticas.

Melaine compensou toda a falta de surpresa de antes com o assombro em ouvir aquelas palavras de Min. Ela arregalou os olhos e quase pulou de susto.

— Como você…? — começou, incrédula, mas parou para se recompor. Quando prosseguiu, ainda parecia incrédula. — Eu mesma só fui ter certeza de que carregava uma criança hoje de manhã. Como você sabia?

Min enfim se levantou, lançando a Rand um olhar que ele conhecia muito bem — ela o culpava, sabia a Luz por que motivo. Até mesmo Min tinha lá seus defeitos, mesmo que pequenos. Ela começou a remexer no casaco, olhando para todos os lados, menos para Melaine. Quando seus olhos pousaram nele de novo, foi com uma variação do primeiro olhar. Rand a metera naquilo, ele é que devia tirá-la da enrascada.

— Está tudo bem, Min — tranquilizou-a Rand. — Melaine é uma Sábia, imagino que ela saiba de coisas que a deixariam de cabelo em pé. — Só que o cabelo de Min já estava um tanto para cima, bagunçado depois de ela ter passado tanto tempo encostada nele. Mas continuava sedoso…. como as mulheres conseguiam? — Tenho certeza de que ela vai jurar guardar seu segredo, e você pode confiar na promessa dela.

Melaine quase atropelou as palavras, tão rápida foi ao jurar segredo.

Não adiantou nada: Rand recebeu mais um olhar daqueles antes que Min se sentasse ao lado de Melaine. Tinha um toque de repreensão. Como Min esperava que ele fosse conseguir tirá-la dessa enrascada? Melaine não deixaria o assunto de lado só por um pedido seu, mas manteria a promessa e guardaria segredo. Pelo menos era muito boa em não contar nada para Rand.

Apesar de toda a relutância, Min deu uma explicação bem mais detalhada do que ele próprio já ouvira — o que talvez tenha sido resultado das muitas perguntas de Melaine e também da sua mudança de atitude. Era como se a Sábia tivesse passado a pensar que a habilidade de Min fazia dela uma igual, não uma mera aguacenta.

— Impressionante — afirmou Melaine, por fim. — É como interpretar um sonho sem sonhar. Gêmeos, é? Duas garotas? Bael vai ficar tão feliz… Dorindha lhe deu três filhos, mas nós duas sabemos que ele queria uma menina.

Min piscou, atônita, e ficou sem entender. Claro. Como ela poderia saber daquela história de esposa-irmã?

Dali, as duas logo mudaram de assunto para os partos. Nenhuma delas nunca tivera filhos, mas ambas já haviam auxiliado parteiras.

Rand pigarreou bem alto. Não que algum daqueles detalhes o incomodasse, já ajudara no parto de ovelhas, éguas e vacas. Só ficava irritado de as duas ficarem ali, sentadas, entre cochichos, como se ele tivesse deixado de existir. Min e Melaine só o encararam quando ele pigarreou uma segunda vez, alto o bastante para cogitar se teria machucado a garganta.

Melaine se inclinou ainda mais para perto de Min e cochichou, mas em um tom que daria para ouvir da sala ao lado:

— Os homens sempre desmaiam.

— E sempre no pior momento possível — concordou Min, no mesmo tom.

O que elas diriam se o vissem no celeiro do pai de Mat, coberto de sangue e de fluidos de parto até os ombros, com três costelas quebradas pelo coice que levara — era o primeiro parto da égua, que estava apavorada. Ela não coiceou mais na segunda gestação. Mas, ah, que belo potro fora aquele.

— Bem, antes que eu desmaie — começou, sarcástico, juntando-se às duas no tapete —, talvez seja melhor uma de vocês falar mais sobre as Aes Sedai?

Teria se levantado ou se sentado no chão com Melaine mais cedo, se não estivesse com o colo ocupado. Entre os Aiel, apenas os chefes de clãs possuíam cadeiras, que só eram usadas para passar julgamentos ou aceitar a submissão de um inimigo.

As duas mulheres assumiram uma expressão culpada — e era bom que tivessem mesmo entendido a reprimenda. Nenhuma falou nada, mas ajustaram respectivamente o xale e o casaco, sem necessidade, e não cruzaram o olhar com o dele. Tudo acabou assim que elas começaram a falar. Min continuou a insistir que as Aes Sedai de Salidar não representavam perigo para Rand e que poderiam sim prestar auxílio, se fossem tratadas direito — ou seja: com o máximo respeito em público. Ela contaria a Rand sobre cada sussurro que escutasse, quando estivessem a sós.

— Entenda que não estou traindo ninguém, Melaine. Conheci Rand muito antes de encontrar qualquer Aes Sedai. Exceto Moiraine, é verdade, mas o fato é que ele conquistou minha lealdade muito antes de ela morrer.