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Escondida sob as meias guardadas em uma cômoda encrustada de lápis-lazúli estava uma bolsa de pano um tanto larga, e o conteúdo retiniu quando ele a enfiou em um dos bolsos do casaco. Pegou outra bolsa de veludo, essa bem menor, e a deixou por cima do angreal. O prateiro que confeccionara os conteúdos da bolsa maior ficara mais do que feliz por servir ao Dragão Renascido e tentara recusar o pagamento só pela honra do trabalho. O ourives que fabricara a peça única na bolsa de veludo exigira quatro vezes o que Bashere dissera que o serviço valia e ainda pedira que uma dupla de Donzelas o escoltasse até ele acabar.

Já fazia um tempo que ele andava planejando essa ida até a fazenda. Não gostava de Taim, e Lews Therin sempre aparecia quando o sujeito estava por perto, mas não podia continuar evitando a escola. Ainda mais agora. Até onde sabia, Taim conseguira manter os alunos longe da cidade — pelo menos ele não ficara sabendo de nenhum incidente, e teria ouvido relatos —, mas as notícias de Merana e a missão diplomática acabariam chegando à fazenda junto com as carroças de suprimentos ou com os novos alunos. E, sabendo como eram os boatos, nove Aes Sedai logo se tornariam nove irmãs Vermelhas — ou noventa — caçando homens para serem amansados. Qualquer que fosse a reação diante da novidade, de alunos fugindo à noite a alunos vindo a Caemlyn para dar o primeiro golpe, ele tinha que se adiantar antes que os rumores provocassem pânico.

Já corriam boatos demais sobre as Aes Sedai pelas ruas de Caemlyn, outro motivo para ir até lá. Considerando o que se ouvia nas ruas, Alanna, Verin e as garotas de Dois Rios já tinham virado quase meia Torre, e ainda havia uma infinidade de outras histórias de Aes Sedai chegando escondidas na cidade, esgueirando-se portões adentro durante a noite. Havia um boato persistente de que uma Aes Sedai andava Curando gatos de rua, e o próprio Rand já estava quase acreditando naquilo. Ainda assim, todos os esforços de Bashere para verificar a veracidade dos rumores o levavam a crer que a história era tão verídica quanto o boato de que as mulheres que escoltavam o Dragão Renascido por toda parte eram, na verdade, Aes Sedai disfarçadas.

Rand se virou, sem nem notar que o fazia, e ficou encarando uma parede listrada com relevos de leões e rosas — na verdade, fitava algo além. Alanna não estava mais na estalagem O Sabujo de Culain. E estava tensa; se ela não fosse Aes Sedai, Rand poderia dizer que a mulher estava com os nervos à flor da pele. Rand acordara no meio da noite porque ela estava chorando, de tão forte fora a sensação. Às vezes, quase se esquecia de que ela estava ali, até que uma coisa dessas acontecia. Bem, pelo visto era possível se acostumar a qualquer coisa. Naquela manhã, Alanna estava… ansiosa — é, essa parecia ser a palavra certa. Rand poderia apostar Caemlyn inteira que, se seguisse em linha reta até Alanna, ele a encontraria na estalagem A Coroa de Rosas. E poderia apostar que Verin estava junto. Não eram nove Aes Sedai. Eram onze.

Lews Therin murmurou, desconfortável. Um homem se perguntando se estava ou não encurralado. E Rand se perguntava o mesmo. Onze, e bastava treze para capturá-lo tão fácil quanto se apanhassem uma criança. Isso se ele lhes desse a chance. Lews Therin começou a rir baixinho, uma risada mesclada a um choro rouco. Então foi para longe outra vez.

Rand refletiu um pouco sobre Somara e Enaila, então abriu um portão ali mesmo, em cima do tapete com estampas azuis e douradas do quarto. Carrancudas como estavam naquela manhã, uma das duas com certeza acabaria soltando alguma bronca antes que voltassem da fazenda. Além do mais, considerando as visitas anteriores, não queria os alunos preocupados, com medo de serem alvo das quase vinte Donzelas de sua escolta. Era o tipo de coisa que não ajudava muito a aumentar a autoconfiança de seus homens, e eles precisariam de autoconfiança para sobreviver.

Bem, em uma coisa concordava com Taim: agarrado a saidin, um homem sabia que estava vivo, e isso ia além dos sentidos aguçados. Apesar da mácula do Tenebroso, apesar daquela sensação oleosa de matéria em decomposição manchando os ossos, era quando o Poder tentava derreter seu corpo e congelá-lo até estilhar, era quando um passo em falso ou um momento de fraqueza significava a morte… Luz, era então que um homem sabia que estava vivo. Ainda assim, afastou-se da Fonte logo que adentrou o portão, e não só para se livrar da mácula antes que o estômago decidisse se esvaziar — ela agora parecia ainda pior, ainda mais vil, se é que era possível. Não, abandonara o Poder porque não se achava capaz de encarar Taim com saidin ainda pulsando no corpo enquanto Lews Therin ocupava sua mente.

A vegetação rasteira da clareira estava mais marrom do que ele se lembrava, com mais folhas estalando sob suas botas e menos ainda nas árvores. Alguns pinheiros estavam amarelos, e várias folhas-de-couro pareciam mortas, os troncos cinzentos e desfolhados. Mas a mudança da clareira não era nada comparada com a fazenda, que fora alterada quase além do reconhecível.

A casa sede ficara muito melhor com a nova cobertura de sapé, e o celeiro decerto fora inteiramente reconstruído, já que estava bem maior e nem um pouco torto, com um enorme cercado cheio de cavalos na lateral, enquanto os currais de vacas e ovelhas tinham sido deslocados mais para longe. As cabras também estavam presas, e o galinheiro tinha fileiras de gaiolas organizadas. Tinham derrubado mais um tanto da floresta, que parecia mais distante, e havia uma fileira de mais de dez barracas brancas e compridas atrás do celeiro. Ali perto também se viam os pilares de madeiras de duas construções bem maiores que a sede, com um grupo de mulheres sentadas do lado de fora, costurando e cuidando de algumas crianças que jogavam bola, rolavam argolas e brincavam de boneca. Ainda assim, a maior mudança era nos alunos: a maioria agora usava casacos pretos justos de gola alta, e apenas poucos ainda suavam. Devia haver bem mais de cem, e de todas as idades. Rand não sabia que as viagens de recrutamento de Taim tinham sido tão bem-sucedidas. Saidin parecia tomar o ar. Alguns homens praticavam tessituras, ateando fogo a cepos, espatifando rochas ou enredando uns aos outros em espirais de Ar; enquanto outros canalizavam para apanhar água — sustentando os baldes com Ar —, empurrar carroças de esterco até o celeiro ou empilhar lenha. Mas nem todos canalizavam. Henre Haslin mantinha o olhar atento a uma fileira de homens de peito nu, todos praticando as posturas com espadas de treino. Haslin, que tinha apenas uma leve penugem de cabelo branco e um nariz bulboso vermelho, suava mais que seus alunos, sem dúvida por conta da ânsia por vinho, mas ele os observava com atenção, corrigindo as formas com tanto afinco quanto na época em que era Mestre Espadachim da Guarda da Rainha. Saeric, um Goshien Água Vermelha de cabelo grisalho que não tinha mais mão direita, encarava duas fileiras de homens sem camisa com aquele olhar de pedra. Os homens de uma fileira praticavam chutes no ar, alternando os pés que erguiam bem acima da cabeça enquanto o outro ficava plantado no chão. A outra fila praticava socos, golpeando o nada à sua frente com toda a velocidade que conseguiam. A situação mudara completamente desde sua última visita — aquele não era mais o grupo deplorável de antes.

Um sujeito de casaco preto já quase chegando à meia-idade parou diante dele. Tinha o nariz afilado e um sorriso sarcástico.

— E quem é você? — inquiriu, com seu sotaque taraboniano. — Deve ter vindo aqui para a Torre Negra querendo aprender, sim? Devia ter esperado o carroção que vem de Caemlyn. Assim teria aproveitado pelo menos mais um dia com esse seu belo casaco.

— Eu sou Rand al’Thor — rebateu Rand, tranquilo. Mantivera a voz tranquila para não deixar escapar o súbito arroubo de raiva. Não custava nada ser educado, e se aquele idiota não reparasse logo que era melhor ser gentil do que pagar o preço…