O desdém apenas se acentuou.
— Então você é ele, é? — O homem o encarava de cima a baixo, insolente. — Mas você não parece tão magnânimo. Acho que eu mesmo poderia…
O fluxo de Ar só se formou quase no instante em que o golpe acertou o sujeito, um sopapo bem no pé do ouvido. Ele caiu duro no chão.
— Às vezes precisamos de uma disciplina mais firme — comentou Taim, aproximando-se para examinar o homem caído. Sua voz saiu quase divertida, mas os olhos negros que o encaravam de viés lançaram um olhar quase assassino ao homem que golpeara. — Não dá para dizer a um homem que ele tem poder suficiente para fazer a terra tremer e depois esperar que ele seja humilde. — Os Dragões que subiam pelas mangas do casaco preto reluziam à luz do sol. O dourado devia ser bordado com fios de ouro, mas o que fazia aquele dragão azul brilhar tanto? Taim gritou de repente: — Kisman! Rochaid! Levem Torval daqui e joguem água na cara dele até o infeliz acordar. E nada de usar a Cura. Uma dor de cabeça talvez ensine a ele a segurar a língua.
Dois sujeitos de casaco preto vieram correndo. Eram mais jovens que Rand. Os dois se curvaram sobre Torval, mas pararam de repente e olharam, meio culpados, para Taim. Um instante depois, Rand sentiu saidin preenchê-los. Fluxos de Ar ergueram o corpo flácido de Torval, e a dupla saiu andando rápido, levando o sujeito flutuando.
Eu devia ter matado esse homem há muito tempo, grunhiu Lews Therin. Devia… devia… Ele tentou alcançar a Fonte.
Não, que o queime!, pensou Rand. Não, você não vai! Você não passa de uma droga de voz! Lews Therin fugiu, seu gemido se perdendo na distância.
Rand respirou fundo. Taim o encarava, ainda ostentando aquele meio sorriso.
— Você ensina os homens a Curar?
— A primeira coisa que aprendem é o pouco que sei. Isso antes até de como não morrer de tanto suar, neste calor. Qualquer arma perde a utilidade se não pode mais ser usada logo na primeira ferida. Até o momento, um se matou agarrando demais da Fonte e três acabaram por se exaurir, mas ninguém morreu por conta de uma espada. — Ele conseguiu impor uma boa dose de desdém à palavra “espada”.
— Entendi — respondeu Rand, sem rodeios. Um morto e três exauridos. Será que as Aes Sedai perdiam tantas mulheres, na Torre? Bem, em todo caso, elas iam com mais calma, porque podiam se dar ao luxo. — O que é essa Torre Negra de que o sujeito estava falando? Não gosto nada disso, Taim.
Lews Therin voltara a resmungar e a se lamuriar de novo, mas ainda não dava para distinguir nenhuma palavra.
O sujeito de nariz aquilino deu de ombros, examinando a fazenda e os alunos com o olhar orgulhoso de um dono.
— É só um nome que os alunos deram. Não dava para continuar chamando o lugar de “fazenda”. Eles não se sentiam bem com isso e queriam algo mais. Então veio a Torre Negra, como contraponto à Torre Branca. — Taim inclinou a cabeça, examinando Rand quase de soslaio. — Posso reprimir isso, se você quiser. É fácil tirar uma palavra da boca dos homens.
Rand hesitou. Talvez fosse mesmo fácil tirar uma palavra da boca daqueles homens, mas não das mentes. O lugar precisava mesmo de um nome, não tinha pensado nisso antes. E por que não Torre Negra? Se bem que, examinando a casa sede e a estrutura das novas construções — que eram maiores, mas ainda eram apenas madeira —, aquele nome até o fazia abrir um sorriso.
— Deixe estar — retrucou.
Talvez, no começo, a Torre Branca também fosse igualmente humilde. Não que a Torre Negra fosse ter tempo de crescer e se transformar em algo que rivalizasse com a Branca — pensar nisso desfez o sorriso em seu rosto, e ele olhou com pesar para as crianças que brincavam ali perto. Assim como elas, Rand estava brincando, fingindo que havia alguma chance de construir algo duradouro.
— Reúna os alunos, Taim. Tenho algumas coisas para falar com eles.
Rand tinha ido até ali na expectativa de reunir os alunos, avaliar quantos eram, talvez falar de cima daquela velha carroça bamba que já parecia ter sido descartada. Mas Taim mandara fazer uma plataforma de pronunciamentos, um simples bloco de pedra preta lavrada e tão bem polida que brilhava feito um espelho à luz do sol, com dois degraus talhados na parte de trás. Ficava em um descampado atrás da casa sede, e o chão em volta era de terra batida, muito plano. As mulheres e crianças ficaram meio de lado, assistindo e ouvindo.
Do alto do bloco, Rand conseguia ter uma noção melhor de quão longe fora Taim com o seu recrutamento. Jahar Narishma, aquele jovem com a centelha de quem Taim lhe falara, tinha olhos escuros grandes como os de uma garota e um rosto pálido cheio de confiança; o rapaz usava o cabelo comprido em duas tranças com sinos de prata nas pontas. Taim tinha dito que fora até Arafel, mas Rand reconheceu a cabeça raspada e o coque shienarano em outro homem, e mais duas pessoas usavam os véus transparentes de Tarabon. Também notou olhos enviesados de Saldaea e homens baixos e de pele clara, um tipo tão comum em Cairhien. Um sujeito mais velho tinha a barba oleada e de corte pontiagudo, imitando um lorde taireno — coisa que sem dúvida não era, não com o rosto todo marcado de sol —, e pelo menos três ostentavam barbas sem bigode. Rand torcia para que Taim não tivesse despertado o interesse de Sammael, quando fora recrutar em Illian. Estava esperando ver homens jovens, mas os rostos imberbes de Eben e Fedwin faziam frente a cabeças grisalhas ou quase carecas, algumas com até mais fios cinza que a de Damer. Ora, pensando bem, não havia mistério — era bem compreensível haver tanto avôs quanto garotos querendo aprender.
Rand não sabia fazer discursos, mas já pensara bastante no que queria dizer àqueles homens. Só não pensara nas primeiras notícias, mas isso, com sorte, acabaria rápido.
— Todos vocês já devem ter ouvido histórias de que a Torre… a Torre Branca… está dividida. Bem, é verdade. Algumas Aes Sedai rebeldes podem decidir se juntar a mim, e elas enviaram emissárias. São nove, e estão em Caemlyn neste exato momento, esperando que eu dê o ar da graça. Então, quando ouvirem falar em Aes Sedai em Caemlyn, quero que não acreditem em qualquer boato. Vocês sabem por que elas estão lá e podem rir na cara do sujeito que vier contar histórias mirabolantes.
Não houve reação. Eles só ficaram ali, parados, encarando-o quase sem piscar. Taim tinha uma expressão sarcástica, muito sarcástica. Apalpando a sacola de pano maior no bolso do casaco, Rand prosseguiu com o discurso, entrando na parte que já planejara melhor.
— Vocês precisam de um nome. Na Língua Antiga, “Aes Sedai” significa “Servo ou Serva de Todos” ou algo bem próximo. Não é fácil traduzir a Língua Antiga. — Ele próprio só sabia umas poucas palavras, coisas que aprendera de Asmodean e de Moiraine, outras que tinham escapado de Lews Therin. Mas Bashere é que fornecera o que ele precisava. — Outra palavra na Língua Antiga é asha’man, que significa “guardião” ou “guardiões”. Ou “defensor”, e talvez signifique mais que isso. Como já disse, a Língua Antiga é muito flexível. Ainda assim, a melhor tradução parece ser “guardião”. Só que não é qualquer defensor ou guardião, a expressão asha’man não pode ser usada para definir um homem que defende uma causa injusta, nem nunca poderia ser usada para alguém mau. Um asha’man era um homem que defendia a verdade, a justiça e o que era certo para todos. Um guardião que não sucumbiria nem quando já não restasse esperança. — Só a Luz sabia como toda a esperança acabaria quando chegasse Tarmon Gai’don, isso se não acabasse antes. — E vocês estão aqui para se tornar um desses defensores. Quando terminarem o treinamento, serão considerados Asha’man.