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Ergueu-se uma onda de murmúrios, como folhas mexidas pela brisa, todas aquelas vozes repetindo a mesma palavra. Mas as vozes logo esmaeceram. Rostos atentos erguiam o olhar para ele, dava até para ver cada rosto ansioso para ouvir as palavras seguintes. Pelo menos era um pouco melhor que a reação anterior. A sacola de pano tilintou de leve quando ele a retirou do bolso do casaco.

— Aes Sedai começam como noviças, depois viram Aceitas, e então, por fim, são elevadas a Aes Sedai completas. Vocês também terão níveis, mas não como os delas. Não haverá expulsões ou dispensas. — Dispensas? Luz, faria tudo que estivesse a seu alcance para manter ali todo e qualquer homem capaz de canalizar. Tudo, menos amarrá-lo contra a vontade. — Quando um homem chegar à Torre Negra… — não gostava nada daquele nome — … será chamado de soldado, porque é isso que um homem se torna quando se junta a nós, o que todos vocês se tornaram: soldados na luta contra a Sombra. E não só contra a Sombra, também contra qualquer um que se oponha à justiça ou oprima os mais fracos. Quando um soldado atingir certo estágio em suas habilidades, passará a ser chamado de Dedicado, então vai poder usar isto. — Ele tirou da bolsa um dos distintivos que o prateiro confeccionara, uma pequena espada de prata reluzente e perfeita com o punho comprido, o guarda-mão inclinado e a lâmina um tanto curva. — Taim.

Taim andou a passos rígidos até o bloco de pedra, e Rand se curvou para prender a espada de prata no alto da gola de seu casaco. O broche parecia brilhar ainda mais forte sobre a lã negríssima. O rosto de Taim era tão expressivo quanto a pedra logo abaixo das botas de Rand, que lhe entregou a bolsa com um sussurro:

— Entregue os broches para aqueles que você achar que estão prontos. Mas tenha certeza de que estão prontos.

Ele se endireitou outra vez, torcendo para que houvesse broches o bastante. Não esperara ver tantos homens ali.

— Dedicados que avançarem o bastante em suas habilidades serão chamados de Asha’man. Eles usarão isto.

Rand tirou a bolsinha de veludo do bolso e pegou outro broche, erguendo-o para mostrar a todos. A luz do sol cintilava no ouro ricamente trabalhado e no belo esmalte vermelho da forma sinuosa idêntica à que havia no estandarte do Dragão. O broche também foi preso na gola de Taim, do lado oposto do anterior: uma espada e um Dragão reluziam de cada lado da garganta dele.

— Bem, imagino que eu tenha sido o primeiro Asha’man — disse Rand para os alunos —, mas Mazrim Taim é o segundo. — O rosto de Taim poderia fazer uma pedra parecer macia. Qual era o problema com ele? — Espero que todos acabem se tornando Asha’man, mas, quer esse dia chegue, quer não, lembrem-se de que todos somos soldados. Ainda há muitas batalhas por vir, talvez nem sempre as que esperamos. E, no fim de tudo, haverá a Grande Batalha. Queira a Luz que seja a última. Se a Luz brilhar sobre nós, vamos vencer. E vamos vencer porque não há outra opção que não a vitória.

Deveria ter havido algum viva qualquer quando ele terminou de falar. Rand não se achava o tipo de orador capaz de fazer a multidão dar pulos e vivas, mas aqueles homens sabiam por que estavam ali. Dizer a eles que acabariam vencendo deveria ter gerado uma resposta, mesmo que fraca. Mas a resposta foi apenas silêncio.

Rand desceu do bloco de pedra e Taim se pronunciou:

— Dispensados para suas aulas e tarefas.

Os alunos — os soldados — tomaram seus rumos. Continuavam quase que no mesmo silêncio de antes, no máximo trocavam alguns sussurros. Taim saiu na direção da casa sede; segurava a bolsa com os broches de espada com tanta força que era de se espantar que não tivesse sido espetado através do pano.

— Milorde Dragão por acaso tem tempo para uma taça de vinho?

Rand assentiu. Queria encerrar aquele assunto antes de voltar ao Palácio.

A sala de entrada da casa sede era exatamente o que se poderia esperar, com o chão simples muito bem varrido e poltronas de couro descombinadas dispostas diante de uma lareira de tijolinhos vermelhos tão limpa que parecia impossível que algum dia já tivesse sido acesa. Um pano branco com flores bordadas recobria uma mesinha. Sora Grady entrou sem fazer barulho e pousou em cima do pano uma bandeja de madeira com um cântaro azul brilhoso cheio de vinho e duas canecas brancas vitrificadas. Rand achava que o olhar dela não o machucaria mais, depois de tanto tempo, mas a acusação em seus olhos o fez suspirar de alívio quando ela saiu. Percebeu que ela estivera suando. Taim jogou a bolsa na bandeja e tratou de esvaziar uma caneca de vinho.

— Você não ensina aquele truque da concentração para as mulheres? — indagou Rand. — É crueldade deixar elas suando tanto enquanto seus maridos não transpiram uma só gota.

— A maioria não quer se meter — respondeu Taim, sem paciência. — Os maridos e os namoradinhos tentam ensinar, mas a maioria se recusa sequer a ouvir. Sabe, talvez tenha a ver com saidin.

Rand espiou o vinho escuro na caneca. Precisava ir com calma. Nada de estragar as coisas só porque ficara irritado.

— Fico feliz de ver o recrutamento indo tão bem. Você disse que acabaria fazendo frente à Torre… à Torre Branca… — Torre Branca, Torre Negra. O que diriam nas histórias? Isso se houvesse um futuro para ter histórias. — … e que conseguiria isso em menos de um ano. Se mantiver esse ritmo, vai mesmo conseguir. Não entendo como você encontra tantos homens.

— Se peneirar bastante areia, vai acabar encontrando alguns grãos de ouro — rebateu Taim, firme. — Já comecei a delegar o recrutamento, tirando uma ou duas incursões que eu mesmo faço. Tenho Damer, Grady e mais uns dez homens em quem posso confiar para saírem sozinhos por um dia, homens com idade suficiente para não fazer nenhuma burrice. E tenho jovens fortes o suficiente para abrir um portão, se não bem mais que isso, e eles acompanham os mais velhos que não são capazes de fazer essa tessitura. Em menos de um ano você terá os mil que queria. E aqueles que eu mandei para Caemlyn? Já montou um exército com eles? Já tem os seus mil por lá, até bem mais.

— Deixo isso a cargo de Bashere — afirmou Rand, sem se alterar.

Taim contorceu os lábios em desdém, e Rand pousou a caneca de volta na mesa antes que a quebrasse sem querer, tamanha a força com que a apertava. Pelo que sabia, Bashere estava em um acampamento em algum ponto a oeste da cidade, lidando com aqueles homens como podia, considerando que eram, como se dizia em Saldaea, um grupo de fazendeiros falidos, aprendizes fugitivos e artesãos sem sucesso que nunca tinham empunhado uma espada, montado um cavalo encilhado ou viajado para mais de cinco milhas além do local onde haviam nascido. Rand já tinha muito com o que se preocupar, não daria importância a esse tipo de coisa, e dissera a Bashere para que fizesse o que bem entendesse com os homens e que só o perturbasse se alguns se amotinassem.

Encarando Taim, que não fazia o menor esforço para esconder o desdém, botou as mãos para trás das costas e cerrou os punhos. Lá longe, Lews Therin resmungava, um eco de sua própria raiva.

— O que deu em você? Parece que tem um carrapicho nas calças desde que lhe entreguei os distintivos. Tem alguma coisa a ver com eles? Se for, então não entendo. Aqueles homens vão respeitar mais os distintivos por terem visto você receber os seus diretamente do Dragão Renascido. Aliás, eles vão respeitar mais você. Talvez não precise mais sair dando pancadas na cabeça de ninguém para manter a disciplina. Então, o que me diz?

Começara bem o bastante, em um tom calmo e controlado, ainda que não exatamente ameno — mesmo porque não queria soar ameno. Mas, enquanto falava, sua voz foi ficando mais alta e firme. Não chegou a virar um grito, apesar de a última pergunta ter estalado feito um chicote.

Taim sofreu uma transformação das mais notáveis, começando a tremer visivelmente — e Rand achava que era de raiva, não de medo —, mas, quando a tremedeira cessou, retomou à calma pétrea de antes. Não era uma atitude amigável, não mesmo, e tinha um quê de zombaria, mas Taim parecia muito relaxado e controlado.