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— Como você deve saber, o que me preocupa são as Aes Sedai. E você, claro. Nove Aes Sedai chegaram em Caemlyn, onde já há mais duas, então são onze. Aí, pode ser que haja mais uma ou outra… Ainda não consegui encontrar nenhuma, mas…

— Eu falei para você ficar longe da cidade — declarou Rand, impassível.

— Encontrei homens que podem fazer perguntas por mim — retrucou Taim, em um tom seco como poeira. — Onde estamos agora foi o mais perto que cheguei da cidade desde que o salvei daquele Homem Cinza.

Rand deixou passar, mas por pouco. Quase não conseguiu. A voz em sua cabeça estava baixa demais para ser compreendida, mas soava como um trovão frio.

— Mais fácil conseguirem agarrar fumaça com os dedos do que ouvirem algum boato útil. — Aquelas palavras saíram com todo o desdém que Rand sentia. Taim dissera que o salvara?

Taim pareceu inquieto — por fora, ainda mantinha a aparente tranquilidade, mas seus olhos reluziam como gemas escuras.

— E se elas se juntarem às Vermelhas? — Sua voz estava serena e bem-humorada, mas aquele brilho em seus olhos… — Tem irmãs Vermelhas espalhadas pelo interior. Vários grupos chegaram nos últimos dias, querendo interceptar os homens a caminho daqui.

Vou matar esse homem, berrou Lews Therin, e Rand sentiu sua tentativa atrapalhada de alcançar saidin.

Vá embora, mandou Rand, com firmeza. Ele continuou a tentar. Permaneceu gritando.

Vou matar primeiro ele, depois os outros. Os outros só podem servir a ele. É óbvio que os outros só podem servir a ele.

Vá embora, rebateu Rand, aos gritos, mas ainda em silêncio. Você é só uma voz na minha cabeça! Ele continuava tentando alcançar a Fonte.

Ah, Luz, eu matei todos. Todos os que eu amava. Mas vai ser bom matar esse homem. Vou me redimir se eu finalmente conseguir matar esse maldito. Não… nada pode redimir o que eu fiz. Mas posso matá-lo mesmo assim. Vou matar todos. Tenho que matar, tenho.

Não! gritou Rand, ainda na mente. Você está morto, Lews Therin. Eu estou vivo. Que o queime, você está morto! Você está morto!

Foi quando, de repente, percebeu que estava debruçado sobre a mesa, os joelhos quase cedendo. E resmungava baixinho:

— Você está morto! Eu estou vivo e você está morto!

Mas não agarrara saidin. E nem Lews Therin. Estremecendo, ele olhou para Taim, surpreso de ver preocupação em seu semblante.

— Você precisa aguentar firme — disse Taim, baixinho. — Se puder se agarrar à sanidade, então é isso que tem que fazer. O preço do fracasso é alto demais.

— Não vou fracassar — afirmou Rand, endireitando-se. Lews Therin estava quieto. Parecia não haver nada em sua mente além dele mesmo. E da presença constante de Alanna, claro. Rand finalmente perguntou: — Essas Vermelhas pegaram alguém?

— Não que eu saiba. — Taim o examinava, receoso, como se esperasse outro arroubo. — Quase todos os alunos agora chegam por meio de portões. E, mesmo assim, com tanta gente pelas estradas não deve ser fácil identificar um homem vindo para cá. A menos que o sujeito saia gritando aos quatro ventos. — Ele hesitou. — Em todo caso, posso dar um jeito nelas.

— Não. — Lews Therin tinha mesmo sumido? Gostaria que sim, mas sabia que seria tolice acreditar nisso. — Terei que tomar alguma atitude se as Aes Sedai começarem a capturar os homens. Mas, por ora, elas não representam nenhuma ameaça se ficarem no campo. E pode acreditar: nenhuma enviada de Elaida vai querer se juntar às Aes Sedai na cidade. Mais fácil essas mulheres aceitarem ter você entre elas do que aceitarem se unir às rivais.

— E essas que não estão no campo? Não são onze? Alguns acidentes poderiam reduzir esse número para algo bem mais seguro. Se não quiser sujar suas mãos, eu sempre posso…

— Não! Quantas vezes tenho que dizer? Se sentir algum homem capaz de canalizar em Caemlyn, venho atrás de você na hora, Taim. Juro pela Luz. E não pense que basta ficar longe do Palácio e isso vai me impedir de sentir qualquer coisa. Se qualquer uma dessas Aes Sedai cair morta sem motivo, vou saber muito bem de quem é a culpa. Não duvide de mim!

— Você impõe limites demais — reclamou Taim, seco. — Se Sammael ou Demandred decidirem provocá-lo com algumas Aes Sedai mortas à sua porta, então minhas veias acabarão abertas?

— Eles ainda não fizeram isso, e é melhor torcer para que não comecem agora. Eu já avisei.

— E eu já ouvi, milorde Dragão, e claro que vou obedecer. — O homem de nariz aquilino se curvou bem devagar em uma reverência. — Ainda assim, repito que onze é um número perigoso.

Rand riu, mesmo sem querer.

— Taim, tenho toda a intenção de ensinar essas mulheres a dançarem ao som da minha flauta.

Luz, fazia quanto tempo que não tocava flauta? E onde estava sua flauta? Bem ao longe, ouviu Lews Therin soltar uma risadinha.

CAPÍTULO 43

A Coroa de Rosas

A carruagem que Merana alugara sacolejava ao longo do lento trajeto pelas ruas cheias de gente até a estalagem A Coroa de Rosas. Por fora, Merana estava calma: uma mulher de cabelos escuros e olhos mel tranquilos, os dedos magros cruzados por sobre as saias de seda cinza clara. Por dentro, não estava tão serena. Trinta e oito anos antes, tivera por puro acaso a oportunidade de negociar um tratado entre Arad Doman e Tarabon — um tratado que, em teoria, colocaria um ponto final na disputa pela Planície de Almoth. Domaneses e tarabonianos passaram o encontro todo tentando se esquivar e quase acabaram declarando três guerras diferentes durante as negociações. Ela passara todo aquele tempo sorridente e com uma expressão de absoluta boa vontade. Quando as assinaturas enfim secaram no papel, Merana sentia como se tivesse sido enfiada dentro de um barril cheio de espetos e rolada ladeira abaixo por colinas acidentadas. Depois de tudo aquilo, o tratado acabou valendo menos que a cera das fitas para a feitura dos selos. Esperava que o que iniciara naquela tarde, no Palácio Real, terminasse melhor — tinha que terminar —, mas, por dentro, sentia como se tivesse acabado de sair de um segundo barril.

Min estava recostada no assento, de olhos fechados. A jovem sempre parecia cochilar quando não havia nenhuma Aes Sedai se dirigindo a ela. As outras duas irmãs na carruagem volta e meia olhavam para a garota; Seonid, serena e reservada em seu verde brocado, e Masuri, de corpo magro e olhar alegre, usando um vestido marrom com bainha bordada com vinhas florescentes. Todas tinham se vestido com formalidade, usando os xales e as cores das Ajahs.

Merana tinha certeza de que as outras pensavam o mesmo sempre que olhavam para Min. Seonid decerto compreendia a jovem, mas não dava para ter certeza — ela era metódica e prática demais no trato com os próprios Guardiões, comportando-se um pouco como a dona de um par de lobos premiados pelos quais até sentia certa afeição. Bem, Masuri talvez compreendesse o coração da garota, já que gostava tanto de danças e até de flertes, apesar da propensão a se esquecer do pobre coitado com quem estava sempre que ouvia qualquer rumor sobre algum manuscrito antigo escondido. A própria Merana não se apaixonava desde bem antes daquele Quinto Tratado de Falme, mas se lembrava bem da sensação. Bastara ver como Min olhava para al’Thor para saber que a mulher perdera o juízo e resolvera que era uma ótima ideia pensar com o coração.

Não que aquilo fosse prova de que Min ignorara todas as advertências e quebrara a promessa que fizera, contando tudo para al’Thor, mas o fato é que o rapaz sabia de Salidar. E mais: ele sabia que Elayne estava lá e até achara graça — graça! — em suas tentativas de se esquivar das perguntas. Bem, não importava muito se Min havia traído ou não a confiança que tinham nela; só por a menina estar apaixonada já teriam que passar a tomar cuidado com o que diziam perto dela. De qualquer forma, a situação como um todo era assustadora — e Merana não estava acostumada com a sensação. Claro que já sentira medo antes, e com alguma frequência, como no ano seguinte ao da morte de Basan — jamais criara um elo com outro Guardião depois dele, e ao menos parte dessa resistência era por não querer passar por tudo aquilo de novo, embora a outra parte fosse estar ocupada demais para procurar o homem certo. Ainda assim, aquela tinha sido a última vez em que sentira mais que apreensão antes da Guerra dos Aiel. Só que agora estava com medo, e não gostava nada disso. Talvez tudo ainda fosse dar certo e nada desastroso tivesse ocorrido naquela reunião, afinal, mas o próprio al’Thor a deixava de pernas bambas.