Kairen Sedai sorriu, mas nem o sorriso e nem os olhos azuis serenos revelavam qualquer coisa.
— É bem possível que a Filha-herdeira acabe se sentando no Trono do Leão. Obstáculos que podem parecer insuperáveis para outros raramente o são para as Aes Sedai.
— O Dragão Renascido diz que…
— Os homens dizem muitas coisas, Lady Dyelin, mas você sabe que eu não minto.
Luan olhou para os lados, para o caso de algum criado entrar nas estrebarias, e deu um tapinha no pescoço do garanhão taireno cinzento. Mal conseguiu desviar da mordida daqueles dentes terríveis. O Guardião de Rafela os alertaria caso alguém se aproximasse, mas Luan não confiava em ninguém, nos últimos tempos. Ainda mais com uma visita daquela.
— Não sei bem se entendi direito — respondeu, sem rodeios.
— A unidade é melhor que a divisão — respondeu Rafela —, a paz é melhor que a guerra, a paciência é melhor que a morte. — Luan mexeu a cabeça em contrariedade àqueles chavões, e a Aes Sedai de rosto redondo sorriu. — Não vai ser melhor para Andor se Rand al’Thor deixar a terra unida e em paz, Lorde Luan?
Segurando o robe fechado, Ellorien fitava a Aes Sedai que conseguira abordá-la durante o banho — e sem ser anunciada, talvez até sem ser vista por mais ninguém. A mulher de pele cor de cobre a encarava, sentada em um banquinho no outro lado da banheira de mármore cheia, agindo com toda a naturalidade.
— E quem ocuparia o Trono do Leão, Demira Sedai? — perguntou, por fim.
— Há de ser o que a Roda tecer. — Foi a única resposta, e Ellorien sabia que não teria nenhuma outra.
CAPÍTULO 44
A cor da confiança
Tão logo Vanin havia partido para dizer ao Bando que ficasse onde estava, Mat descobriu que não restava nenhuma estalagem em Salidar que não tivesse sido ocupada pelas Aes Sedai, e que até os cinco estábulos estavam completamente lotados. Porém, quando deslizou uma moedinha de prata para um cavalariço de rosto fino, o sujeito foi buscar sacas de aveia e fardos de feno em um pátio rodeado por paredes de pedra que abrigaria seis cavalos. Também mostrou para Mat e os outros quatro homens do Bando lugares para dormir no depósito de feno, que era um pouco mais fresco que o lado de fora.
— Não peçam nada — advertiu Mat para seus homens enquanto dividia o restante das moedas entre eles. — Paguem por tudo e não aceitem presentes. O Bando não vai ficar devendo nada a ninguém daqui.
Seu falso ar de confiança se transmitiu aos demais, que nem hesitaram quando ele os mandou afixarem os estandartes junto à porta de entrada do depósito para que pendessem à frente do estábulo, em carmesim e branco, o disco branco e preto e o Dragão bem à vista de todos. Os olhos do cavalariço se arregalaram e ele exigiu saber o que Mat estava fazendo.
Ele apenas sorriu e jogou um marco de ouro para o camarada de rosto fino.
— Só para que todos saibam quem está aqui. — Mat queria que Egwene entendesse que ele não seria intimidado, e, algumas vezes, fazer as pessoas en xergarem isso significava ter que tomar algumas atitudes esquisitas.
O problema foi que os estandartes não surtiram efeito. Ah, todos que passavam por ali ficavam boquiabertos e apontavam para eles, e várias Aes Sedai vinham só para dar uma olhada, os olhos frios e sem expressão, mas Mat estivera esperando um pedido indignado para que eles fossem removidos, o que nunca aconteceu. Quando ele voltou para a Pequena Torre, uma Aes Sedai, que — milagrosamente — conseguia ter cara de ameixa seca apesar das bochechas lisas e do rosto de idade indefinida, mexeu no xale de franjas marrons e disse a ele, irredutível, que o Trono de Amyrlin estava ocupado e que talvez pudesse recebê-lo dentro de um ou dois dias. Talvez. Elayne parecia ter desaparecido, assim como Aviendha, mas ninguém pare cia ter tentado assassinar ninguém ainda. Mat suspeitava de que a Aiel po de ria estar em algum lugar metida em um vestido branco. Para ele, não mudava nada, desde que a paz fosse mantida, já que Mat não queria ter que contar a Rand que uma havia matado a outra. Ele chegou a avistar Nynaeve, mas a mulher se esgueirou por uma esquina e já havia sumido quando Mat alcançou o lo cal.
Ele passou a maior parte da tarde à procura de Thom e Juilin. Tinha esperança de que um dos dois pudesse explicar melhor o que estava acontecendo e, além disso, Mat precisava se desculpar com Thom por seus comentários sobre aquela carta. Infelizmente, ninguém também parecia saber onde os homens se encontravam. Bem antes do cair da noite, Mat chegou à conclusão de que eles estavam sendo mantidos longe dele. Egwene queria mesmo desestabilizá-lo, deixá-lo cozinhando, mas ele a faria perceber que não estava nem em fogo baixo. Para ajudá-lo com isso, Mat saiu para dançar.
A impressão era de que as celebrações por conta da nova Amyrlin deveriam prosseguir durante um mês, e embora todos em Salidar parecessem atarefados ao longo do dia, fogueiras eram acesas em todas as esquinas assim que a noite caía, e surgiam rabecas, flautas e até um ou dois saltérios. Música e gargalhadas tomavam conta do ar, e os festejos reinavam até a hora de ir para a cama. Mat via Aes Sedai dançando nas ruas com carroceiros e cavalariços ainda trajando suas roupas pesadas de trabalho e Guardiões dançando com serviçais e cozinheiras que haviam deixado de lado os aventais. Nada de Egwene, no entanto. O maldito Trono de Amyrlin não ficaria saltitando e rodopiando pelas ruas. Nada também de Elayne ou Nynaeve, e nada de Thom ou Juilin. Thom não teria dispensado uma dança nem com as duas pernas quebradas, a menos que tivesse realmente sido impedido. Mat sossegou para poder se divertir, deixar que todos vissem que ele não dava a mínima para qualquer outra coisa. Acabou não funcionando exatamente como ele queria.
Mat dançou um pouco com a mulher mais linda que já tinha visto em toda a sua vida, magra e de seios fartos, que queria saber tudo sobre Mat Cauthon. A atenção o deixara lisonjeado, especialmente quando ela perguntou se ele queria dar uma voltinha. Mas, depois de um tempo, Mat notou que Halima tinha um jeitinho de encostar nele, de se inclinar para olhar para alguma coisa, de um modo que não lhe dava escolha senão olhar seu decote. Era provável que Mat tivesse gostado, o problema era que ela toda vez olhava para o rosto dele com um olhar penetrante e um sorriso divertido. Não era uma boa dançarina — para começo de conversa, ficava tentando conduzi-lo —, até que ele, por fim, pediu licença e foi embora.
Não deveria ter sido um problema, mas, antes que Mat tivesse dado dez passos, a cabeça de raposa pendurada em seu pescoço ficou fria feito gelo. Ele se virou e, furioso, procurou pela culpada. O que viu foi Halima encarando-o à luz da fogueira. Apenas por um instante, até que a mulher pegou um Guardião alto pelos braços e voltou a rodopiar e dançar, mas Mat tinha certeza de ter identificado uma expressão surpresa naquele lindo rosto.
As rabecas entoavam uma melodia conhecida. Uma das velhas lembranças em sua mente a reconheceu, pelo menos, pois não havia mudado muito, considerando-se que já se passara bem mais de mil anos. Os versos da canção deviam ter mudado por completo, já que as velhas palavras que ecoavam em sua mente jamais teriam sido aprovadas ali:
— Aes Sedai? — repetiu desdenhosamente uma jovem rechonchuda quando ele foi perguntar a respeito de Halima. Era bonita e, em outras circunstâncias, Mat poderia ter investido em busca de uns beijinhos e de calor humano. — Halima é só a secretária de Delana Sedai. Sempre provocando os homens, essa aí. Como uma criancinha com um brinquedo novo. Provoca só para ver se consegue. Já teria ficado com água quente até o pescoço umas dez vezes, se Delana não a protegesse.