Выбрать главу
Pode confiar em mim, disse a rainha, lembre: carrego esse fardo sozinha. Confie em mim para liderar, julgar e governar, que você é um tolo, homem nenhum vai pensar. Mas a confiança é o som do mau auguro. A confiança é som do ardil no escuro. A confiança é o som do derradeiro corte. A confiança é o som da morte.

Talvez ele tivesse se enganado. Talvez ela só tivesse ficado chocada por ele ter ido embora. Poucos homens dispensariam uma mulher com aquela aparência, pouco importando seu jeito de provocar ou dançar. Tinha que ser isso. Mas ainda restava a dúvida: então quem e por quê? Mat olhou em volta, para quem dançava e para as pessoas que observavam do limiar das sombras, onde esperavam sua vez. A Caçadora da Trombeta de cabelos dourados que lhe parecera familiar saiu rodopiando com um sujeito de rosto particularmente encaroçado, sua trança quase que se sobressaindo às costas. Mat conseguia identificar Aes Sedai pelos seus rostos — na maioria dos casos, pelo menos —, mas não havia como saber qual delas tinha tentado… o que quer que tivesse tentado.

Ele saiu andando rua abaixo em direção à fogueira seguinte mais para escapar daquela canção do que por qualquer outro motivo, antes que, em sua mente, a letra da música passasse de “o rei no alto” e “a lady e o lorde” para “o amor da sua vida”. Naquela velha lembrança, ele se recordava de ter escrito aquela canção por conta do amor da sua vida. A confiança tem o gosto da morte. Na outra esquina, um rabequista e uma mulher com uma flauta tocavam o que soava como “Afofem as Penas”, uma bela dança do interior.

Até onde ele podia confiar em Egwene? Ela agora era Aes Sedai. Devia mesmo ser, se agora era a Amyrlin, ainda que uma Amyrlin de meia-tigela numa aldeia de meia-tigela. Bem, o que quer que fosse, ela era Egwene, e ele não conseguia acreditar que ela o atacaria do nada daquele jeito. Claro que Nynaeve seria capaz, mesmo sem a intenção real de machucá-lo. Seu quadril, porém, ainda doía. O chute o deixara com um hematoma. E só a Luz sabia do que uma mulher como Elayne seria capaz. Elas ainda estavam tentando forçá-lo a ir embora, ele concluiu. Era provável que houvesse outras tentativas. O melhor a fazer era ignorá-las. Mat quase torcia para que elas tentassem de novo. Não podiam tocá-lo com o Poder e, quanto mais tentassem e fracassassem, ora, mais teriam que reconhecer que ele não seria manipulado.

Myrelle apareceu e ficou ao lado dele, observando o povo que dançava. Mat se lembrava dela vagamente. Não achava que ela soubesse de algo perigoso a seu respeito. Pelo menos achava que não. Não era tão bela quanto Halima, claro, mas, ainda assim, era bem mais que apenas bonita. Sombras tremeluzentes dançavam em seu rosto de modo que Mat quase poderia esquecer que ela era Aes Sedai.

— Noite quente — disse a mulher, sorrindo, e começou a fazer um discurso tão descontraído enquanto Mat se deleitava olhando para ela que ele precisou de um certo tempo para perceber aonde ela estava querendo chegar com aquela conversa.

— Acho que não — respondeu educadamente ele quando ela fez uma pausa. Era isso que dava esquecer. Aes Sedai eram Aes Sedai.

Ela apenas sorriu.

— Haveria muitas vantagens, e eu não tentaria prendê-lo às minhas saias. Muitas vantagens. Você escolheu uma vida perigosa, ou a escolheram para você. Um Guardião deve ter mais chances de sobreviver.

— Eu realmente acho que não. Eu recuso, mas agradeço a proposta.

— Pense um pouco, Mat. A menos que… A Amyrlin criou um elo com você?

— Não. — Egwene não faria isso. Faria? Ela não poderia enquanto ele estivesse usando o medalhão, mas será que faria se ele não o usasse? — Você me dá licença? — Mat fez uma curta reverência e partiu na direção de uma bela jovem de olhos azuis que batia o pé no ritmo da música. Ela tinha uma boca suculenta, perfeita para beijar, e ele queria se divertir, maldição. — Eu vi os seus olhos e não pude deixar de vir aqui. Quer dançar?

Já era tarde demais quando ele viu o anel da Grande Serpente na mão direita da mulher, justo quando aquela boca suculenta se abriu e uma voz que ele reconheceu disse, seca:

— Uma vez eu perguntei, garoto, se você estaria presente quando a casa começasse a pegar fogo, mas parece que você gosta de pular em fogueiras. Agora saia daqui e encontre alguém que queira dançar com você.

Siuan Sanche! Ela tinha sido estancada e morta! Mas ali estava ela, fitando-o com o rosto que roubara de alguma jovem, fosse ela o que fosse, e usando um anel de Aes Sedai! Ele tinha tirado Siuan Sanche para dançar!

Enquanto Mat ainda tinha os olhos fixos nela, uma domanesa jovem e esbelta veio rodopiando com um vestido verde-claro transparente o bastante para que a luz da fogueira delineasse toda a sua silhueta. Lançando um olhar gélido na direção de Siuan, que o devolveu com interesse, a domanesa praticamente arrastou Mat para o meio das pessoas dançando. Era tão alta quanto uma Aiel, os olhos escuros até um pouco mais altos que os dele.

— Meu nome é Leane, aliás — disse a mulher com uma voz que parecia uma carícia açucarada —, caso você não tenha me reconhecido. — Sua risadinha baixa também era quase uma carícia.

Mat deu um pulo e quase se atrapalhou todo no primeiro giro. Ela também usava o anel. Ele concluiu o passo apenas por instinto. Alta ou não, Leane era como uma pluma nas mãos dele, graciosa como um cisne, mas com certeza nada disso era suficiente para abafar a pergunta que continuava a explodir na cabeça dele feito os fogos de artificio de um Iluminador: Como? Como, sob a Luz? Para completar, quando a dança acabou, ela disse:

— Você dança muito bem — disse naquela voz sedutora, e então o beijou com uma intensidade com que Mat jamais havia sido beijado. Ele ficou tão chocado que nem tentou se afastar. Suspirando, ela lhe deu um tapinha na bochecha. — Dança muito bem mesmo. Na próxima vez, pense nisso como uma dança e você vai se sair bem melhor. — E lá foi ela embora gargalhando, de volta para dançar com algum sujeito que tirou do meio dos espectadores.

Mat decidiu que já passara pelo máximo que um homem poderia suportar em uma única noite. Voltou ao estábulo e caiu no sono usando a própria sela como travesseiro. Seus sonhos teriam sido agradáveis, se não tivessem envolvido Myrelle, Siuan, Leane e Halima. Em se tratando de sonhos, um homem simplesmente não tinha bom senso suficiente nem para tirar uma pedra da própria bota.

O dia seguinte só poderia ser melhor, pensou ele, em especial quando a alvorada chegou revelando Vanin no depósito, dormindo em sua sela. Ele contou que Talmanes tinha recebido a mensagem e ficaria onde estava. Guardiões haviam sido vistos observando os preparativos do Bando, sem dúvida porque se permitiram ser vistos, mas nenhum deles se aproximara dos homens de Mat. Uma surpresa menos agradável foi deparar com o cavalo cinza de Olver no pátio atrás do estábulo, e o próprio Olver todo enrolado nos lençóis em um canto.

— Você precisa de alguém na retaguarda — justificou-se o menino, sombrio, quando Mat perguntou o que ele estava fazendo ali. — Não pode confiar nela. — Não precisou citar o nome de Aviendha.

Olver não mostrou interesse em brincar com as crianças da aldeia, e Mat teve que suportar olhares e sorrisos conforme o garoto o seguia por toda Salidar, fazendo seu melhor para imitar o andar fluido de um Guardião e olhando em nove direções ao mesmo tempo à procura de Aviendha. E Mat continuava sem vê-la em lugar algum, assim como Elayne e Nynaeve. E a “Amyrlin” ainda estava ocupada. Thom e Juilin também estavam “ocupados”. Vanin conseguiu ouvir algumas coisas, mas nada que deixasse Mat feliz. Se Nynaeve realmente tivesse Curado Siuan e Leane, ela estaria pior do que nunca. Ela sempre se tivera em alta conta e, depois de conseguir fazer o que ninguém julgara possível, seu peito estaria mais estufado que o de um pombo. Mas essa não era a pior parte. A história sobre Logain e a Ajah Vermelha deram calafrios em Mat. Aquilo soava como o tipo de coisa que nenhuma Aes Sedai perdoaria. Se Gareth Bryne era o líder do exército delas, não se tratava de um amontoado de fazendeiros e varredores de rua com alguns Guardiões para dar mais corpo. Considerando-se tudo isso e as provisões que Vanin viu serem empacotadas ou acondicionadas em barris para viagem, a única conclusão era que haveria problemas. O pior tipo de problema que Mat poderia imaginar, pouco melhor do que dar de cara com um dos Abandonados na mesa ao lado e mais uma dúzia de Trollocs entrando pela porta. Nada daquilo as tornava menos tolas, apenas tolas muito perigosas. Thom e seu “ajudá-las a fazer o que elas querem”. Se o menestrel saísse da toca algum dia, talvez pudesse tirar um “como” daquelas suas histórias.