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À noite, Myrelle voltou a conversar com Mat a respeito de ele se tornar um Guardião, e seus olhos se estreitaram em desagrado quando Mat lhe disse que a proposta dela era a quinta que ele dispensava desde o nascer do sol. Ele não teve certeza se ela acreditou, já que a mulher foi embora com o andar mais exasperado que ele já vira em uma Aes Sedai. Porém, era verdade. A primeiríssima, quando ele ainda tentava tomar o café da manhã, fora da mesma Delana para quem Halima trabalhava, uma mulher corpulenta de cabelo claro e olhos azuis que chegou perto de tentar intimidá-lo a aceitar. Naquela noite, ele se manteve longe da dança e foi dormir com as músicas e gargalhadas em seus ouvidos. Desta vez, soavam amargas.

Foi no meio da tarde do segundo dia inteiro de Mat em Salidar que uma garota de vestido branco, bonita, sardenta e se esforçando bastante para demonstrar uma dignidade gélida — e quase sendo bem-sucedida —, abordou-o com uma convocação exatamente assim:

— Você vai se apresentar imediatamente perante o Trono de Amyrlin. — Ponto final, e mais nenhuma palavra.

Mat sinalizou para que ela fosse na frente. Pareceu adequado, e ela pareceu gostar.

Estavam todas elas naquele aposento da Pequena Torre, Egwene, Nynaeve, Elayne e Aviendha, embora Mat tenha precisado olhar duas vezes para reconhecer a Aiel em um vestido azul de lã cara, com gola e punhos rendados. Pelo menos nem Aviendha nem Elayne estavam tentando estrangular uma a outra, mas ambas tinham uma expressão pétrea. Assim como Egwene e Nynaeve, aliás. Os rostos estavam todos indecifráveis, e todos os olhos voltaram-se para ele. Conseguiu segurar a língua enquanto Egwene expôs as alternativas de Mat, na opinião dela, sempre sentada por detrás da mesa e com aquela estola listrada sobre os ombros.

— Caso você ache que não é capaz de fazer nenhuma das duas coisas — concluiu ela —, lembre-se de que eu posso amarrar você no seu cavalo e mandá-lo de volta para esse seu Bando da Mão. Em Salidar, não há lugar para preguiçosos e gente que faz corpo mole. Eu não vou permitir uma coisa dessas. Você tem duas escolhas, Mat: ou vai para Ebou Dar com Elayne e Nynaeve ou vai embora para ver quem você consegue impressionar com bandeiras e estandartes.

O que o deixava sem escolha, claro. Quando ele apontou isso, nenhuma expressão se alterou. Se muito, Nynaeve se mostrou ainda mais severa. E Egwene disse apenas:

— Fico feliz que tudo esteja resolvido, Mat. Agora tenho mil coisas para fazer. Vou tentar vê-lo antes de você ir. — Dispensado feito um cavalariço. A Amyrlin estava ocupada. O mínimo que poderia ter feito era lhe jogar uma moeda de cobre.

Foi por isso que na terceira manhã de Mat em Salidar ele foi até a entrada do lugar, na área descampada entre a aldeia e a floresta.

— Pode ser que elas continuem aqui até eu voltar — disse Mat para Talmanes, olhando por cima do ombro em direção às casas. Elas viriam logo, e Mat não queria que nada daquilo chegasse aos ouvidos de Egwene. Se pudesse, ela tentaria pôr um fim nos seus planos. — Bem, é o que eu espero. Se elas se des locarem, siga-as aonde quer que seja, mas nunca tão de perto a ponto de assustá-las. E se uma jovem chamada Egwene aparecer, não faça perguntas, trate apenas de capturá-la e levá-la para Caemlyn, mesmo que seja preciso passar por cima de Gareth Bryne. — Claro que eles poderiam estar pretendendo ir a Caemlyn. Havia essa chance. Mas Mat temia que o alvo delas fosse Tar Valon. Tar Valon e o machado do carrasco. — E leve Nerim com você.

Talmanes balançou a cabeça.

— Se Nalesean estiver indo com você, vou ficar ofendido se você não permitir que eu envie um dos meus homens para cuidar das suas coisas. — Mat gostaria que Talmanes sorrisse de vez em quando. Ajudaria a saber quando ele estava falando sério. Ele certamente soava sério.

Nerim estava parado de pé ali perto, com Pips, e sua própria égua marrom roliça, além de dois burros de carga com cestos de vime atulhados até a boca. O homem de Nalesean, um sujeito robusto chamado Lopin, conduzia apenas um animal de carga, além do seu capão com focinho em formato de martelo e do imenso garanhão negro de Nalesean.

A comitiva não acabava aí. Ninguém parecia querer dizer a Mat mais do que o ponto de encontro e quando ele deveria estar lá, mas, durante outra conversa tentando convencê-lo a se tornar Guardião, Myrelle deixara escapar que já não havia mais problema se ele se comunicasse com o Bando, desde que não tentasse trazê-los para mais perto de Salidar. Ele nem tinha cogitado uma coisa dessas. Vanin estava ali naquela manhã porque suas habilidades como batedor seriam úteis, assim como cerca de dez soldados do Bando, selecionados por conta dos ombros pesados e por terem se mostrado capazes de manter a ordem enquanto ainda eram Braços Vermelhos em Maerone. Pelo que Nalesean dissera, clavas e punhos ligeiros deveriam dar conta de qualquer confusão em que Nynaeve e Elayne se metessem, ao menos por tempo suficiente para levá-las embora na surdina. Lá no final vinha Olver, montado no cavalo cinza que batizara de Vento, um nome que o animal de pernas compridas até poderia merecer. Claro que ele levaria Olver junto. O Bando poderia muito bem se meter em problemas se acabasse tendo que acompanhar aquele monte de malucas. Talvez não problemas com Bryne, mas havia grandes chances de os nobres ficarem eriçados ao verem dois exércitos cruzando suas terras e resolverem atacar os cavalos à noite e atirarem flechas matagal sim, matagal não. Para um garoto, qualquer cidade havia de ser mais segura que isso.

Ainda não havia qualquer sinal de nenhuma Aes Sedai, e o sol já começava a assá-los por sobre as copas das árvores.

Num gesto irritado, Mat puxou o chapéu para baixo.

— Nalesean conhece Ebou Dar, Talmanes. — O taireno deu um risinho em meio ao suor e assentiu. A expressão de Talmanes não se alterou. — Ah, está bem. Nerim vem com a gente. — Talmanes inclinou a cabeça. Talvez tivesse falado sério.

Por fim, houve uma movimentação na aldeia, um grupo de mulheres conduzindo cavalos. Elayne e Nynaeve estavam acompanhadas, embora Mat não estivesse esperando mais ninguém. Aviendha trajava um vestido de cavalgada cinza, mas olhava para a sua égua parda esguia com um ar mais que duvidoso. Aquela Caçadora da trança dourada demonstrava mais confiança com um capão de ancas pesadas da cor de um camundongo, e parecia estar tentando convencer Aviendha de algo em relação à sua égua. O que aquelas duas estavam fazendo ali? Também havia duas Aes Sedai — outras duas Aes Sedai além de Nynaeve e Elayne, melhor dizendo —, mulheres esbeltas com cabelos brancos que Mat ainda não tinha visto em Aes Sedai. Um sujeito de certa idade, magro, porém musculoso, e quase careca — os poucos fios que ainda restavam eram grisalhos — vinha atrás delas com um animal de carga, além da sua própria montaria. Mat levou um tempo para perceber que se tratava de um Guardião, com um daqueles mantos furta-cor lhe pendendo às costas. Essa era a vida de um Guardião. As Aes Sedai faziam o sujeito trabalhar até ele perder os cabelos, e então, depois que o pobre coitado morresse, provavelmente ainda encontrariam serventia para os seus ossos.