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Thom e Juilin vinham não muito atrás, e também traziam um burro de carga. As mulheres pararam a umas cinquenta passadas à esquerda junto do Guardião idoso, mal olhando para Mat e seus homens. O menestrel deu uma olhada furtiva na direção de Nynaeve e as demais e, a seguir, falou com Juilin, e ambos conduziram seus cavalos na direção de Mat, parando um pouco antes dele como se não tivessem certeza de que eram bem-vindos. Mat se aproximou.

— Tenho que lhe pedir desculpas, Mat — disse Thom, apertando o bigode. — Elayne foi bem enfática ao me proibir de continuar conversando com você. Só mudou de ideia hoje de manhã. Num momento de fraqueza há alguns meses, prometi obedecer às ordens dela, e ela joga isso na minha cara nas situações mais esquisitas. Ela não ficou muito feliz por eu ter lhe dito o que disse.

— Nynaeve ameaçou me dar um soco no olho se eu chegasse perto de você — revelou Juilin em tom tristonho, apoiando-se em seu cajado de bambu. Estava usando um chapéu taraboniano vermelho que não oferecia tanta proteção contra o sol, e até o chapéu parecia triste.

Mat desviou o olhar na direção das mulheres. Nynaeve o espiava por cima da própria sela, mas, quando percebeu que ele estava olhando, agachou-se atrás do animal, uma égua marrom atarracada. Ele não teria pensado que nem Nynaeve seria capaz de mandar em Juilin, mas o apanhador de ladrões de pele escura estava bem longe de ser o homem com quem Mat convivera um pouco em Tear. Aque le Juilin se mostrara pronto para tudo. Este Juilin, com a testa franzida, parecia sempre preocupado com alguma coisa.

— Nós vamos ensinar para elas um pouco de boas maneiras durante esta viagem, Juilin. Thom, eu é que tenho que pedir desculpas. Aquilo que eu disse sobre a carta… Foi o calor que me fez falar sem pensar, e eu estava preocupado com certas mulheres idiotas. Espero que as notícias tenham sido boas. — Foi tarde demais quando ele se recordou do que Thom dissera. O homem abandonara à morte a mulher que tinha escrito aquela carta.

Thom, porém, só deu de ombros. Mat não sabia o que pensar dele sem o manto de menestrel.

— Notícias boas? Eu ainda nem decifrei aquela carta. É comum não se saber se uma mulher é amiga, inimiga ou amante até já ser tarde demais. Às vezes, ela é os três. — Mat esperava uma gargalhada, mas Thom franziu a testa e suspirou. — As mulheres parecem gostar de se passar por misteriosas, Mat. Posso dar um exemplo. Você se lembra de Aludra?

Mat precisou pensar.

— A Iluminadora que salvamos em Aringill?

— A própria. Juilin e eu a encontramos durante as nossas viagens e ela não sabia quem eu era. Não que ela não tenha me reconhec ido, já que é normal conversar com companheiros de viagem desconhecidos para poder conhecê-los melhor. Aludra não quis me conhecer, e mesmo sem eu saber por quê, não vi razão para impor nada. Encontrei-a como uma estranha e a deixei como uma estranha. E aí, você a veria como uma amiga ou uma inimiga?

— Talvez como amante — respondeu Mat, seco. Ele não se importaria em encontrar Aludra de novo. Ela lhe dera alguns fogos de artifício que se provaram bem úteis. — Se você quiser saber sobre mulheres, pergunte para Perrin, não para mim. Não entendo nada desse assunto. Eu costumava achar que Rand en tendia, mas Perrin com certeza entende. — Elayne estava conversando com as duas Aes Sedai de cabelo branco sob o olhar atento da Caçadora. Uma das Aes Sedai mais velhas deu uma olhada inquisitiva na direção de Mat. Agiam como Elayne, serenas como uma rainha em seu maldito trono. — Bem, com sorte, não vou precisar aturar essas malucas por muito tempo — resmungou Mat con sigo mesmo. — Com sorte, o que quer que elas estejam indo fazer lá não vai demorar muito e em cinco ou dez dias estaremos de volta. — Com sorte, ele poderia estar de volta antes que o Bando precisasse começar a seguir aquelas loucas. Seguir não apenas um exército, mas dois, seria fácil como roubar tortas, claro, mas Mat não queria passar nem um dia a mais que o necessário na companhia de Elayne.

— Dez dias? — indagou Thom. — Mesmo com esse tal de “portão”, Mat, vamos precisar de cinco ou seis dias só para chegar a Ebou Dar. É melhor que uns vinte, mas…

Mat parou de prestar atenção. Cada gota de irritação que ele vinha acumulando desde a primeira vez em que tornou a pousar os olhos em Egwene transbordou de uma só vez. Ele apanhou o chapéu e foi andando decidido até Elayne e as outras. Deixá-lo sem saber nada já era ruim o bastante — como ele poderia mantê-las longe de confusão se elas não lhe contavam nada? —, mas aquilo era ridículo. Nynaeve o viu se aproximando e, por algum motivo, escondeu-se trás de sua égua.

— Vai ser interessante viajar com um ta’veren — comentou uma das Aes Sedai de cabelo branco. Mesmo de perto, ele ainda não conseguia dizer quantos anos a mulher tinha, mas, de alguma forma, algo em seu rosto transmitia certa idade. Devia ser o cabelo. A outra Aes Sedai parecia um reflexo da primeira. Talvez elas realmente fossem irmãs. — Meu nome é Vandene Namelle.

Mat não estava no clima para falar sobre ser um ta’veren . Nunca sentia vontade de fazer isso, mas menos ainda naquele momento.

— Que história é essa de que a gente vai levar cinco ou seis dias para chegar a Ebou Dar? — O velho Guardião se endireitou, encarando-o com severidade, e Mat também o reavaliou. Podia ser magro, mas era duro feito raízes velhas. Mas isso não bastou para fazê-lo moderar o tom de voz. — Vocês podem abrir um portão na frente de Ebou Dar. Não somos nenhum maldito exército que vá assustar alguém, e, quanto a aparecer do nada, vocês são Aes Sedai. As pessoas já esperam que vocês apareçam do nada e atravessem paredes.

— Receio que você esteja falando com a Aes Sedai errada — disse Vandene. Mat olhou para a outra mulher de cabelo branco, que balançou a cabeça enquanto Vandene disse: — Não, não Adeleas. Parece que não somos fortes o bastante para algumas das novidades.

Mat hesitou, então afundou o chapéu na cabeça e se virou para Elayne.

A mulher empinou o nariz imediatamente.

— Parece que você sabe ainda menos do que pensa, Mestre Cauthon — afirmou ela com frieza. Não estava suando, ele percebeu, não mais que as duas… as outras duas… Aes Sedai. A Caçadora olhava para ele de modo desafiador. Por acaso ele tinha enfiado uma abelha no seu ouvido para ela ficar olhando-o com aquela cara? — Há aldeias e fazendas num entorno de cem milhas de Ebou Dar — prosseguiu Elayne, como se tentasse explicar o óbvio para alguém não muito inteligente. — Portões são perigosos. Não quero matar as ovelhas e vacas de um pobre coitado qualquer, e muito menos o próprio pobre coitado.

Não era só aquele tom de voz que Mat odiava. Elayne estava certa, e ele também odiava isso. Mas não estava a ponto de admitir, não para ela, e, buscando uma maneira de se retirar, avistou Egwene saindo da aldeia acompanhada por vinte ou mais Aes Sedai, a maioria delas usando os xales com as franjas coloridas. Ou melhor, ela vinha, e as mulheres a seguiam. Cabeça bem erguida, Egwene olhava para a frente, aquela estola listrada sobre os ombros. As outras vinham caminhando logo atrás em pequenos grupos. Sheriam, trajando a estola azul da Curadora, conversava com Myrelle e uma Aes Sedai de rosto austero que conseguia ter uma expressão maternal. Exceto por Delana, ele não reconheceu nenhuma das demais — uma tinha o cabelo grisalho preso num coque, e ele se perguntou quantos anos uma Aes Sedai precisava ter para que seu cabelo ficasse completamente grisalho ou branco —, mas todas conversavam entre si, ignorando a mulher que haviam elevado a Amyrlin. Egwene poderia muito bem estar sozinha. Parecia sozinha. Mat a conhecia bem, e sabia que ela provavelmente estava fazendo tudo a seu alcance para se tornar quem aquelas mulheres queriam que ela fosse, e ainda assim elas a deixavam caminhar sozinha daquela forma e ficavam apenas olhando.