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Faile olhou para ele de soslaio. A mulher sempre dizia que Perrin deixava as pessoas constrangidas quando tentava fazê-las parar com todas aquelas mesuras e reverências, e explicava que o constrangimento que ele sentia quando os outros agiam assim era apenas parte do preço a se pagar.

A Donzela que entrara antes deles passou por Rand, saindo, e ele levou um susto.

— Luz, deixei vocês na porta! Entrem, entrem. Lerian, avise a Sulin que preciso de mais ponche. De melão, agora. E diga para ela ser rápida. — Inexplicavelmente, as três Donzelas riram como se Rand tivesse feito alguma piada.

Depois de dar um único passo para dentro do aposento, Perrin não precisou nem olhar para o ambiente para saber que havia uma mulher ali dentro — sentiu logo um aroma floral no ar. Quando a viu, ficou encarando.

— Min? — O cabelo estava diferente, arrumado em cachos, e as calças e o casaco azul bordado não eram nada como ele se lembrava, mas o rosto era o mesmo. — Min, é você! — Ele a ergueu num abraço apertado, rindo. — Ah, pelo visto é uma reunião. Faile, esta aqui é Min. Eu já falei dela.

Foi aí que Perrin reparou no cheiro que emanava da esposa, então tratou de pôr Min de volta no chão enquanto a amiga ainda estava sorrindo. De repente, teve total consciência de como aquelas calças justas delineavam o contorno das pernas de Min. Faile era uma mulher de poucos defeitos, mas de fato tinha uma tendência a sofrer de ciúmes. Não era para ele saber que a mulher perseguira Calle Coplin com um pedaço de pau por meia milha — como se ele fosse olhar para qualquer outra mulher, agora que tinha aquela a seu lado.

— Faile — cumprimentou Min, estendendo a mão. — Qualquer mulher capaz de aguentar este cabeludo idiota e se casar com ele tem minha admiração. Talvez ele até possa render um bom marido, depois que você o treinar.

Faile tomou as mãos de Min com um sorriso, mas aquele aroma pungente era arrepiante.

— Ainda não consegui treiná-lo, Min, mas vou insistir até pelo menos ele aprender o mínimo.

— A Senhora Luhhan faz reverências quando vê você? — Rand balançava a cabeça, incrédulo. — Só acredito vendo ! E Loial? Veio? Vocês não deixaram ele lá fora, não é?

— Mais ou menos — respondeu Perrin, tentando ficar de olho em Faile sem parecer muito óbvio. — Ele ficou pelo caminho, disse que não conseguia vir por enquanto. Ele falou que estava cansado, que precisava encontrar um pouso , então mandei ele para um que eu conhecia, um lugar abandonado ao norte da estrada que sai de Ponte Branca. Ele foi logo andando para lá, dizendo que conseguiria sentir o local exato quando estivesse a menos de dez milhas.

— Você deve conhecer Rand e Perrin muito bem — deduziu Faile.

Min deu uma olhadinha para Rand.

— Faz um tempinho. Conheci os dois logo depois que eles saíram de Dois Rios pela primeira vez. Quando ainda achavam que Baerlon era uma cidade enorme.

— A pé? — perguntou Rand.

— Isso — confirmou Perrin, hesitante. O cheiro de Faile estava mudando, o ciúme esmaecendo. Mas por quê? — Ele preferiu ir do jeito dele, entende? E ainda apostou uma coroa de ouro que estaria aqui em Caemlyn menos de dez dias depois da gente. — As duas mulheres se olhavam, Faile sorrindo e Min corando de leve. Pelo cheiro, Min estava um tanto constrangida, e Faile parecia contente. Contente e surpresa, embora sua expressão disfarçasse isso. — Não quis tomar o dinheiro dele, já que ele precisou se afastar cinquenta milhas ou mais do caminho, mas Loial insistiu. Queria apostar cinco dias.

— Loial sempre disse que conseguia correr mais rápido que qualquer cavalo — comentou Rand, com uma risadinha, que morreu logo. — Espero que ele chegue bem — afirmou, mais sério.

Rand estava mesmo cansado, e também estava diferente. O Rand que Perrin vira em Tear não parecera fraco, longe disso, mas aquele ali fazia o de Tear parecer um moleque inocente do interior. O amigo mal piscava, como se só de piscar pudesse deixar de ver alguma coisa importante. E Perrin reconhecia alguma coisa naquele olhar, vira o mesmo nos semblantes dos homens de Dois Rios, depois de ataques de Trollocs — depois do quinto, do décimo, quando parecia que não havia mais esperança, mas todos continuavam lutando, porque o preço de desistir era alto demais.

— Milorde Dragão — começou Faile. Perrin levou um susto: ela sempre o chamara de Rand, mas já ouviam o título desde Ponte Branca. —, se você me perdoa, quero dar uma palavrinha com meu marido, mas depois deixo vocês dois conversarem.

Faile mal esperou Rand assentir, surpreso, para se aproximar de Perrin e virá-lo, ficando de costas para Rand.

— Estarei logo ali, meu coração. Min e eu vamos conversar sobre assuntos que provavelmente o deixariam entediado. — Então, ajeitando as lapelas do casaco dele, a mulher começou a falar bem rápido e baixinho, em uma voz tão delicada que só ele conseguia ouvir sem precisar se esforçar muito. Às vezes, Faile se lembrava de sua audição aguçada. — Não esqueça que ele não é mais o seu amigo de infância, Perrin. Ao menos, não é mais só isso. Ele é o Dragão Renascido, o Lorde Dragão. E você é o Lorde de Dois Rios. Sei que vai defender a si mesmo e à sua terra. — Ela abriu um sorriso cheio de amor e confiança, e Perrin quis beijá-la ali mesmo. — Pronto — anunciou, já em um tom normal. — Já arrumei. — Faile já não exalava o menor cheiro de ciúme.

A mulher fez uma mesura graciosa a Rand, murmurando um “Milorde Dragão”, e estendeu a mão para Min, chamando-a.

Min tinha bem menos prática em fazer mesuras, e Rand se sobressaltou ao vê-la se curvar.

Antes que as duas chegassem à saída, uma das portas se abriu com um estrondo, e uma mulher alta e uniformizada entrou com uma bandeja com cálices e um cântaro que exalava aroma de vinho e suco de melão doce. Perrin teve que se conter para não ficar encarando a mulher. Apesar do vestido vermelho e branco, ela poderia ser mãe de Chiad — ou talvez a avó, com aquele cabelo branco curto e cacheado. Franzindo a testa para as mulheres que saíam, ela avançou a passos largos até a mesa mais próxima e deixou a bandeja lá. Seu semblante era uma máscara de docilidade que parecia congelada no rosto.

— Disseram quatro pessoas, milorde Dragão — comentou ela, em um tom esquisito, como se estivesse tentando demonstrar respeito e humildade, mas com algo entalado na garganta —, então trouxe quatro xícaras .

A mesura dela fazia a de Min parecer elegante, e a mulher bateu a porta ao sair.

Perrin olhou para Rand.

— Às vezes você não acha que as mulheres são… estranhas?

— Por que está me perguntando isso? Você é que é casado. — Rand encheu um cálice chanfrado em prata e o entregou a Perrin. — Se você não sabe, vai ter que perguntar para o Mat. Entendo menos de mulheres a cada dia que passa.

— Eu também — retrucou Perrin, com um suspiro. O ponche era mesmo refrescante. Rand não parecia nem estar suando. — Aliás, cadê o Mat? Se eu tiver que tentar adivinhar, diria que está na taverna mais próxima, com um copo com dados na mão ou com uma garota no colo.

— Espero que você esteja muito errado — retrucou Rand, sarcástico, pousando o cálice sem nem tocar no ponche. — Ele está incumbido de trazer Elayne para cá, para ser coroada. E espero que traga Egwene e Nynaeve também. Luz, tenho tantas coisas para fazer antes de ela chegar… — Ele olhou de um lado a outro, feito um urso acuado, então fixou o olhar em Perrin. — Você iria a Tear para mim?

— Tear! Rand, faz mais de dois meses que estou na estrada, meu traseiro já ficou com o formato da sela.

— Com minha ajuda, você poderia chegar lá hoje à noite. Hoje mesmo. E aí pode dormir numa tenda de general e ficar bem longe de selas pelo tempo que quiser.