Perrin o encarou. Rand parecia sério. Foi quando se perguntou como andaria a sanidade do amigo. Luz, ele precisava se manter são , pelo menos até Tarmon Gai’don. Tomou um gole demorado de ponche, tirando aquele pensamento amargo da boca. Uma péssima coisa a se pensar a respeito de um amigo.
— Rand, mesmo que você pudesse me fazer chegar na Pedra de Tear neste exato momento, eu ainda diria não. Tenho assuntos a tratar com uma pessoa que está aqui em Caemlyn. E também queria ver Bo e as outras.
Rand não parecia estar ouvindo. Ele se jogou em uma das poltronas com douraduras e fitou Perrin, o olhar vazio.
— Você se lembra de como Thom fazia malabarismos com todas aquelas bolas e ainda fazia parecer fácil? Bem, eu estou fazendo malabarismos , tentando com todas as minhas forças, e não é fácil. Sammael está em Illian, e só a Luz sabe onde estão os outros Abandonados… Às vezes, acho que eles nem são a pior parte. Ainda tem os rebeldes, que acham que eu sou um falso Dragão. E os Devotos do Dragão, que acham que podem incendiar aldeias em meu nome… J á ouviu falar no Profeta, Perrin? Bem, não importa. Ele não é pior que o resto. Tenho aliados que se odeiam, e o melhor general que eu poderia nomear para enfrentar Illian só quer saber de atacar e acabar sendo morto. Com sorte, Elayne chega aqui em um mês e meio, talvez, mas pode ser que uma rebelião acabe caindo no meu colo antes disso. Luz, quero entregar uma Andor unida. Pensei em ir buscá-la eu mesmo, mas é a pior coisa que eu poderia fazer… — Ele esfregou o rosto com as mãos, então enfatizou, por entre os dedos: — A pior.
— E o que Moiraine diz disso tudo?
Rand baixou as mãos apenas o suficiente para encará-lo por cima dos dedos.
— Moiraine morreu, Perrin. Ela matou Lanfear e morreu.
Perrin se sentou. Moiraine? Impossível.
— Se Alanna e Verin estão aqui… — Ele girava o cálice entre as palmas das mãos. Não conseguia se convencer de que podia confiar em nenhuma das duas. — Você pediu o conselho delas?
— Não! — Rand fez um gesto brusco com a mão, como se cortasse alguma coisa. — Elas têm que ficar longe de mim, Perrin. Deixei isso bem claro para as duas.
Perrin decidiu pedir a Faile que falasse com Alanna ou Verin e descobrisse o que tinha acontecido. Aquelas duas sempre o deixavam um tanto desconfortável, mas Faile parecia se dar bem com elas.
— Rand, nós dois sabemos muito bem como é perigoso irritar uma Aes Sedai. Moiraine veio atrás da gente… ou melhor, de você, mas algumas vezes achei que ela fosse matar nós três . — Rand não respondeu, mas ao menos parecia ouvir, a cabeça inclinada. — Se um décimo das histórias que venho escutando desde Baerlon forem só meias verdades, esta talvez seja a pior época para ter Aes Sedai irritadas com você. Não vou dizer que sei o que está acontecendo na Torre, mas…
Rand se recompôs e chegou mais perto.
— A Torre está dividida, Perrin. Metade acha que sou um porco que pode ser comprado num mercado, a outra metade… Não sei bem o que elas acham. Passei três dias seguidos me encontrando com a missão diplomática que elas enviaram, e deve ter outra hoje à tarde, mas ainda não sei dizer. Elas perguntam bem mais do que respondem e não parecem muito felizes em não ter mais respostas do que me dão. Pelo menos Elaida, que é a nova Amyrlin, caso você não tenha ouvido falar… pelo menos o pessoal dela fala alguma coisa, mesmo parecendo achar que vou ficar tão impressionado em ver Aes Sedai fazendo mesuras para mim que não vou nem querer saber o que elas querem.
— Luz… — Perrin suspirou. — Luz! Está dizendo que tem mesmo uma rebelião entre as Aes Sedai e que você acabou se enfiando exatamente entre a Torre e as rebeldes? São dois ursos prontos para brigar, e você colhendo amoras-silvestres entre os dois! Nunca pensou que as Aes Sedai talvez já lhe trouxessem problemas suficientes sem isso? Olha, Rand, vou ser bem sincero: Siuan Sanche fazia meus dedos se encolherem todos dentro das botas, mas, com ela, pelo menos dava para saber onde se estava pisando. A mulher me fazia sentir como se eu fosse um cavalo e ela estivesse tentando decidir se eu serviria para uma cavalgada longa, mas pelo menos deixava claro que não era ela que iria me encilhar.
Rand riu, uma risada rouca demais para parecer alegre.
— Acha mesmo que as Aes Sedai me deixariam em paz só porque as deixei em paz? Eu, sendo quem sou? Para mim, a Torre se dividir foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Elas estão ocupadas demais umas com as outras para concentrar toda a atenção em mim. Sem isso, haveria vinte Aes Sedai para qualquer lugar que eu me virasse. Cinquenta. Pelo menos tenho Tear e Cairhien comigo, além de ter um ponto de apoio aqui. Sem essa divisão, a cada vez que eu abrisse a boca teria alguém dizendo: “É, mas segundo as Aes Sedai…” Perrin, Moiraine fez o que pôde para amarrar cordas em mim, até eu obrigá-la a parar. E, verdade seja dita, não tenho tanta certeza de que ela tenha mesmo parado. Quando uma Aes Sedai fala que vai aconselhar você e deixá-lo decidir, na verdade está dizendo que sabe muito bem o que você deveria fazer e que, se puder, vai obrigá-lo a fazer o que ela acha melhor. — Ele ergueu o cálice e bebeu com sofreguidão. Quando o baixou, parecia mais calmo. — Se a Torre estivesse unida, eu teria tantas cordas amarradas a mim que já não conseguiria mover um dedo sem pedir permissão para seis Aes Sedai.
Perrin também quase deu risada — e uma tão sem alegria quanto a de Rand.
— Então acha que é melhor fazer o quê, colocar as Aes Sedai rebeldes contra a Torre? “Torça para o touro ou torça para o urso. Torcendo para os dois, vai acabar pisoteado e jantado.”
— Não é tão simples assim, Perrin, mas elas não sabem disso — afirmou Rand muito convencido, balançando a cabeça. — Tem um terceiro lado, um lado pronto para se ajoelhar aos meus pés. Isso se conseguirem fazer contato outra vez. Luz! Não é assim que deveríamos estar passando nossa primeira hora juntos depois de tanto tempo, falando sobre Aes Sedai. E Campo de Emond, Perrin? — Sua expressão se suavizou, quase voltando a ser o Rand de que Perrin se lembrava, então abriu um sorriso ansioso. — Passei pouquíssimo tempo com Bo e as outras, mas elas falaram de todo tipo de mudanças. Me conte o que mudou, Perrin. Me conte o que está igual.
Os dois passaram um bom tempo falando sobre os refugiados e todas as coisas novas que aquelas pessoas tinham trazido, como novos tipos de feijões e abóboras, novas variedades de peras e maçãs, a fiação de belos tecidos e talvez tapetes, a confecção de tijolos e telhas, trabalhos em pedra e madeira mais ornamentados que qualquer coisa que chegava a Dois Rios havia muito tempo, se era que algum dia chegara. Perrin acabara se acostumando com a grande quantidade de pessoas que tinham cruzado as Montanhas da Névoa, mas isso foi uma surpresa para Rand. Falaram bastante sobre as vantagens e desvantagens da muralha que alguns queriam erguer em torno de Campo de Emond e das outras aldeias, assim como da diferença entre muralhas de pedra ou de troncos. Rand às vezes soava como seu velho amigo, rindo de como todas as mulheres começaram criticando os vestidos tarabonianos e domaneses, mas que depois se dividiram entre as que não usariam nada que não fossem os bons e resistentes vestidos de Dois Rios e as que tinham transformado todos os antigos vestidos em retalhos. Ou de como vários homens mais jovens estavam cultivando bigodes como os dos tarabonianos ou domaneses, vez ou outra com direito a um cavanhaque de Planície de Almoth, e os mais desajuizados pareciam ter um bichinho peludo preso bem debaixo dos narizes. Perrin não se deu ao trabalho de acrescentar que barbas como a dele estavam ainda mais populares.
Mas foi um choque quando Rand deixou claro que não tinha intenção de visitar o acampamento, apesar de vários conhecidos seus estarem por lá.
— Não posso proteger você nem Mat — explicou, em voz baixa —, mas posso proteger essas pessoas.