Bashere pegou a caneca amassada e a analisou, então recolocou-a na mesa e se sentou na outra cadeira.
— Zarine me falou muito a seu respeito antes de ir se encontrar com a mãe, contou tudo sobre o Lorde Perrin de Dois Rios, Assassino de Trollocs. Essa parte é boa. Gosto de homens capazes de ficar frente a frente com um Trolloc sem recuar. Mas quero saber que tipo de homem você é. — Dito isso, ele começou a bebericar o vinho e ficou esperando resposta.
Perrin queria ainda ter um pouco daquele ponche de melão que bebera com Rand, ou talvez até a caneca de vinho ainda intacta. Sentiu a garganta secar. Queria causar uma boa impressão, mas teve que começar pela verdade:
— A verdade dos fatos é que eu não sou nenhum lorde. Sou um ferreiro. Veja bem, quando os Trollocs apareceram… — Ele parou de falar porque Bashere gargalhava tanto que teve até que secar as lágrimas.
— Garoto, as Casas não foram feitas pelo Criador. Há quem se esqueça disso, mas, voltando no tempo, toda Casa começou com um plebeu que demostrou uma coragem incomum ou que manteve a calma e assumiu o comando quando todos corriam de um lado para o outro feito gansos depenados. E repare que muitos também gostam de esquecer que o caminho ladeira abaixo também pode começar assim de repente. Tenho duas criadas em Tyr que seriam ladies se, duzentos anos atrás, seus antepassados não tivessem sido tão tolos que nem mesmo um tolo os seguiria. E conheço um lenhador em Sidona que afirma que seus ancestrais de antes de Artur Asa-de-gavião eram reis e rainhas. Ele pode estar falando a verdade, já que é um bom lenhador. Há tantas subidas quanto descidas, e o caminho ladeira abaixo é tão escorregadio quanto qualquer outro. — Bashere bufou tão forte que o bigode se mexeu. — O tolo fica se lamuriando quando a sorte o coloca para baixo, mas só um verdadeiro tolo lamenta quando a sorte o faz subir. Não quero saber o que você era, nem estou tão interessado no que você é agora, estou querendo que você me conte como é por dentro. Se minha esposa não arrancar o couro de Zarine e se você sair vivo daqui… bem, você sabe como tratar uma esposa?
Ainda tentando causar uma boa impressão, Perrin decidiu não explicar que acharia muito melhor voltar a ser ferreiro.
— Trato Faile tão bem quanto sei tratar alguém — respondeu, hesitante.
Bashere bufou.
— Tão bem quanto sabe tratar alguém. — A voz neutra já virara um rosnado. — Melhor saber bem, ou eu vou… Escute aqui: uma esposa não é nenhum subordinado, para sair correndo depois de uns gritos. Dá para dizer que as mulheres são mais como pombas: é preciso segurar com metade da força que você acha necessária, ou pode acabar machucando a coitada. E você não quer machucar Zarine. Está me entendendo? — Ele de repente abriu um sorriso desconcertante, a voz assumindo um tom quase amigável. — Você pode servir bem como genro, Aybara, mas, se deixar minha menina triste… — Ele tateou o punho da espada outra vez.
— Vou tentar fazer Faile feliz — afirmou Perrin, muito sério. — A última coisa que quero é machucar minha esposa.
— E acho bom, porque seria a última coisa que você faria, garoto. — Aquilo também foi dito com um sorriso, mas não havia dúvidas de que Bashere faria valer cada palavra. — Acho que está na hora de irmos falar com Deira. Se ela e Zarine ainda não tiverem acabado a discussão, é melhor a gente se meter antes que acabem se matando. Elas sempre ficam com os ânimos um pouco exaltados sempre que discutem, e Zarine já está grande demais para Deira encerrar o assunto com umas bofetadas. — Bashere pousou a taça na mesa e continuou falando enquanto o conduzia até a porta. — Olha, você precisa entender que as mulheres, quando dizem que acreditam em alguma coisa, não estão necessariamente falando a verdade. Podem até acreditar, mas a coisa não vira necessariamente verdade só porque uma mulher acredita que seja. Nunca se esqueça disso.
— Não vou esquecer. — Perrin achou que tinha entendido. Faile e a verdade muitas vezes pareciam apenas meras conhecidas. Nunca quando se tratava de algo importante, ou pelo menos que ela considerasse importante, mas, quando a mulher prometia que faria algo que não queria fazer, sempre dava um jeito de deixar uma frestinha aberta por onde poderia escapar ainda mantendo a promessa, mesmo fazendo exatamente o que queria. Só não conseguia entender o que aquilo poderia ter a ver com o encontro que teria com a sogra.
Foi uma longa caminhada pelo Palácio, passando por corredores com colunatas e subindo vários lances de escada. Não parecia haver muitos saldaeanos por ali, mas havia um bom número de Aiel, incluindo Donzelas e vários serviçais uniformizados que se curvavam ou faziam reverências, além de homens e mulheres usando robes brancos iguais aos das pessoas que tinham pegado os cavalos quando ele chegou. Esses de branco zanzavam apressados, carregando bandejas ou pilhas de toalhas, mantendo os olhos baixos e parecendo não notar a presença de ninguém. Notou, surpreso, que vários usavam o mesmo pano escarlate preso à testa que muitos Aiel — também deviam ser do Deserto. E ainda notou mais um detalhe: tanto mulheres quanto homens de branco usavam o lenço escarlate, assim como muitos homens de calça e casaco pardos, mas nenhuma Donzela, ao menos não que ele tenha visto. Gaul já lhe falara um pouco sobre os Aiel, mas nunca mencionara aqueles lenços.
Quando ele e Bashere entraram em um aposento com mesinhas e poltronas incrustadas de marfim dispostas sobre um tapete com padrões vermelhos, dourados e verdes, seus ouvidos captaram vozes femininas abafadas, cada vez mais elevadas, discutindo em um aposento interno próximo. Não conseguiu compreender as palavras que captava através da porta de madeira grossa, mas conseguia reconhecer a voz de Faile. De repente, ouviu uma bofetada, logo seguida de outra. Perrin se retraiu. Só um perfeito cabeça de lã se metia entre a sogra e a esposa durante uma discussão — nos poucos eventos em que presenciara algo assim, ambas acabaram se voltando contra o pobre infeliz. Além disso, sabia muito bem que, em circunstâncias normais, Faile era mais que capaz de se defender sozinha. Em todo caso, já vira mulheres fortes, muitas mães e até avós, se permitirem ser tratadas como crianças pelas próprias mães.
Perrin estufou o peito e foi até a porta, mas Bashere chegou primeiro, batendo tranquilamente, como se tivessem todo o tempo do mundo. Claro que o homem não escutava o que os ouvidos de Perrin captavam com tanta clareza quanto um sujeito normal ouviria dois gatos se digladiando dentro de uma sacola. E gatos molhados.
As batidas de Bashere interromperam a briga, cortando a discussão como uma faca afiada.
— Pode entrar — autorizou uma voz serena, em alto e bom som.
Perrin teve que fazer o maior esforço do mundo para não empurrar Bashere para o lado. Assim que entrou, seus olhos ansiosos logo buscaram Faile: estava sentada em uma poltrona de braços largos, posicionada no ponto exato em que a luz que vinha das janelas parecia iluminar menos. Ali o tapete era quase todo vermelho-escuro, um tom que lembrava sangue, e uma das tapeçarias estampava uma mulher a cavalo matando um leopardo com uma lança, enquanto outra ilustrava uma batalha furiosa sob um estandarte do Leão Branco. O cheiro que ela emanava era uma mistura de emoções que Perrin não conseguia discernir, e a bochecha esquerda tinha a marca vermelha de uma mão. Mas ela sorriu, ainda que fosse um sorriso tênue.
Perrin ficou surpreso quando finalmente pôs os olhos na mãe de Faile. Estava esperando uma mulher frágil, com toda aquela conversa de Bashere sobre pombas, mas Lady Deira era algumas polegadas mais alta que o marido e tinha um porte… escultural. Não era grande como a Senhora Luhhan, que também era bem roliça, nem como Daise Congar, que parecia forte o bastante para manejar um martelo de ferreiro. Lady Deira tinha seios fartos — coisa que homem nenhum devia reparar a respeito da sogra — e, olhando para ela, ficava bem claro de onde vinha a beleza de Faile. O rosto de sua esposa era igual ao da mãe, mas sem a faixa branca no cabelo, saindo das têmporas. Se era assim que Faile ficaria naquela idade, Perrin era um homem de muita sorte. Por outro lado, quando os olhos enviesados da sogra se cravaram nele, aquele nariz pronunciado a fez parecer uma águia — uma águia de olhar ardente, pronta para enfiar as garras bem fundo naquele coelho particularmente insolente. A mulher cheirava a fúria e desprezo. Ainda assim, a verdadeira surpresa foi a marca vermelha de uma mão em sua bochecha.