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— Não é que eu desgoste dela, não exatamente… — começou Min, forçando as palavras. — É que… Bem, ela quer o que quer e na hora que quer e não aceita não como resposta. Tenho pena do coitado do Perrin, casado com ela. Sabe o que Faile queria comigo? Se assegurar de que eu não tinha nenhuma intenção de me aproximar demais de seu precioso marido. Você não deve ter notado, os homens nunca notam essas coisas… — Ela parou e ergueu os olhos para Rand, encarando-o cheia de suspeita por trás daqueles cílios compridos. Ele já demonstrara ser capaz de notar certas coisas, afinal. Assim que ficou satisfeita em ver que ele não parecia prestes a rir ou fazer algum gracejo, prosseguiu: — Só com aquele encontro rápido, vi que Perrin está enfeitiçado por ela, coitado. E ela por ele, se é que isso é bom. Acho que ele nem sequer olharia para qualquer outra mulher, mas Faile não acredita. Pelo menos não se essa outra mulher olhar primeiro. Enfim, ele encontrou o falcão, e eu não me surpreenderia se ela o matar quando o gavião aparecer. — Min fez uma pausa para respirar, então ergueu os olhos para Rand outra vez e tratou de beber o ponche.

Min explicaria aquela coisa de falcão e gavião, se ele perguntasse — até onde Rand lembrava, a mulher nunca revelava nada sobre suas visões que não dissesse respeito à pessoa que perguntava, mas algo fizera Min mudar em relação a ele nos últimos tempos. Passara a tentar ter visões de qualquer pessoa que ele pedisse, contando tudo o que visse. Só que fazer aquilo a deixava desconfortável.

Cale-se! , gritou para Lews Therin, em sua cabeça. Vá embora! Você está morto! Não adiantou. Já fazia um tempo que parara de funcionar. A voz continuou balbuciando alguma coisa, talvez sobre ser traído por amigos, talvez sobre traí-los.

— Você viu algo que tenha a ver comigo? — perguntou.

Com um sorriso agradecido, Min se aninhou em seu peito com uma intimidade de amigos de longa data — ao menos era o que ela provavelmente pretendia que fosse… se bem que, pensando melhor, talvez não — e começou a falar entre um gole de ponche e outro.

— Quando vocês dois estavam juntos, vi aqueles vagalumes e a escuridão mais fortes do que nunca. Hum… Eu gosto de ponche de melão. Mas, com os dois no mesmo ambiente, os vagalumes pareciam resistir, em vez de serem engolidos mais rápido do que conseguiam se juntar, que é o que acontece quando você está sozinho. E vi uma outra coisa quando vocês estavam juntos: haverá duas ocasiões em que Perrin deverá estar presente, ou você… — Ela encarou o cálice, sem querer ver o rosto de Rand. — Se ele não estiver, algo ruim vai acontecer com você. — A voz soava diminuta e assustada. — Algo muito ruim.

Mesmo querendo saber mais — como por exemplo o quê, onde e quando —, Rand não fez perguntas. Min teria contado, se soubesse.

— Então só preciso manter Perrin por perto — ponderou, no tom mais animado que conseguiu. Não gostava de ver Min assustada.

— Não sei se isso basta — murmurou ela, para o ponche. — Vai acontecer se ele não estiver presente, mas não vi nada que indicasse que não aconteceria se ele estivesse. E vai ser bem ruim, Rand. Só de pensar naquela visão, eu fico…

Rand ergueu o rosto dela e se surpreendeu ao ver lágrimas.

— Eu não sabia que essas visões podiam machucar tanto você, Min — comentou ele, com a voz suave. — Me desculpe.

— Você não sabe de um montão de coisas, pastorzinho — resmungou ela, arrancando um lenço com bordas rendadas da manga e secando os olhos. — Entrou um cisco, só isso. Você devia mandar Sulin limpar este lugar com mais frequência. — O lenço voltou para o lugar com um floreio. — Melhor eu voltar para A Coroa de Rosas. Só precisava contar o que vi a respeito de Perrin.

— Tenha cuidado, Min. Talvez não seja bom você vir tanto aqui. Não acho que Merana a deixaria impune se descobrisse o que você anda fazendo.

Ela abriu um sorriso que lembrava muito o da antiga Min, e seus olhos pareciam alegres, mesmo ainda brilhando com as lágrimas.

— Pode deixar que eu me preocupo com isso, pastorzinho. Elas acham que estou toda abobalhada com o que vejo em Caemlyn, como qualquer outra jeca de interior. Se eu não viesse aqui todo dia, como você ficaria sabendo que elas estão se reunindo com os nobres?

A caminho do Palácio, no dia anterior, Min por acaso vira Merana despontando na janela de uma mansão que ela descobrira pertencer a Lorde Pelivar. As chances de que Pelivar e seus convidados fossem os únicos presentes eram as mesmas de que Merana tivesse ido até lá para limpar os ralos.

— Tenha cuidado — insistiu Rand, com firmeza. — Não quero que você se machuque, Min.

Ela o analisou por um instante, muda, então se ergueu só o suficiente para o beijar bem de leve nos lábios. Ao menos… Bem, foi de leve, mas aquilo acabara se tornando uma espécie de costume sempre que ela ia embora, e Rand achava que aqueles beijos estavam ficando um pouco menos leves a cada dia.

— Preferia que você não fizesse isso — comentou, apesar de todas as promessas que fizera a si mesmo. Deixar que ela se sentasse em seu colo era uma coisa, mas aqueles beijos já estavam indo longe demais.

— Sem choro, fazendeiro. — Ela sorriu. — E sem gaguejar. — Min afagou seu cabelo como se Rand ainda tivesse dez anos e foi andando até a porta. Só que ela o fez em um balançar gracioso que podia não produzir lágrimas nem deixá-lo gaguejando, mas que com certeza tornavam difícil desviar os olhos, não importava quanto tentasse evitar. Quando Min se virou, Rand tratou de levar os olhos depressa para o rosto dela. — Ora, como você está corado, pastorzinho. Achei que o calor não incomodasse mais você. Bem, não importa. Só queria dizer que vou tomar cuidado. Nos vemos amanhã. Não se esqueça de calçar meias limpas.

Assim que a porta se fechou com firmeza atrás dela, Rand deixou escapar um longo suspiro. Meias limpas? Ora, botava roupas limpas todos os dias! Só lhe restavam duas alternativas: poderia continuar fingindo que Min não estava causando nenhum impacto até que ela desistisse ou poderia se resignar e gaguejar, como ela queria — ou talvez implorar. Se implorasse, ela talvez parasse, mas aí poderia espezinhá-lo com isso para o resto da vida, e como ela gostava de provocar… A única outra opção, que era manter seus encontros sempre curtos e agir com muita frieza, também estava fora de questão. Min era sua amiga. Seria como tentar ser frio com… só conseguia pensar em Aviendha e Elayne, mas elas não se encaixavam na situação. Seria como ser frio com Mat e Perrin. Só não entendia por que ainda se sentia tão confortável perto de Min. Não deveria, com ela provocando-o daquele jeito, mas era assim que se sentia.

Os murmúrios de Lews Therin tinham começado a se intensificar no instante em que Min mencionou as Aes Sedai, e ele já falava com toda a clareza. Se elas estão tramando algo com os nobres, tenho que tomar uma providência.

Vá embora, ordenou Rand.

Em nove, elas são perigosas, mesmo destreinadas. Muito perigosas. Não posso permitir. Não. Ah, não…

Vá embora, Lews Therin!

Eu não estou morto!, ganiu a voz. Eu mereço morrer, mas estou vivo! Vivo! Vivo!

Você está morto!, rebateu Rand gritando dentro da própria mente. Você está morto, Lews Therin!

A voz foi definhando, ainda uivando “Vivo!” até desaparecer.

Trêmulo, Rand se levantou e encheu o cálice outra vez, bebendo tudo de um gole só. Seu rosto pingava de suor, a camisa estava colada ao corpo. Retomar a concentração demandava esforço. Lews Therin estava cada vez mais persistente. Uma coisa era certa: se Merana estivesse tramando algo com os nobres, sobretudo com os nobres que estavam a ponto de declarar rebelião caso ele não apresentasse Elayne rápido o bastante, então precisava mesmo tomar uma providência. Infelizmente, não tinha ideia de qual.