Mate as mulheres, sussurrou Lews Therin. Em nove, elas são perigosas demais. Mas se eu matar algumas, se expulsar as outras daqui… é só matar… deixá-las com medo de mim… Aí não vou morrer de novo…
Eu mereço morrer, mas quero viver… Ele começou a chorar, mas continuou sussurrando.
Rand encheu o cálice outra vez e tentou não ouvir.
Quando viu o Portão Origan, a entrada para a Cidade Interna, Demira Eriff diminuiu o passo. Vários homens na multidão a olhavam com admiração conforme se espremiam para passar, e, no que talvez fosse a milésima vez, ela considerou que talvez devesse parar de usar os vestidos de sua terra natal, Arad Doman — e, também pelo que devia ser a milésima vez, desconsiderou imediatamente. Vestidos não faziam tanta diferença, já fazia anos que apenas mandava fazer cópias dos mesmos seis modelos, e se algum homem não notasse que ela era Aes Sedai e ficasse um pouco mais atrevido, não era difícil fazê-lo entender com quem estava se metendo. Aquilo sempre os fazia largar de seu pé bem depressa, quase sempre tão rápido quanto conseguiam correr.
Naquele instante, só tinha olhos para o Portão Origan, um grande arco de mármore branco cravado na muralha branca e cintilante, e para o fluxo de gente, carroças e carroções que o cruzavam sob os olhares dos dez Aiel — suspeitava de que eles não estivessem tão desatentos e relaxados quanto pareciam, e talvez pudessem reconhecer uma Aes Sedai só de olhar. Era surpreendente, mas algumas pessoas tinham essa capacidade. Além disso, fora seguida desde A Coroa de Rosas — aqueles casacos e calças feitos para se camuflar na paisagem de rochas e arvoredos chamavam muita atenção nas ruas da cidade. Então, mesmo que ela quisesse entrar na Cidade Nova, mesmo que estivesse disposta a correr o risco de irritar Merana, entrando sem a permissão de al’Thor, não conseguiria. Ah, como aquilo a irritava! Aes Sedai precisando da permissão de um homem. Só queria ver Milam Harnder, o Segundo Bibliotecário do Palácio Real, seu agente havia quase trinta anos.
A biblioteca do Palácio não se comparava à da Torre Branca, ou mesmo à Biblioteca Real de Cairhien, ou à Biblioteca Terhana, em Bandar Eban, mas conseguir acesso a qualquer uma dessas seria tão fácil quanto criar asas e voar. Bem, se Milam tivesse recebido sua mensagem, já teria começado a procurar os livros de que ela precisava. A biblioteca do Palácio poderia muito bem ter informações sobre os selos da prisão do Tenebroso, quem sabe até algumas fontes catalogadas — mas talvez isso já fosse esperar demais. A maioria das bibliotecas possuía alguns volumes largados, livros que já deveriam ter sido registrados havia muito, mas que permaneceram esquecidos por cem ou quinhentos anos, às vezes até mais. Quase todas as bibliotecas guardavam segredos de que nem os bibliotecários suspeitavam.
Ficou esperando, com toda a paciência, deixando a multidão fluir ao redor, atenta apenas às pessoas que saíam pelo portão, mas não avistou a cabeça calva e o rosto redondo de Milam. Por fim, suspirou. Ele não recebera a mensagem, ou teria inventado alguma desculpa para estar ali na hora marcada. Teria que esperar pela sua vez de acompanhar Merana até o Palácio e torcer para que o jovem al’Thor lhe desse permissão — permissão! — para procurar na biblioteca.
Desviou os olhos da multidão, sem querer cruzando olhar com o de um sujeito alto de rosto magro com colete de carroceiro que a fitava com admiração excessiva. Quando seus olhos se encontraram, ele deu uma piscadela!
Ah, não aguentaria aquilo durante todo o caminho de volta até a estalagem. Eu não posso me esquecer de mandar fazer uns vestidos mais comuns , pensou, perguntando-se por que ainda não tomara essa providência. Por sorte, já visitara Caemlyn antes, alguns anos atrás. Stevan estaria esperando na estalagem A Coroa de Rosas — o homem poderia ser um bom sinalizador para acrescentar àquelas caminhadas, se houvesse necessidade. Deslizou para a penumbra de uma abertura estreita entre a oficina de um cuteleiro e uma taverna.
Da última vez que visitara a cidade, as vielas estreitas de Caemlyn estavam enlameadas. Agora, mesmo secas, quanto mais ela avançava, pior era o cheiro. As paredes eram lisas, sem janelas, e era raro ver uma porta estreita ou um portão apertado, e os que ela via pareciam não ser abertos havia muito tempo. Gatos raquíticos espiavam em silêncio do alto de barris e de paredes, e cães de rua com costelas pronunciadas voltavam as orelhas para trás, por vezes rosnando antes de escaparem, sorrateiros, por alguma passagem transversal, que era como chamavam essas vielas naquela região. Não tinha nenhum medo de ser arranhada ou mordida. Os gatos sempre pareciam sentir algo nas Aes Sedai, e nunca ouvira falar de uma que tivesse sido arranhada nem mesmo pelo gato mais feroz. Verdade que os cães sempre se mostravam hostis, praticamente como se pensassem que as Aes Sedai fossem gatos, mas quase sempre saíam de fininho depois de rosnar um pouco.
Havia bem mais cães e gatos nas passagens do que ela se lembrava, todos magrelos, mas tinha bem menos gente. Não vira uma alma sequer até dobrar uma última esquina e dar de cara com cinco ou seis Aiel que vinham em sua direção, todos rindo e conversando. Pareceram assustados em vê-la.
— Perdão, Aes Sedai — murmurou um deles, e todos se apertaram contra uma das laterais da passagem, mesmo já havendo espaço o bastante para passar.
Demira se perguntou se seriam os mesmos que a haviam seguido mais cedo, já que um daqueles rostos parecia um tanto familiar — era um sujeitinho atarracado com olhos vilanescos. Ainda assim, assentiu e agradeceu baixinho enquanto passava.
O choque foi tão grande ao sentir a lança penetrando a lateral do corpo que Demira nem gritou. Buscou saidar, desesperada, mas sentiu outra pontada trespassando pelo lado do corpo, então caiu na poeira. Aquele rosto familiar estava colado ao seu, os olhos negros com um brilho zombeteiro, rosnando palavras que ela não ouvia enquanto tentava abraçar saidar , tentava… Então veio a escuridão.
Quando Perrin e Faile finalmente se viram livres daquela entrevista interminável com os pais dela, Sulin, aquela serviçal esquisita, já estava esperando no corredor. Perrin estava ensopado de suor, que deixara manchas escuras em seu casaco, e sentia como se tivesse corrido dez milhas sendo açoitado a cada passada. Faile tinha um sorriso estampado no rosto e andava quase saltitando. Estava radiante, bonita, e parecia tão orgulhosa de si mesma quanto na ocasião em que chegara com os homens de Colina da Vigília no exato instante em que os Trollocs estavam prestes a quebrar o cerco de Emond. Sulin fazia uma mesura toda vez que um dos dois olhava para ela, sempre tão desajeitada que ficava a ponto de cair. Seu rosto coriáceo com a cicatriz descendo pela bochecha estava congelado em um sorriso prestativo, mas que parecia pronto para se espatifar com uma única respiração. Donzelas transitavam pelos corredores, gesticulando umas para as outras com as mãos, e Sulin também fazia reverências para elas, ainda que rangesse os dentes alto o bastante para Perrin ouvir com clareza. Até Faile começou a olhar para ela com cautela.
Depois que a mulher os conduziu a seus aposentos — uma sala de estar e um quarto com uma cama de dossel grande o bastante para dez pessoas, além de uma varanda de mármore comprida que dava para um pátio com uma fonte —, ela insistiu em explicar e mostrar tudo, até o que já conseguiam ver. Os cavalos haviam sido esfregados e levados para a estrebaria. Os alforjes tinham sido retirados da bagagem e dependurados no guarda-roupa, junto com a cinta do machado de Perrin, e quase todos os seus escassos pertences estavam guardados em perfeita ordem em um gaveteiro. O machado de Perrin estava escorado ao lado da lareira de mármore cinza, como se tivesse sido feito para cortar gravetos. Dois jarros de prata reluzentes por conta da condensação continham chá gelado de menta e ponche de ameixa. Sulin fez questão de apontar os dois espelhos de moldura dourada, mesmo que fossem tão evidentes que nem um cego teria deixado de ver; um estava apoiado sobre uma mesa de cabeceira, sobre a qual também estavam a escova e o pente de marfim de Faile; o outro era um espelho grande de pé com suportes entalhados.