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Enquanto Sulin explicava que estavam trazendo a água para o banho e mostrava as banheiras de cobre, Perrin enfiou uma coroa de ouro em sua palma calejada.

— Obrigado — agradeceu —, mas se você não se incomodar, pode ir… — Por um momento, achou que a mulher fosse atirar a moeda em cima dele, mas ela simplesmente fez outra reverência trêmula e bateu a porta ao sair.

— Ora, acho que quem treina as criadas não entende muito do assunto — opinou Faile. — Uma solução ótima, aliás. Você foi educado, mas firme. Se ao menos fosse assim com os nossos serviçais. — Quando ela virou as costas magras, baixou a voz a um murmúrio: — Desabotoa o vestido para mim?

Perrin sempre sentia que tinha dedos muito grossos e desajeitados quando precisava lidar com os botõezinhos minúsculos das roupas de Faile, e sempre ficava com receio de arrancá-los ou de rasgar o vestido. Por outro lado, gostava de despir a esposa. Ela em geral pedia ajuda a uma criada, e Perrin tinha certeza de que era por causa dos muitos botões que já perdera.

— Aquelas bobagens para a sua mãe… alguma coisa daquilo era a sério?

— Ora, meu marido, você não me domou? — retrucou Faile, sem nem se virar para olhá-lo. — Não me ensinou que devo me empoleirar em seu pulso ao menor chamado? Eu não corro para fazer suas vontades? Não obedeço até seus menores caprichos?

Faile estava com um cheiro quase debochado, e sua voz com certeza soava divertida. O problema era que também parecia estar falando sério, com o mesmo tom e ênfase que falara aquelas mesmas palavras para a mãe, mantendo a cabeça erguida e imbuindo a voz com o máximo de orgulho que podia sentir. As mulheres eram mesmo estranhas, não havia o que fazer. E a mãe dela…! Aliás, até o pai…!

Talvez fosse melhor mudar de assunto. O que era mesmo aquele negócio que Bashere mencionara?

— Faile, o que é uma coroa partida? — Tinha certeza de que era aquele o nome.

Ela soltou um muxoxo irritado e começou a cheirar meio incomodada.

— Rand está fora do Palácio, Perrin.

— E qual é o problema? — Ele se curvou para encarar um botãozinho de madrepérola minúsculo de perto e franziu o cenho às costas dela. — Como é que você sabe?

— As Donzelas. Bain e Chiad me ensinaram um pouco daquela linguagem de sinais. Não conte para ninguém, Perrin. Pela cara que fizeram quando ficaram sabendo que tinha Aiel aqui na cidade, acho que não deviam ter me ensinado. Bem, talvez seja bom entender as conversas sem que elas saibam. Ficam tantas perto de Rand… — Ela se virou, encarando-o com um olhar malicioso e passando a mão em sua barba. — Aquelas primeiras Donzelas que encontramos acharam que você tem ombros bonitos, mas não acharam isso aqui muito charmoso. As Aiel não sabem apreciar uma bela barba.

Balançando a cabeça, Perrin esperou Faile dar as costas de novo para guardar no bolso, sorrateiro, o botão que caíra quando ela virou de repente. Talvez ela não notasse. Ele mesmo passara uma semana sem um dos botões do casaco, só reparou quando Faile comentou. Quanto à questão da barba, a julgar pelo que Gaul lhe contara, os Aiel sempre se mantinham de rosto liso. Bain e Chiad tinham feito brincadeirinhas estranhas sobre a barba espessa de Perrin — naquele calor, ele mais de uma vez chegara a considerar raspá-la, mas Faile gostava mesmo da barba.

— E Rand? Por que está me contando que ele saiu do Palácio?

— Só porque você deveria saber o que seu amigo anda fazendo pelas suas costas. Óbvio que você não sabia que ele ia sair. Não se esqueça de que ele é o Dragão Renascido. É quase como um rei, um rei dos reis, e os reis às vezes usam até os próprios amigos, tanto por acaso quanto de propósito.

— Rand não faria uma coisa dessas. O que você está sugerindo, afinal? Que eu fique espionando meu amigo?

Tinha sugerido aquilo de brincadeira, mas Faile respondeu:

— Você não, meu amor. Essa é uma missão para uma esposa.

— Faile! — Perrin se endireitou tão depressa que quase arrancou outro botão, então segurou-a pelos ombros e virou-a de frente para ele. — Você não vai espionar Rand, está me ouvindo? — Ela o encarou com um olhar obstinado, abrindo a boca para retrucar e estreitando os olhos. A mulher estava praticamente fedendo a teimosia, mas Perrin também sabia ser teimoso. — Faile, quero ver um pouco daquela obediência de que você estava se gabando mais cedo. — Faile sempre só fazia o que ele pedia quando queria. Do contrário, ela simplesmente não obedecia e nem levava em conta se ele estava ou não certo em pedir o que fosse. — Estou falando sério, Faile. Quero que me prometa que não vai fazer isso. Eu não vou participar de…

— Eu prometo, meu coração — interrompeu ela, tocando de leve a boca de Perrin com os dedos. — Prometo que não vou espionar Rand. Viu? Eu obedeço ao meu marido. Você ainda se lembra de quantos netos minha mãe falou que quer?

Perrin piscou, pego de surpresa pela súbita mudança de assunto. Bem, ao menos ela prometera, e isso é que importava.

— Seis, eu acho. Perdi a conta quando ela começou a falar de quantos meninos e meninas.

Lady Deira os fizera ouvir alguns conselhos assustadoramente francos a respeito de como poderiam atingir logo a quantidade ideal de netos de cada sexo, e Perrin por sorte não prestara atenção — estava mais ocupado se perguntando se era mesmo para ficar ali na sala até ela terminar. Faile apenas assentira, como se fosse a coisa mais natural do mundo falar daquilo com o marido e o pai presentes.

— Pelo menos seis — corrigiu ela, com um sorriso realmente perverso. — Perrin, minha mãe só vai nos deixar em paz quando eu puder dizer que o primeiro já vem logo, então pensei que se algum dia você conseguisse abrir o resto dos meus botões… — Ela ainda ruborizava, mesmo depois de meses de casamento, mas aquele sorriso malicioso permaneceu. — Ver uma cama de verdade depois de tantas semanas me deixa atrevida feito uma fazendeira na época da colheita.

Perrin às vezes ficava pensando nessas garotas de fazenda saldaeanas de que Faile sempre falava. Enrubescendo ou não, se fossem tão atrevidas quanto a esposa era quando ficavam a sós, aquele país nunca devia ver uma safra colhida. Arrebentou outros dois botões enquanto tirava o vestido de Faile, que não se importou nem um pouco e até deu um jeito de rasgar sua camisa.

Demira ficou surpresa ao abrir os olhos, chocada por se ver deitada na cama do próprio quarto na estalagem A Coroa de Rosas. Deveria estar morta, não nua e metida entre lençóis de linho. Stevan estava sentado em um banco ao pé da cama. Conseguia parecer aliviado, preocupado e irritado ao mesmo tempo. O esbelto Guardião cairhieno era uma cabeça mais baixo que ela e quase vinte anos mais jovem, mesmo com todos os fios grisalhos nas têmporas, mas, às vezes, tentava se comportar como um pai e praticamente afirmava que ela não conseguiria dar conta de si mesma sem ele para conduzi-la pela mão. Demira só temia que esse episódio fosse lhe dar crédito nas disputas intermináveis que os dois teriam, durante os meses por vir. Merana estava ao lado da cama, solene, e Berenicia estava do outro lado. A irmã Amarela e rechonchuda sempre tinha um ar um tanto solene, mas dessa vez estava ainda pior.

— Como? — perguntou com dificuldade.

Luz, estava fraca. Era efeito da Cura. Precisou de um esforço enorme para tirar os braços de sob o lençol. Devia ter chegado muito perto da morte. A Cura não deixava cicatrizes, mas a memória da dor e a fraqueza já eram mais que suficientes.