Tecnicamente, as mulheres ficaram no mesmo acampamento, mas, de certa forma, o seu lado ficava tão à parte que era como se estivesse a cinquenta passadas de distância. Uma linha invisível parecia dividir o acampamento ao meio, com algum aviso implícito advertindo os homens do Bando para que não atravessassem. Nynaeve, Elayne e as duas mulheres de cabelo branco se reuniram em torno da própria fogueira junto com Aviendha e a Caçadora de cabelo dourado, e era raro que até mesmo olhassem na direção em que Mat e seus homens estendiam seus cobertores. Conversavam em murmúrios que Mat mal conseguia escutar, e o pouco que foi capaz de identificar tinha a ver com a preocupação de Vandene e Adeleas de que Aviendha pretendesse arrastar seu cavalo até Ebou Dar, em vez de montá-lo. Thom tentou trocar umas palavras com Elayne e acabou recebendo um tapinha amigável na bochecha antes de ela mandá-lo voltar a se sentar com Juilin e Jaem, o Guardião idoso e magro — embora musculoso — que pertencia a Vandene e que parecia passar todo o seu tempo afiando a espada.
Mat não se opunha às mulheres ficarem separadas. Pairava sobre elas uma tensão que ele não conseguia compreender. Pelo menos era assim com Nynaeve e Elayne, e a Caçadora também parecia contaminada. Às vezes, ficavam olhando para as Aes Sedai — as outras Aes Sedai, e ele não tinha certeza se algum dia conseguiria se acostumar a pensar em Nynaeve e Elayne como tal — com certo excesso de concentração, apesar de Vandene e Adeleas parecerem tão distraídas quanto Aviendha. Fosse qual fosse o motivo, Mat não queria parte naquilo. Uma discussão parecia estar se armando e, independentemente do desfecho, um homem sábio passaria longe de discussões entre mulheres. Com ou sem medalhão de raposa, um homem sábio passaria ainda mais longe se essas mulheres fossem Aes Sedai.
Tratava-se apenas de um pequeno aborrecimento, assim como o seguinte, que no caso era culpa dele mesmo: a comida. Não demorou muito para sentirem cheiro de carneiro e de algum tipo de sopa, vindo da fogueira das Aes Sedai. Esperando uma viagem curta e rápida até Ebou Dar, ele não mencionara nada sobre comida para Vanin e os demais, o que significava que os homens traziam nos alforjes um pouco de carne-seca e pedaços duros de pão ázimo. Mat mal vira um pássaro ou um esquilo, muito menos qualquer sinal de um veado, de forma que caçar estava fora de questão. Quando Nerim montou uma mesinha dobrável e um banquinho para Mat — Lopin estava montando outro para Nalesean —, Mat mandou que ele dividisse entre o grupo o que ele havia enfiado nos cestos dos burros de carga. O resultado não foi tão bom quanto ele esperava.
Nerim ficou por perto da mesa de Mat, servindo água com um jarro de prata como se fosse o vinho mais fino e observando com ar pesaroso as iguarias desaparecerem nas goelas dos homens do Bando.
— Ovos de codorna na salmoura, milorde — anunciava ele em tom fúnebre. — Teriam caído muito bem no café de manhã de milorde em Ebou Dar. E a melhor língua defumada, milorde. Se milorde fizesse ideia do que eu precisei passar para encontrar língua defumada com mel naquela aldeia horrorosa, correndo contra o tempo, pois tudo o que havia de melhor já tinha sido tomado pelas Aes Sedai. — Na realidade, a maior queixa do homem parecia ser o fato de Lopin ter encontrado cotovias em conserva para Nalesean. Toda vez que este dava uma mordida em seu jantar, o sorriso convencido de Lopin aumentava, assim como a careta infeliz de Nerim. Mas ficava claro, pelo modo como alguns homens farejavam o ar, que eles prefeririam ter comido um pedaço de carneiro ou uma tigela de sopa do que todo o estoque de Mat de língua defumada com mel ou de patê de fígado de ganso. Olver olhava para a fogueira das mulheres com olhar abertamente desejoso.
— Quer ir comer com elas? — Mat perguntou para o menino. — Se quiser, não tem problema.
— Eu adoro enguia curada — respondeu Olver com determinação. Em um tom mais sombrio, acrescentou: — De qualquer forma, ela pode colocar alguma coisa dentro. — Seus olhos acompanhavam Aviendha sempre que ela se movia, e o garoto aparentava ter começado a implicar também com a Caçadora, talvez por ela passar boa parte do tempo conversando amigavelmente com a Aiel. Aviendha devia ter sentido o olhar do menino, já que o encarou de volta com o cenho franzido.
Mat esfregava o queixo e observava a fogueira das Aes Sedai — pensando bem, ele próprio também preferiria ter comido carneiro e tomado sopa — quando se deu conta de que Jaem não estava à vista. Vanin se irritou por ter sido mandado sondar o terreno de novo, mas Mat o enviou pelo mesmo motivo que designara o homem para ir como batedor à frente durante o dia, apesar do fato de Jaem também tê-lo feito. Não queria depender do que as Aes Sedai escolhiam lhe contar. Poderia ter confiado em Nynaeve — não achava que ela fosse mentir para ele, já que, enquanto Sabedoria, Nynaeve sempre fora implacável com mentirosos —, mas ela continuava espreitando-o por cima do ombro de Adeleas de um modo muito suspeito.
Para a surpresa dele, Elayne se levantou assim que Mat terminou de comer e, como que deslizando pelo chão, atravessou aquela linha invisível. Algumas mulheres tinham um andar tão elegante que pareciam mal tocar o chão.
— Quer dar uma volta comigo, Mestre Cauthon? — indagou em tom frio. Não exatamente educada, mas também não exatamente rude.
Mat gesticulou para que Elayne fosse na frente, e ela saiu flutuando em direção às árvores sombreadas pelo luar, logo depois das sentinelas. Aquela cabeleira dourada se lhe caía pelos ombros, emoldurando um rosto que atrairia o olhar de qualquer homem. O luar atenuava seu ar arrogante. Fosse ela qualquer coisa diferente do que era… E Mat não se referia apenas a ser Aes Sedai, nem mesmo ao fato de ela pertencer a Rand. Aliás, Rand parecia estar se envolvendo com o pior tipo de mulher, considerando que sempre tivera jeito com elas. Foi então que Elayne começou a falar, e Mat se esqueceu de todo o resto.
— Você tem um ter’angreal — afirmou, sem preâmbulos e sem sequer olhar para ele. Apenas seguia deslizando, farfalhando as folhas no solo como que esperando que ele seguisse em seu encalço feito um cão de caça. — Há quem afirme que todos os ter’angreal pertencem às Aes Sedai, mas não vou exigir que você se desfaça dele. Ninguém vai tirá-lo de você. Só que esses objetos precisam ser estudados. Por esse motivo, quero que você me entregue o ter’angreal toda noite, quando pararmos. Eu vou devolvê-lo todas as manhãs antes de sairmos.
Mat olhou para ela de soslaio. Estava falando sério, não havia dúvida.
— Muito gentil da sua parte me deixar ficar com o que é meu. Mas não sei por que você acha que eu estou com um desses… como foi que você disse? Ter’alguma coisa?
Ah, aquilo a fez se enrijecer e também dirigir o olhar a Mat. Ele ficou surpreso por não ver nenhum fogo saltar dos olhos dela para iluminar a noite. Sua voz, por outro lado, era o mais puro cristal de gelo.
— Você sabe muito bem o que é um ter’angreal, Mestre Cauthon. Eu ouvi quando Moiraine lhe falou a respeito deles na Pedra de Tear.