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Ao menos Thom e Juilin se mostravam dispostos a cavalgar ao lado dele durante o dia, sempre que Elayne não exigia a atenção dos dois. Ela às vezes o fazia só para mantê-los longe de Mat, ele tinha certeza, embora não conseguisse entender o porquê. Tão logo o grupo passou a se hospedar em estalagens, os dois ficaram mais do que felizes em tomar uma caneca de cerveja ou de ponche com ele e Nalesean à noite. Eram estalagens de interior, com salões tranquilos e paredes de alvenaria, onde a diversão era ficar observando o gato malhado local e nas quais a própria estalajadeira servia as mesas, sempre uma mulher cujos quadris davam a impressão de que, caso alguém se arriscasse a dar um beliscão, acabaria com os dedos quebrados. A conversa girava principalmente em torno de Ebou Dar, lugar do qual Thom sabia bastante, mesmo sem nunca ter estado lá. Sempre que lhe faziam perguntas, Nalesean se mostrava mais que disposto a relembrar sua única visita ao local, apesar de preferir se concentrar nos duelos que presenciara e nas apostas em corridas de cavalos. Juilin sabia de histórias de homens que conheciam sujeitos que haviam estado lá, isso quando o relato não tinha fontes ainda mais distantes, que pareciam impossíveis de se acreditar até Thom ou Nalesean as confirmarem. Em Ebou Dar, homens travavam duelos por mulheres, mulheres duelavam por homens, e, em ambos os casos, o prêmio — era a palavra que se usava — concordava em ficar com o ganhador. No dia do casamento, os homens davam uma faca de presente para as mulheres e pediam que elas a utilizassem para matá-los caso eles as desagradassem — as desagradassem! —, e o assassinato de um homem por uma mulher era considerado justificável, a menos que se provasse o contrário. Em Ebou Dar, os homens pisavam em ovos perto das mulheres e se forçavam a sorrir diante de ofensas que teriam sido motivo para matarem outro homem. Elayne iria adorar aquele lugar. Nynaeve também.

Algo mais surgiu daquelas conversas. Parecia que Mat não havia imaginado o desprazer de Nynaeve e Elayne com relação a Vandene e Adeleas, por mais que elas tivessem tentado esconder esse fato. Nynaeve aparentava se contentar em ficar encarando as outras duas e murmurando coisas para si mesma. Elayne não fazia cara feia nem murmurava nada, mas tentava assumir o controle o tempo todo e parecia pensar que já era a Rainha de Andor. A despeito da quantidade de anos que aqueles rostos de Aes Sedai escondiam, Vandene e Adeleas tinham que ter idade suficiente para serem mães das duas mais jovens, se não avós. Mat não se surpreenderia se descobrisse que elas já eram Aes Sedai quando Nynaeve e Elayne eram bebês. Nem Thom era capaz de compreender tanta tensão, e parecia que, para quem não passava de um simples menestrel, o homem de fato entendia de uma porção de assuntos. Quando Thom tentou fazer um delicado protesto, Elayne quase arrancou o nariz dele e lhe disse que ele não entendia, nem podia entender. Parecia que as duas Aes Sedai mais velhas eram extremamente tolerantes. Quando Elayne dava ordens, Adeleas agia como se nem tivesse reparado, e tanto ela quanto Vandene pareciam ficar surpresas quando acabavam se dando conta.

— Vandene falou para ela: “Bem, criança, se você faz questão, claro que podemos” — murmurou Juilin antes de tomar um gole de cerveja ao rememorar um incidente. — Seria de se imaginar que alguém que não passava de uma Aceita há poucos dias ficaria contente. Mas os olhos de Elayne me pareceram uma tempestade de inverno. Nynaeve rangeu os dentes com tanta força que eu achei que eles fossem rachar.

Eles estavam no salão da estalagem A Faca de Casamento. Vanin, Harnan e os demais ocupavam bancos nas outras mesas, junto com vários locais. Os homens trajavam coletes compridos, alguns coloridos o suficiente para um Latoeiro, a maioria sem camisa por baixo, e as mulheres usavam vestidos claros com decotes profundos, as saias levantadas até um dos joelhos, deixando à mostra anáguas tão coloridas que acabavam por fazer os coletes empalidecerem. Muitos dos homens e todas as mulheres ostentavam grandes brincos de argola e costumavam trazer nas mãos três ou quatro anéis que reluziam com vidros coloridos. Tanto homens quanto mulheres corriam os dedos por longas facas curvadas enfiadas em seus cintos e lançavam olhares sombrios para os forasteiros. Havia dois comboios de mercadores de Amadícia hospedados ali, mas os mercadores tinham jantado em seus quartos e os condutores permaneciam nos carroções. Elayne, Nynaeve e o restante das mulheres também se encontravam no andar de cima.

— As mulheres são… diferentes — afirmou Nalesean às gargalhadas em resposta a Juilin, embora, cofiando a ponta da barba, dirigisse as palavras a Mat. Não costumava ser tão formal com plebeus, mas Juilin era um plebeu taireno, e isso parecia fazer certa diferença, especialmente porque Juilin o olhava nos olhos quando Nalesean falava com ele. — Há um ditado camponês em Tear: “Uma Aes Sedai é dez mulheres numa única pele.” Os camponeses têm uma boa dose de sabedoria, às vezes, e que minha alma queime se não é verdade.

— Pelo menos ninguém fez nada, digamos, drástico — ponderou Thom —, apesar de eu ter achado que chegou perto quando Elayne deixou escapar que tinha transformado Birgitte na primeira Guardiã dela.

— A Caçadora?! — exclamou Mat. Vários locais lhe lançaram olhares firmes, e ele baixou a voz. — Ela também é Guardiã? Guardiã de Elayne? — Aquilo com certeza explicava algumas coisas.

Thom e Juilin se entreolharam por cima da borda das canecas.

— Ela vai ficar feliz por saber que você achou que ela era uma Caçadora da Trombeta — afirmou Thom, limpando a cerveja do bigode. — Ela é Guardiã, sim, e foi isso que quase causou um bate-boca. Jaem passou a encará-la como uma irmã mais nova, mas Vandene e Adeleas… — O menestrel soltou um suspiro profundo. — Nenhuma das duas ficou muito contente por Elayne já ter escolhido uma Guardiã. Aparentemente, a maioria das Aes Sedai passa anos sozinha antes de formar um elo. E não ficaram contentes por ela ainda por cima ter escolhido uma mulher. E o fato de elas não estarem contentes deixou Elayne ainda mais zangada.

— Elas não parecem gostar de fazer coisas que ainda não foram feitas — acrescentou Juilin.

— Uma Guardiã mulher — resmungou Nalesean. — Eu sabia que tudo iria mudar com o Dragão Renascido, mas uma Guardiã mulher?

Mat deu de ombros.

— Eu creio que ela vai dar conta, desde que saiba mesmo atirar com aquele arco. Desceu pelo buraco errado? — perguntou para Juilin, que começara a se engasgar com a cerveja. — Troco uma espada por um bom arco em qualquer situação. O melhor é um cajado, mas um arco também serve. Só espero que ela não tente se meter no meu caminho quando chegar a hora de levar Elayne para Rand.

— Acho que ela sabe. — Thom inclinou-se por cima da mesa para dar um tapinha nas costas de Juilin. — Acho que ela sabe, Mat.

Mas se Nynaeve e as demais estavam prestes a puxar os cabelos umas das outras — e Mat não iria querer ficar a menos de dez milhas delas se algo assim acontecesse, com ou sem o amuleto de raposa —, não demonstravam nada disso. Tudo o que ele via era uma frente sólida, e mais tentativas de canalizar nele, começando enquanto ele encilhava Pips na manhã seguinte à primeira tentativa. Por sorte, ele estava ocupado tentando dispensar Nerim, que achava que encilhar o cavalo de Mat era tarefa sua e insinuava que era capaz de fazer aquilo melhor que ele, mas, como o lampejo frio só durou um instante, Mat não deu sinal de que chegara a perceber algo. Aquela, ele determinou, seria a sua resposta. Nada de encarar, nada de fazer cara feia, nada de acusar. Ele as ignoraria e as deixaria cozinhar em seu próprio caldo.