Mat teve diversas oportunidades para ignorá-las. O medalhão de prata se resfriou mais duas vezes antes que eles encontrassem a estrada, e várias vezes mais durante o dia, naquela noite, e em todos os dias e noites subsequentes. Às vezes, o frio vinha e sumia em um piscar de olhos, e às vezes ele tinha certeza de que perdurava por uma hora. Não era possível dizer qual delas era a responsável, claro. Ou normalmente não era possível. Uma vez, quando o calor o presenteara com uma assadura nas costas e o cachecol em torno do pescoço pareceu a ponto de lhe decapitar como uma serra, ele flagrou Nynaeve olhando para ele no momento em que o medalhão foi esfriando. A mulher fazia uma careta tão feia que um fazendeiro que passava ali perto, cutucando seu boi com um pedaço de pau para tentar fazer o animal andar mais rápido, espiou-a por cima do ombro como se estivesse com medo de que aquele olhar pudesse se voltar para ele a qualquer momento, talvez matando o boi preso às traves da carroça. Foi só quando Mat devolveu a careta que se sobressaltou e quase caiu da sela, e o frio cessou. Quanto às demais ocasiões, ele simplesmente não conseguia saber. Algumas vezes, podia ver duas ou três delas observando-o, inclusive Aviendha, que continuava a pé puxando sua égua. Outras, no momento em que ele se virava para olhá-las, estavam conversando entre si ou observando uma águia a voar pelo céu límpido, ou um grande urso negro, com uma vez e meia a altura de um homem, ficar de pé em meio às árvores numa encosta íngreme à vista da estrada. A única coisa boa em tudo isso era que Mat tinha a impressão de que Elayne estava descontente. Ele não sabia por quê, e não se importava. Como ela ousava. Inspecionava os seus homens. Elogiava-o com tapinhas nas costas. Fosse ele o tipo de homem capaz deste tipo de coisa, teria dado um pontapé nela.
Na realidade, contudo, ele começou a ficar um pouco presunçoso. O que quer que aquelas mulheres estivessem fazendo, não surtia nenhum efeito nele que um dedo de uma das pomadas de Nerim não pudesse curar. Nerim lhe garantiu que não se tratava de uma ulceração. Mat se sentiu presunçoso até a quarta tarde. Estava voltando depois de guardar Pips no estábulo da estalagem — O Arco do Sul era uma construção imunda de dois andares de tijolos com reboco branco em So Tehar, uma aldeia imunda de tijolos com reboco branco e muitas moscas — quando algo macio o acertou em cheio entre os ombros. Com as narinas impregnadas do cheiro de esterco de cavalo, ele se virou, pronto para torcer o pescoço de algum jovem cavalariço ou de um dos grosseirões taciturnos de So Tehar, sem nem ligar se o sujeito tinha ou não uma faca. Não havia nenhum jovem cavalariço e nenhum grosseirão. Só Adeleas, rascunhando compenetrada em seu livreto e assentindo para si mesma. Suas mãos estavam bem limpas.
Mat entrou, pediu um ponche para a estalajadeira, e então mudou de ideia e a fez lhe servir, em vez disso, um conhaque, um líquido turvo que a mulher magricela jurava ser feito de ameixa, mas cujo sabor era de algo que talvez servisse para remover ferrugem. Juilin se contentou em apenas fungar, e Thom não fez nem isso. Até Nalesean só fez dar um golinho antes de pedir um ponche, e Nalesean bebia qualquer coisa. Mat perdeu a conta de quantos minúsculos copinhos de estanho esvaziou, mas, independentemente de quantos tenham sido, foram necessários Nerim e Lopin juntos para levá-lo para a cama. Ele nunca se permitira pensar muito sobre se a cabeça de raposa tinha algum limite. Já tivera provas mais que suficientes de que ela deteria saidar, mas se tudo o que elas precisassem fazer fosse usar o Poder para apanhar algum objeto e arremessá-lo nele… Melhor que nada, ficava repetindo para si mesmo, deitado em seu colchão encaroçado e observando as sombras do luar cruzarem o teto devagar. Bem melhor que nada. Mas, se tivesse sido capaz de levantar sozinho, teria voltado lá para baixo para tomar mais conhaque.
E era por isso que ele estava de péssimo humor, com a língua parecendo estar revestida de penas e a cabeça tomada por tocadores de tambor a martelá-los, além do suor lhe escorrendo pelo corpo por conta do sol a pino, quando, no quinto dia, a estrada chegou ao topo de uma elevação que revelou Ebou Dar ali abaixo, estendendo-se no amplo Rio Eldar com uma grande baía repleta de navios mais além.
Sua primeira impressão da cidade foi o branco. Construções brancas, palácios brancos, pináculos e torres brancas. Nas cúpulas parecidas com nabos ou peras brancas afiadas, viam-se com frequência anéis carmesins, azuis ou dourados, mas a cidade era, principalmente, branca, e refletia a luz do sol até quase doer nos olhos. O portão para onde a estrada conduzia dava num arco largo, alto e pontiagudo numa parede de reboco branco tão grossa que Mat cavalgou à sombra por vinte passadas antes de tornar a emergir para o sol. Parecia ser uma cidade de praças, canais e pontes, praças grandes cheias de gente, com fontes e estátuas no centro, canais largos e canais estreitos com homens prendendo barcaças a estacas ao longo de seus cursos, pontes de todos os tamanhos, umas baixas, outras arqueando lá em cima, algumas tão grandes que até lojas se enfileiravam em suas laterais. Palácios com grossos pórticos colunados ficavam lado a lado com lojas que ofertavam tapetes e tecidos. Casas de quatro andares com imensas janelas em arco escondidas por detrás de venezianas horizontais ladeavam estábulos, cuteleiros e peixeiros.
Foi numa dessas praças que Vandene puxou as rédeas para discutir algo com Adeleas, enquanto Nynaeve franzia o cenho para as duas e Elayne observava tudo como se seus olhos fossem transformá-las em gelo. A pedido de Elayne, Aviendha montara em seu baio magricelo para a entrada na cidade, mas, àquela altura, já tinha descido com a mesma falta de habilidade com que subira na sela. Olhava para tudo quase com a mesma curiosidade de Olver, cujos olhos haviam se arregalado desde o primeiro momento em que a cidade surgiu. Birgitte dava a impressão de estar tentando se manter no encalço de Elayne numa imitação de Jaem com Vandene.
Mat aproveitou a oportunidade para se abanar com o chapéu e dar uma olhada no entorno.
O maior palácio que ele já tinha visto ocupava um lado inteiro da praça, repleto de cúpulas, pináculos e colunatas três ou quatro andares acima do chão. Nos outros três lados, casarões se misturavam a estalagens e lojas, cada qual tão branca quanto a outra. Uma estátua de mulher com as vestes ao vento, mais alta que um Ogier, ficava num pedestal ainda mais alto bem no meio da praça, um dos braços erguido para apontar para o sul, na direção do mar. Só havia umas poucas pessoas andando pelos paralelepípedos claros, o que, naquele calor, não era de se surpreender. Algumas faziam sua refeição do meio-dia no primeiro degrau do pedestal, e pombos e gaivotas revoavam aqui e ali lutando por restos de comida. Era uma cena de pura tranquilidade. Mat não entendeu por que, de repente, sentiu os dados rolando em sua cabeça.
Conhecia muito bem aquela sensação. Às vezes, sentia-a na jogatina quando sua sorte estava à toda. Ela sempre aparecia quando uma batalha se aproximava. E a sensação também parecia surgir quando havia alguma decisão vital a ser tomada, do tipo em que a escolha errada poderia muito bem ser fatal.
— Agora vamos entrar por um dos portões menores — anunciou Vandene. Adeleas estava assentindo com a cabeça. — Merilille vai cuidar para que nos deem quartos para descansar.
Aquilo devia significar que aquele era o Palácio Tarasin, onde Tylin Quintara, da Casa Mitsobar, ocupava o Trono dos Ventos e, na prática, governava talvez até cem milhas em torno de Ebou Dar. Uma das poucas coisas que Mat conseguira descobrir a respeito dos objetivos da viagem era que elas iriam se encontrar com outra Aes Sedai no palácio, e com Tylin, claro. As Aes Sedai teriam um encontro com a Rainha. Mat olhou para aquela imensidão de mármore reluzente e pedra com reboco branco e pensou em como seria ficar naquele local. Costumava apreciar palácios. Gostava, pelo menos, de qualquer lugar com serviçais e ouro, e uma cama de penas cairia bem. Mas um Palácio Real significava avistar nobres sempre que se virasse a cabeça para o lado. Mat preferia nobres em doses moderadas — até Nalesean podia ser irritante. Um palácio daquele tamanho ou o faria se perguntar o tempo inteiro onde Nynaeve e Elayne estariam ou talvez ficar o tempo todo de olho nelas. Mat não tinha certeza se seria pior se elas permitissem que ele as acompanhasse até lá como um guarda-costas ou se recusassem. Ele quase era capaz de escutar Elayne dizendo com aquela voz calma: “Encontrem por gentileza acomodações para Mestre Cauthon e para os meus homens. Cuidem para que eles sejam alimentados e tenham água.” Ah, ela com certeza faria isso. Apareceria de supetão para as suas inspeções e para mandá-lo fazer alguma coisa que ele já estava a ponto de fazer. Ainda assim, se havia algum local onde ela e Nynaeve estariam seguras, esse local era dentro do palácio de uma rainha. Além disso, o que Mat queria era algum lugar onde pudesse colocar os pés para cima e tomar ponche com uma garota em seu colo para lhe acalmar os ânimos. Toalhas úmidas também cairiam bem. Sua cabeça doía. O sermão afetado que Elayne dera naquela manhã sobre os males da bebida e sobre dar exemplo para os outros homens ainda ecoava em seus ouvidos. Era mais uma razão pela qual ele precisava bater o pé. Estivera fraco demais para retrucar, tendo acabado de sair da cama e já se perguntando se conseguiria se lançar sobre o dorso de Pips, e ela já tinha ido longe demais muitas vezes. Se ele não botasse logo um ponto final naquilo, Elayne acabaria fazendo com que ele a saudasse com a mão na testa.