— Vocês duas devem ser Elayne e Nynaeve. — Tylin ocupou uma cadeira entalhada para imitar bambu, ainda que coberta de douraduras, e arrumou as saias com cuidado, sem tirar os olhos das duas. Tinha uma voz profunda, melodiosa e impositiva. — Soube também de uma terceira… Aviendha?
Nynaeve e Elayne se entreolharam. Não houvera nenhum convite para que se sentassem, nem mesmo uma olhada na direção de alguma cadeira.
— Ela não é Aes Sedai — começou Elayne, com toda a calma.
Antes que a jovem pudesse dizer qualquer outra coisa, Tylin se adiantou:
— E vocês são? Você viveu no máximo dezoito invernos, Elayne. E você, Nynaeve, me encarando feito um gato com o rabo preso, viveu quantos? Vinte e dois? Vinte e três, talvez? Ah, que me espetem o fígado! Já visitei Tar Valon, fui à Torre Branca. Duvido que alguma mulher da idade de vocês já tenha usado esse anel de serpente na mão direita.
— Vinte e seis! — retrucou Nynaeve. Depois de viver com boa parte do Círculo das Mulheres de Campo de Emond a achando jovem demais para ser Sabedoria, tinha adquirido o hábito de se vangloriar de todos os dias do nome que pudesse reivindicar para si. — Tenho vinte e seis e sou uma Aes Sedai da Ajah Amarela. — Ainda sentia uma pontada de orgulho ao dizer aquilo. — Elayne até pode ter dezoito, mas também é Aes Sedai, e da Ajah Verde. Acha que Merilille ou Vandene nos deixariam usar estes anéis de brincadeira? Muita coisa mudou, Tylin. O Trono de Amyrlin, Egwene al’Vere, tem a mesma idade de Elayne.
— Tem, é? — retrucou a Rainha, com a voz neutra. — Não me disseram. Primeiro a Aes Sedai que esteve ao meu lado desde que assumi o trono, e que, antes de mim, aconselhava meu pai, volta para a Torre de repente e sem nenhuma explicação, só depois descubro que os boatos sobre a Torre dividida são verdadeiros… Depois os Devotos do Dragão parecem brotar do chão, então uma Amyrlin é escolhida para se opor a Elaida, e as dissidentes reúnem um exército comandado por um dos grandes capitães, dentro de Altara sem eu nem ficar sabendo… Bem, com tudo isso acontecendo, não se pode esperar que eu vá morrer de amores com essas surpresas.
Nynaeve torcia para que seu rosto não transmitisse o enjoo que sentia. Por que não aprendia a controlar a língua? De repente, percebeu que não conseguia mais sentir a Fonte Verdadeira — a raiva e a vergonha não conviviam muito bem. Bom, talvez fosse melhor assim. Se pudesse canalizar, talvez fizesse ainda mais papel de tola.
Sem nem hesitar, Elayne tomou a iniciativa de pôr panos quentes:
— Sei que já ouviu isto antes, mas me permita acrescentar minhas desculpas às de Merilille e as outras. Foi um erro reunir um exército dentro de suas fronteiras sem sua permissão. Só o que posso lhe oferecer como atenuante é que tudo aconteceu muito rápido e que nós, em Salidar, também acabamos pegas de surpresa com a magnitude de tudo. Não que isso seja desculpa. Posso jurar que não há intenção de fazer nenhum mal a Altara e que nunca tivemos a menor intenção de insultar o Trono dos Ventos. Agora mesmo, enquanto conversamos, Gareth Bryne está conduzindo o exército para o norte, para fora de Altara.
Tylin a encarou sem nem piscar.
— Não ouvi nenhuma palavra de desculpas ou de arrependimento antes das suas. Bem, qualquer governante de Altara deve aprender a engolir insultos de forças mais poderosas, e sem um copo d’água para ajudá-los a descer. — Ela respirou fundo e indicou a cadeira, as rendas das mangas balançando. — Sentem-se, as duas. Apoiem-se nas facas e soltem a língua. — O pequeno sorriso que ela abriu parecia prestes a se alargar. — Não sei como dizem isso em Andor. Fiquem à vontade e podem falar o que vier à cabeça.
Nynaeve achou ótimo ver os olhos azuis de Elayne se arregalarem de surpresa, já que ela própria arfou bem alto. Era aquela a mulher que Merilille afirmara exigir cerimônia entalhada em mármore polido? Ficou mais que satisfeita em se sentar. Considerando todas as correntes que se escondiam entre as Aes Sedai de Salidar, ficou se perguntando se Tylin estaria tentando… bem, tentando o quê? Já passara a esperar que todos que não fossem amigos bem próximos tentassem manipulá-la. Elayne se sentou bem na pontinha da cadeira, muito rija.
— Eu estou falando sério — insistiu Tylin. — Não importa o que as duas disserem, prometo não me ofender.
Ainda assim, a julgar pelo modo como ela tamborilava no punho incrustado da faca presa à cintura, o silêncio poderia ser considerado uma ofensa.
— Não sei bem por onde começar — disse Nynaeve por fim, um tanto hesitante. Preferia que Elayne não tivesse aquiescido ao ouvi-la falar aquilo. Ela é que devia saber como lidar com reis e rainhas. Por que a menina não começava logo a falar?
— Bem, comece contando o porquê — rebateu a Rainha, impaciente. — Por que mais quatro Aes Sedai vieram de Salidar aqui para Ebou Dar? Não pode ser para diminuir a influência da missão diplomática de Elaida, já que Teslyn nem se atreve a se chamar disso, e só vieram ela e Joline… Ah, vocês não sabiam? — Jogando o corpo para trás, na cadeira, a Rainha começou a rir, apertando a mãos contra os lábios. — Vocês pelo menos sabem dos Mantos-brancos, não sabem? — Ela sacudiu a mão livre, como se cortasse o ar diante de si. O arroubo de divertimento foi se amainando aos poucos. — Mas que ousadia dos Manto-brancos! Mas, bem, preciso ouvir a todos que me cortejam, tanto o Lorde Inquisidor Carridin quanto os outros.
— Mas por quê? — indagou Nynaeve. — Fico feliz que você não goste dos Mantos-brancos, mas, nesse caso, por que precisa escutar Carridin? Aquele homem é um carniceiro!
Na mesma hora, soube que cometera outro erro. Soube disso assim que viu o modo como Elayne de repente passou a analisar a enorme lareira branca, com a larga cornija entalhada em ondas altíssimas — a certeza veio antes mesmo que o último vestígio da risada de Tylin se apagasse feito uma vela.
— Bem, vocês de fato me levaram ao pé da letra — afirmou a Rainha, tranquila. — Ora, eu disse para vocês soltarem a língua, então… — Aqueles olhos escuros se voltaram para os ladrilhos do piso, e ela pareceu se recompor.
Em busca de alguma pista do que fizera de errado — ou melhor, de como consertar as coisas —, Nynaeve olhou para Elayne, que apenas a encarou de soslaio e balançou a cabeça bem de leve, antes de voltar a analisar as ondas de mármore. Será que também deveria evitar olhar para Tylin? Mas a Rainha, ainda encarando o chão, fez algo que lhe chamou a atenção: com uma das mãos, alisou o punho da adaga curva enquanto, com a outra, correu os dedos pelo punho da arma menor, aninhada entre os seios.
A faca de casamento dizia muito sobre Tylin. Vandene e Adeleas tinham se mostrado mais que dispostas a explicar algumas coisas sobre Ebou Dar, em geral os aspectos que faziam a cidade parecer pouco segura para qualquer um que não andasse cercado por dez guardas em armaduras. A bainha branca indicava que a Rainha ficara viúva e não pretendia voltar a se casar, enquanto as quatro pérolas e a gota de fogo incrustada no punho da arma, envolto em ouro, indicavam que ela dera à luz quatro filhos e uma filha. Por sua vez, o esmalte branco que amparava a gota de fogo e o esmalte vermelho em três das pérolas salientavam que apenas um dos filhos sobrevivera — e todos tinham pelo menos dezesseis anos quando morreram em algum duelo, ou as joias estariam amparadas em esmalte preto. Como seria carregar aquela lembrança o tempo todo? Vandene dissera que as mulheres viam o esmalte vermelho e o branco como motivo de orgulho, fossem para amparar pérolas, gotas de fogo ou vidro colorido. Vandene ainda dissera que muitas mulheres removiam as pedras dos filhos com mais de dezesseis anos que se recusavam a duelar e nunca mais sequer dirigiam a palavra a eles.